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Lei & desordem

Uma busca online pela palavra Watergate aponta um aumento de seu uso há 18 meses

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2018 | 03h00

Watergate. Uma busca online pela palavra Watergate aponta um aumento expressivo de seu uso há 18 meses. Afinal, o único presidente da história americana que foi enxotado da Casa Branca, em 1974, é a referência na memória coletiva para a resistência do Executivo aos malfeitos de seu principal ocupante. Richard Nixon renunciou, em agosto de 1974, depois que a Câmara aprovou três artigos de impeachment, antes do voto para condená-lo no Senado.

As menções a Watergate, na última semana, se devem não só à esperada demissão do Secretário de Justiça, Jeff Sessions, odiado pelo presidente desde que, em maio de 2017, se afastou da investigação do conselheiro Robert Mueller sobre a interferência russa na eleição de 2016 pelo óbvio conflito de interesse de ter feito campanha para eleger o então candidato.

O cheiro de enxofre do escândalo voltou porque o indicado para o lugar de Sessions é Matthew Whitaker que, entre outras desqualificações, integrava o comitê gestor de uma empresa de marketing de patentes investigada pelo FBI por fraudar clientes. Entre as vítimas, há inúmeros veteranos de guerra, inclusive portadores de deficiência física, que perderam toda sua poupança. Mas, aos olhos da Casa Branca, o que importa no currículo de Whitaker, até a semana passada chefe de gabinete de Sessions, lá instalado para espionar para o novo chefe, é o fato de ter afirmado que não há nada a investigar. Mesmo sem saber o que mais Mueller descobriu, depois de dezenas de indiciamentos e delações premiadas e antes da publicação do relatório final da investigação que envolve alguns dos mais afiados promotores do país. 

Com sua nomeação já declarada inconstitucional por alguns juristas, Whitaker passa a ter acesso direto aos passos da equipe de Mueller que, ao contrário da turma da Lava Jato, não vaza nada, nadinha. A queda de Richard Nixon começou a se tornar inevitável 10 meses antes, quando ele interferiu na investigação do Departamento de Justiça, no episódio conhecido como o Massacre de Sábado à Noite, em outubro de 1973.

Daí a volta da referência a um Watergate em câmera lenta. É comum comentaristas fazerem paralelos entre este momento e os dois anos que separaram a invasão da sede do Partido Democrata no edifício Watergate, em junho de 1972, e a renúncia de Nixon. Mas as diferenças são maiores. 

Para começo de conversa, Nixon era um leitor voraz, um intelectual, um estrategista global, que tinha dedicado sua vida à política. Era também um solitário, uma personalidade paranoica que não sabia distinguir entre adversários políticos e inimigos. Foi destruído por seu caráter, pela obsessão em obter, a qualquer custo, informação sobre críticos e políticos que pudessem atravessar seu caminho e por usar a máquina do governo para perseguir figuras de sua famosa lista de inimigos.

O atual presidente não consegue ler nem o briefing tradicional que faz parte da rotina matinal da presidência. Seu caráter foi vastamente exposto antes da eleição, em episódios como a gravação em que se gabava de assédio sexual, o que não fez qualquer diferença para a massa de supostamente devotos evangélicos brancos que o apoiam. Se demonstra alguma anomalia, na opinião quase unânime de críticos, é a desordem de personalidade narcisista. E, se há algo de estrategista nele, é a intenção de quebrar tudo, numa campanha sistemática para demolir a confiança pública na separação de poderes e nas instituições que sustentaram a democracia americana desde 1791.

Na semana passada, o historiador de presidentes Michael Beschloss disse que esse momento parece “dez vezes pior do que Watergate.” O tempo definirá com mais precisão esta multiplicação. Mas a principal diferença não está na personalidade de dois homens. Está no poder da imprensa então e agora.

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