Mario Anzuoni/Reuters
Mario Anzuoni/Reuters

Legalidade é a questão, prega Ziggy

Com CD Wild and Free e o gibi Marijuanaman, ele quer maconha livre

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2011 | 00h00

Dos filhos astros de Bob Marley, Damian, de 33 anos, é o experimentalista (entrou agora de carona na nova superbanda de Mick Jagger e Joss Stone, o Superheavy); Julian, de 36 anos, é o mais tradicionalista, Jah na cabeça; Rohan namora a top brasileira Isabeli Fontana (antes, teve tempo de ser o pai dos 4 filhos de Lauryn Hill); e Ziggy Marley, o mais velho, de 43 anos, vive à imagem e semelhança do seu velho.

"A primeira coisa que me lembro sempre que a palavra Brasil é pronunciada é o futebol, meu pai assistindo jogos do Flamengo e da sua seleção ou brasileiros participando de partidas de futebol com ele", conta Ziggy, falando ao Estado por telefone. Ele tinha 13 anos quando o pai morreu. "O futebol sempre esteve presente na minha infância".

Ziggy, nascido David Nesta Marley em Trenchtown, Jamaica, está lançando o disco Wild and Free (Sony Music), um álbum-manifesto engajado pela aprovação da Proposition 19, uma lei que vai liberar o uso da marijuana na Califórnia, onde ele vive. O álbum tem as participações do ator Woody Harrelson na faixa-título (ambos entoam juntos os versos "campos de maconha crescendo selvagens e livres", sob sintetizadores com uma pegada ao estilo Stevie Wonder); do rapper Heavy D na faixa It; e do filho de Ziggy, Daniel, em Changes.

O cantor esteve aqui este ano abrindo shows de Shakira. Na ocasião, não procurou o debate, mas agora colocou seu megafone na rua. Por que Ziggy acha que se deva legalizar a maconha? "O importante é saber que a planta não se destina somente ao fumo. Tem usos medicinais, têxteis, etc. Cannabis é uma planta, e o uso de uma planta só pode beneficiar o ambiente. Destrói infinitamente menos que produtos químicos e industriais. Então, é preciso ver para além do ato de fumar nessa discussão", ele explica.

Diz que não tem como prever se essa legalização em países que levantam agora a discussão, como o Brasil (que tem até o presidente Fernando Henrique Cardoso envolvido no esforço), poderá afetar os índices de criminalidade. "Não sei se acaba com a violência, mas vai aliviar a situação social. Há toda uma cadeia de criminalidade em torno dessa ilegalidade. Se é legalizada, como não será mais crime, acaba a especulação e o comércio subterrâneo. Será como fumar um cigarro. Muitas crianças não vão mais para a cadeia por fumar um baseado."

Segundo Ziggy, a militância nessa causa não o transforma num "briguento" nem tem ocasionado confrontos. "Não é uma luta. Eu não brigo com ninguém. Nós amamos todo mundo, inclusive quem não quer a legalização. Mas o fato é que não estamos mentindo sobre os efeitos sociais e físicos do uso da maconha. Estamos tentando esclarecer as coisas de um outro ponto de vista."

O disco, que tem canções funkeadas (Forward to Love), outras tingidas com sabor de gospel (caso de Mmmm Mmmm), aborda da política (Road Less Traveled) ao ambientalismo (Get Out of Town). No meio de tudo isso, a marca do clã Marley: a revolução interna permanente. Ziggy fala disso na canção intitulada Personal Revolution. Mas o que é uma revolução pessoal para Ziggy Marley? "É algo que não passa pela vida material e social. São as coisas espirituais, trata-se de achar o ser humano dentro de você, achar a forma de viver junto e em paz. Eu tenho a convicção que a solução para os conflitos do mundo nunca vai estar nas coisas políticas, mas nas espirituais. A grande revolução está dentro da gente.

Ziggy, que dirige o selo Tuff Gong Worldwide, responsável por tudo que diz respeito à obra do pai (desde o website de Bob Marley até uma mostra recentemente aberta no Grammy Museum de Los Angeles em memória dos 30 anos da morte de Bob), diz que não sabe dar uma definição precisa do reggae. "Não sei. Reggae trata da vibração da música. Quando você ouve uma canção como One Drop, é algo meditativo, algo que transforma a pessoa numa criança espiritual."

Além do álbum-manifesto, Ziggy também acaba de lançar um gibi com a temática da liberação da maconha, Marijuanaman (Image Comics). O álbum, de 48 páginas, colorido, tem como herói um personagem inventado pelo cantor, um super-herói que defende a Terra a partir de seus recursos naturais e que vê numa certa "planta versátil" a fonte de toda salvação. É escrito por Joe Casey (GØdland, Butcher Baker) e ilustrado por Jim Mahfood (Kick Drum Comix e Mix Tape).

WILD AND FREE

Ziggy Marley

Sony Music, R$ 30

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