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Lee Ranaldo à sombra do Sonic Youth

Show do guitarrista com sua nova banda deixa sutil gosto de insatisfação

ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2013 | 02h15

O grupo Lee Ranaldo and the Dust equivale a metade do Sonic Youth. Nas baquetas, atrás do lendário guitarrista, toca Steve Shelley, ex-parceiro de Kim e Thurston, cuja intensidade sempre deixou claro, a cada compasso inicial, que o público estava na presença de mestres. O ritmo denso, levemente arrastado, e o familiar timbre de guitarra convidaram o público a aglomerar-se em frente ao palco do Sesc Pompeia na sexta-feira, para assistir o primeiro de dois shows do guitarrista em São Paulo, em uma turnê que ainda terá, amanhã e quarta, performance audiovisual de Lee e sua mulher, Leah Singer.

Estava frio, e a distorção convidativa de Ranaldo foi a calefação do recinto nos minutos iniciais do show, aberto com uma música inédita, do próximo disco, que deve sair em outubro. Presentes estavam fãs do Sonic Youth, que cresceram ouvindo Goo e Daydream Nation, mas a maioria era de jovens que idolatram uma banda desfeita, cujas revoluções eles escutam em disco (um atestado à força da obra do quarteto). A venerada banda foi o grande desfalque da noite. Embora as canções apresentadas por Ranaldo - quase todas de um só disco solo, Between the Times and the Tides, lançado no ano passado - tenham vida própria, é como um reflexo pavloviano ouvir sua guitarra acompanhada de Steve Shelley e esperar os apocalipses de microfonia e distorção que o Sonic Youth tantas vezes desferiu em palcos brasileiros (a última visita foi no SWU, em 2011).

Não se trata apenas de delírios experimentais. Espera-se também, ao ouvir Lee, a fúria com que o Sonic Youth costurava suas canções, da qual o guitarrista parece ter abdicado em troca de um som mais prazenteiro, ótimo no disco, mas que deixa, por quase todo o show um sutil gosto de insatisfação. É claro que estamos falando de mestres, e qualquer banda acompanhada pelo troncudo Steve Shelley vale o ingresso, apenas pela apreciação da maneira com que o músico canaliza seu foco em densidade rítmica. Alan Licht e Tim Luntzel, na guitarra e no baixo, também tocam o fino dentro da linguagem caótica disseminada pelo Sonic Youth. Mas as mudanças de clima na canção Tomorrow Never Comes, apresentada por Ranaldo como uma composição "esquizofrênica", nos fazem perguntar por que o lado negro da música não vai ao fundo de sua angústia. Sucede uma dinâmica passiva-agressiva perpetuada pelo The Dust até o fim do show, em que a agressão parece ser controlada e a tranquilidade esconde a instabilidade.

O som pacato regulado pelo Sesc, que parece não entender a diferença entre o volume necessário para um show de Maria Gadú e um do Metallica, também não ajudou. E talvez as canções de Ranaldo sejam castradoras. Tanto que o grande momento em que a banda teve liberdade para explorar o peso de uma faixa, sem culpa, aconteceu em She Cracked, dos Modern Lovers, de 1972, influência antiga do Sonic Youth. Foi então que Ranaldo igualou a força de um show solo de seu ex-parceiro Thurston Moore, e deixou claro a falta que lhe faz tocar à direita do guitarrista. Nos outros momentos, o músico ganhou a plateia no papo, contando histórias sobre uma garota que, em sua adolescência parecia ser destinada ao sucesso, mas sumiu e virou a canção Xtina as I Knew Her - ou relatando como o movimento Occupy Wall Street foi um exemplo de manifestação pacifista: gentilezas que funcionariam melhor se não faltasse pimenta a determinadas partes de seus show.

MUSICALMENTE, TRANQUILIDADE NO PALCO PARECE ESCONDER CERTA INSTABILIDADE

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