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Lee Chang-Dong e a busca da beleza

Autor de Poesia fala do belo filme coreano que recebeu o prêmio de melhor roteiro em Cannes, no ano passado

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2011 | 00h00

Quando esteve no Brasil, no ano passado, o crítico Michel Ciment, da revista Positif - rival de Cahiers du Cinéma -, disse que, por interessante que tenha sido, a vitória de Apichatpong Weearsethakul, por Tio Boonmee, em Cannes, 2010, foi injusta. Até o fim, Positif, e ele, torceram por Poetry, de Lee Chang-dong, que voltava a Cannes após vencer o prêmio de atriz por Secret Sunshine, Jeon Do-yeon, em 2007. Ciment não era um defensor solitário da obra-prima coreana. Poetry foi muito bem recebido, ganhou muitas Palmas de Ouro (o máximo) no guia de cotações da crítica internacional. Com o título de Poesia, estreia hoje. É o chamado programa "imperdível".

Em plena temporada do Oscar - e no fim de semana de entrega do prêmio da Academia de Hollywood as atenções estão todas voltadas para o Kodak Theatre, em Los Angeles -, Poetry vem mostrar que existe um outro olhar, um cinema alternativo ao norte-americano, que é hegemônico. A entrevista com Lee Chang-dong foi realizada em Cannes, no ano passado, com ajuda de tradutor, o que sempre entrava um pouco o diálogo. Quando ela foi feita, o cineasta ainda não sabia que, na partilha dos prêmios, lhe caberia o de melhor roteiro. Embora a Palma fosse melhor, o prêmio deve ter sido muito bem recebido por ele. Além de diretor e roteirista, Lee Chang-dong é romancista e, como Gilberto Gil no País, foi ministro da Cultura da Coreia do Sul.

Secret Sunshine era sobre uma mulher que sofria uma transformação ao perder o marido e, depois, o filho. Em Poetry, outra mulher, outra transformação, provocada pela doença. Até que ponto as histórias são importantes para você?

Elas são sempre um ponto de partida. Em Poetry, me baseei numa história real, a de uma garota que foi estuprada por colegas e se suicidou. Tinha essa situação realmente forte, mas é preciso fazer a diferença entre "história" e "tema". Ao crime, eu terminei aqui superpondo a história da idosa que descobre que sofre de Alzheimer. É uma situação dolorosa, a certeza de que vai mergulhar no esquecimento, que vai perder o vínculo com a realidade. Ela reage inscrevendo-se num curso de poesia. Em Secret Sunshine, estava retomando a atividade como diretor, após o exercício do ministério. Tentei ser o mais simples possível. Em Poetry, tentei ser simples, mas a complexidade da história e dos personagens me abriu um leque muito grande de temas. O filme ficou mais abrangente e rico, mas isso, claro, vai depender do espectador.

O título participa da complexidade. Por que Poesia?

A poesia tende a ser abstrata. Poemas, em geral, são sobre coisas que não vemos e me parecia intrigante trabalhar com abstrações num meio tão concreto e visual como o cinema. A poesia responde a questões profundas, ao próprio sentido da vida. Satisfaz nossa necessidade de beleza e tudo isso contribui para a tessitura temática, e dramática do filme. A poesia interage com as histórias. Foi um roteiro que me saiu de um jato, mas depois fiquei polindo. Acho que se percebe isso.

No ano passado tivemos uma excepcional atriz coreana em Mother, de Bong Joon-ho, Kim Hye-ja. Mija é interpretada por outra veterana, Yun Jeong-hie. Como chegou a ela?

Mija carrega um peso, a doença. É idosa, mas tem o coração de uma garota. Precisava de uma atriz que pertencesse ao mundo real, com quem o público pudesse se identificar. Yun Jeong-hie foi uma grande estrela coreana nos anos 1960 e 70. Depois, ela se casou e se dedicou à família. Quando a conheci, achei que ela tinha o tipo de persona luminosa de que eu necessitava. A personagem é muito interiorizada, não tem uma grande cena. Sem a atriz certa, não funcionaria.

POESIA

Shi/Poetry. Coreia do Sul/2010, 139 min. Drama.

Direção: Lee Chang-dong.

16 anos.

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