Lêdo Ivo, a poética de um mestre

Duas publicações póstumas ajudam a completar o perfil de alguém que dedicou a vida à prática das letras

MOACIR AMÂNCIO, Especial para o Estado

06 de julho de 2013 | 02h11

Duas publicações póstumas de Lêdo Ivo (1924-2012): a coletânea de poemas Mormaço mais as anotações prosaicas e poéticas de Afastem-se as Hélices, até agora inédita que sai com a reedição de O Aluno Relapso, ajudando a completar o perfil de alguém que dedicou a vida à prática das letras. Essa prosa vem a calhar, pois permite a reconstituição de uma trajetória. O autor comenta amizades, situações, experiências brasileiras e europeias. E propõe questões, uma delas se refere ao ponto-chave da literatura e da arte em geral: a linguagem, e que se reflete em sua obra poética, clara e franca mesmo quando a tonalidade se torna opalescente.

As preferências do poeta são explícitas. Identificação e opção. Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, Whitman. Todos malcomportados, na vida e arte. Interessante, no entanto, que mesmo com esse time de poetas da renovação, o brasileiro coloca em xeque a ideia da arte que realmente se transforma e transforma. Em Rumo ao Farol, apresenta uma síntese do projeto de quem "aprendeu que, através dos anos e dos séculos, a poesia não progride" (pág. 130, de Afastem-se das Hélices). Resulta disso que "rupturas e mudanças, as revoluções estéticas mais desabridas, as experimentações mais desvairadas não têm o poder de proceder a metamorfoses; são apenas acréscimos. Ou instantes ambiciosos ou frenéticos que o tempo ou o vento, haverá de apagar". E, contra a contenção, a linguagem descarnada em moda, o mar da língua portuguesa onde se revolvem cerca de 330 mil palavras à espera de poetas dispostos a potencializá-las. ( Aula de Poesia, pág. 155, de Mormaço).

Toda atitude implica riscos decorrentes dela mesma. Lêdo Ivo domina o idioma, controla o verbo e os modelos poéticos, em sua obra há momentos realizados que deixam para trás a provável sensação do já visto aqui e ali, ao assumir o já visto de modo criativo e consistente - veja-se por exemplo O Esquartejador (pág. 89, A Dádiva; pág. 175, Uma Laranja; pág. 187, de Mormaço). A situação fica complicada, no entanto, quando se atenta para a persistente recorrência a uma espécie de estoque imagético-emocional secular (eterno?), o que pode conduzir a um impasse (superado em momentos como aquele do Esquartejador), em decorrência de uma, quem sabe, suspensão da veia crítica, motor da renovação avessa ao eco persistente.

O virtuosismo sempre pode ser um problema quando parece se tornar dominante - em Drummond ou Cabral também. São enfim os riscos e acertos de todo artista? Talvez valha a pena lembrar o exemplo do pintor: quando a mão direita se torna muito obediente, melhor trabalhar com a esquerda - mas só enquanto ela permanecer canhestra.

O ALUNO RELAPSO / AFASTEM-SE DAS HÉLICES

Autor: Lêdo Ivo.

Editora: Apicuri (152 págs., R$ 35).

MORMAÇO

Autor: Lêdo Ivo.

Ilustrador: Steven Alexander.

Editora: Contracapa (224 págs., R$ 68). 

* MOACIR AMÂNCIO É AUTOR DE ATA (RECORD) E DE YONA E O ANDRÓGINO - NOTAS SOBRE POESIA CABALA (NANKIN/EDUSP).

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