Leão de Ouro para duas artistas pioneiras

Duas artistas pioneiras serão contempladas na abertura oficial da bienal, amanhã, com o Leão de Ouro de Contribuição Artística: a austríaca Maria Lassnig, de 93 anos, e a italiana Marisa Merz, de 82. A ideia dos prêmios foi do curador Massimiliano Gioni. Em sua argumentação, ele destacou os 60 anos dedicados por Maria a investigar o corpo e a participação de Marisa como única mulher no movimento conhecido como arte Povera, do qual seu marido, Mario Merz, foi o expoente.

O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2013 | 02h07

Marisa nunca foi apenas a viúva de Mario Merz, mas um nome próprio da arte Povera. De sua primeira exposição, em 1967, a Tate Modern guarda, desde 2009, uma obra de referência do movimento, uma escultura em tiras de alumínio presas ao teto. Como se sabe, os artistas da arte Povera, assim batizada pelo crítico Germano Celant, usavam materiais "pobres" para subverter a lógica do mercado e o comodismo institucional.

As instalações de Marisa e suas esculturas lidam com a ideia do lar não como uma instituição familiar, mas uma extensão do fazer artístico ligado ao saber artesanal. Para ela, não existe distinção entre um bom bordado e uma boa pintura, o que ajudou muitos artistas contemporâneos depois dela (o brasileiro Leonilson, por exemplo) a ter uma relação mais elástica com a arte.

Em 1988, ela surpreendeu Veneza com uma instalação "site specific" em que se destacava uma cabeça de cera amorfa, metáfora do crédito de Marisa na ideia do tempo artístico como um tempo suspenso, em que o espetáculo efêmero perde para o momento contemplativo. Sedia (1966), uma de suas obras mais conhecidas, que representa um sofá de madeira e alumínio, exemplifica essa relação.

Maria, que integrou um grupo influenciado pelo expressionismo abstrato americano nos anos 1950, voltou-se para a questão do corpo, mas, ao contrário do realista inglês Lucian Freud, que tem em junho mostra no Masp/SP, a austríaca tem com a carne uma relação menos dramática. Conhecida por seus autorretratos, Maria é uma virtuose reverente ao passado da pintura (Rembrandt, especialmente), mas seu discurso é moderno.

Num desses retratos mais reproduzidos, que pode ser visto na mostra Palazzo Enciclopédico da Bienal, ela aponta uma arma para sua cabeça e outra para a do visitante. A arte, enfim, tanto pode agredir (e Lucian Freud o faz com seu realismo) como ser uma forma de autodefesa. Essa ambivalência é o que interessa a Maria Lassnig. / A.G.F.

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