Helvio Romero/Estadão
Helvio Romero/Estadão

Leandro Karnal escolhe e comenta seis colunas publicadas na pandemia da covid-19; veja quais são

Da grosseria das pessoas no início do isolamento à esperança no fim do ano: veja as principais colunas de Leandro Karnal publicadas pelo Estadão

Redação, O Estado de S. Paulo

13 de março de 2021 | 10h00

A pandemia do novo coronavírus mudou radicalmente a rotina de todas as pessoas. Novas regras de conduta surgiram, outras foram momentaneamente suspensas. Isso modificou profundamente as relações pessoais e profissionais, criando novas perspectivas mas também acentuando incertezas. Esse período foi refletido pelo historiador e escritor Leandro Karnal em suas colunas semanais no Estadão. Ele selecionou aqui os textos que considera mais significativos desse momento único.

  • A primavera troglodita (22/3/20)

“Por que as pessoas ficaram tão grosseiras? Logo após o início do isolamento, eu fiz esta reflexão”, explica Karnal.

O corpo precisa ser domesticado e curvado às regras de civilidade. A Idade Moderna trouxe esse imperativo para as rodas aristocráticas. O livro O Cortesão (de B. Castiglione), os grandes manuais de etiqueta, as normas sobre comportamento à mesa, o uso do lenço, a conversação agradável: tudo chega ao máximo com o ordenamento que terá por centro o palácio de Versalhes e o rei Luís 14. Terminado o Antigo Regime, a burguesia assumiu a demanda pela polidez necessária que a tornaria distinta da massa. Surgem escolas de boas maneiras e novos manuais sobre receber. Leia a coluna A primavera troglodita.

  • Aquilo que me nutre (21/6/20)

“Em 2020, um pouco antes do fechamento, comecei a fazer ficção nas colunas. Três delas mostram o ambiente que vivíamos. Eram formas de pensar sobre os sentimentos. A primeira que selecionei, Aquilo que me nutre, fala de um senhora isolada e seu animal de estimação. Isolamento e doenças são temas fortes da pandemia”, continua.

Dona Yeda chegara aos 83 anos viúva. A situação financeira era confortável. O marido a deixara bem. Os filhos a visitavam regularmente e, apesar da empregada durante o dia, ela insistia em morar sozinha. "Já cuidei de muita gente, agora eu quero paz", repetia a senhora diante da insistência familiar por uma acompanhante noturna. Sua companheira de velhice era uma cadelinha maltês que a seguia como uma sombra. Dolly tinha chegado semanas antes do falecimento do dr. Samuel. A empatia entre as duas tinha sido imediata.

Mulher de hábitos pétreos, a senhora acostumara-se a fazer sempre do jeito dela. "Personalidade decidida", dizia sua simpática funcionária da casa - "Teimosa como uma mula", garantia o filho do meio. Exemplo? Havia muitos remédios diários para os males da idade. Eram sete pela manhã e quatro antes de dormir. Ela colocara todos em uma caixa de papelão na cozinha e, duas vezes ao dia, ficava retirando cada medicamento da sua embalagem para tomar. A primogênita comprou um separador. Dona Yeda elogiou como era prática a invenção: bastava abrir a tampinha e colocar todos na mão! Não era necessário pegar os óculos e examinar cada caixa. "Que bom, minha filha", ela disse beijando a testa de Ana. Sim, era bom e era diferente; e a mudança de rotina era o grão de areia que a ostra de Yeda jamais transformaria em pérola. Quando a jovem virava as costas, ela retomava o hábito de separar uma a uma cada drágea, relendo as receitas de uma imensa junta médica, que ia do cardiologista, passava pelo reumatologista, até chegar ao geriatra. O processo era demorado e demandava uma ordem de memória e organização que já tinham desaparecido sob os belos cabelos brancos daquela senhora. Leia a coluna Aquilo que me nutre.

  • O novo normal (29/7/20)

“A segunda ficção é sobre um casal enfrentando a pandemia e entregas de comida”, conta Karnal.

Ana Paula leu a frase em Euclides da Cunha: "A vida normalizara-se naquela anormalidade". Ela baixou o tablet onde estava lendo Os Sertões e ficou pensativa. Não era a tragédia de Canudos que a intrigava, nem a destreza narrativa do autor fluminense. Ao retirar os olhos da leitura, ela viu o marido no sofá, de pijama e coberto por alguns pacotes de salgadinhos semiconsumidos. Leia a coluna O novo normal.

  • Duas livrarias e uma cidade (16/9/20)

“A terceira ficção selecionada fala da polarização política aumentada pela pandemia. Considero a história quase que meu manifesto sobre como eu vejo o poder real”, afirma o colunista.

A cidade era famosa pela população ordeira e leitora. Na rua principal, duas livrarias alimentavam a avidez do povo de Santa Cruz com ideias impressas. Eram separadas por poucos metros e, talvez, por milhares de quilômetros. Explico-me. Leia a coluna Duas livrarias e uma cidade.

  • A admiração que luta (11/10/20)

“Ver o mundo pelas redes sociais estimulou o ressentimento e a inveja. A coluna trata disto”, adianta Karnal.

Machado definiu a inveja como “a admiração que luta”. A afirmação está no genial Memórias Póstumas de Brás Cubas. Mas a nova lei de Humanitas proposta no livro diz que a inveja é um sentimento nobre e uma virtude, pois nasce do positivo de buscar alguém superior. A personagem do Bruxo do Cosme Velho é uma rara voz a favor da inveja. Leia a coluna A admiração que luta.

  • Esperança? (30/12/20)

“Encerrei o ano com desejo de dias melhores. A coluna final do ano passado foi sobre esperança”, justifica.

Mário Quintana garantia que ela habitava o décimo segundo andar do ano. E que se trata de uma mulher completamente ensandecida. No fim, ao ouvir os gritos de Ano Novo, ela se atira daquela altura distante e cai... feliz. Nenhum dano. A esperança está incólume na calçada. Milagre! É uma menina de novo! O lindo poema encerra com a curiosidade despertada pelo fato ímpar: “E em torno dela indagará o povo: - Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes? E ela lhes dirá (É preciso dizer-lhes tudo de novo!). Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam: - O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...” (Nova Antologia Poética, Globo, 1998. P. 118). O mesmo autor gaúcho garantia que sim, há problemas na vida. Há gente que atravanca o caminho. “Eles passarão. Eu passarinho”. É quase um haicai de esperança e de otimismo. Leia a coluna Esperança?

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