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Lúcia Guimarães
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Lealdades tiranas

O contraste era evidente. O no-drama-Obama dizia: "Nós ficamos presos num túnel do tempo dos anos 50, na diplomacia de canhão, e 'ianques' e Guerra Fria e isso e aquilo e aquilo outro". Cristina Kirchner e Nicolas Maduro continuavam a esbravejar com um espantalho vestido de Tio Sam. Sim, a ordem executiva de Obama sobre a Venezuela, aplicando sanções a membros do regime chavista por violações notórias de direitos humanos, com a linguagem de ameaça à segurança nacional americana foi quase cômica e deu mais munição a Maduro. O presidente venezuelano prefere recolher abaixo-assinados patrióticos do que se debruçar sobre os problemas de abastecimento e segurança na economia que flerta com um colapso. A Casa Branca percebeu o erro e, na semana passada, descobrimos que o Secretário de Estado John Kerry estava em Caracas aparando arestas.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2015 | 02h06

Na Cúpula das Américas, Obama foi claro: "Com frequência, nos intrometemos de maneira que vai além da persuasão e é contraproducente, o efeito é negativo". Em seguida, se dirigiu aos tiranos e corruptos do continente: "Eles nos usam como desculpa para seus fracassos de governo. Vamos tomar a desculpa deles". O recado de Obama era simples: os Estados Unidos não têm uma ideologia, têm propósitos. É uma pena que tantos latino-americanos vivam sob governantes que mascaram seu propósito - se perpetuar no poder - com tanta hipocrisia ideológica.

Enquanto Obama se distanciava da ideologia e explicava sua decisão de se reaproximar de Cuba ("Não estou interessado em batalhas que francamente começaram quando eu ainda não era nascido"), um jornalista americano encerrava sua carreira de 40 anos com uma eloquente denúncia da camisa de força ideológica. Um dos mais respeitados correspondentes do New York Times, John F. Burns se despediu dos leitores com um balanço que foi inspirado por outro grande correspondente, o italiano Tiziano Terzani. Já perto de morrer, Terzani disse a Burns e amigos reunidos à sua volta: "Nunca esqueçam, não é a distância que viajaram mas sim o que trouxeram de volta".

Ao refletir sobre quatro décadas cobrindo a antiga União Soviética e a China de Mao, incontáveis desastres e assassinatos, as guerras do Iraque e do Afeganistão, Burns diz o que aprendeu: "Não há limite para a demência, malícia e o sofrimento impostos a qualquer sociedade com uma ideologia dominante, e nenhuma perfídia que não possa ser justificada manipulando preceitos de um Mao ou um Marx, um Profeta Maomé ou um Kim Il-Sung".

O jornalista reconhece que, diante do que testemunhou, teve sua objetividade e independência testadas, mas lembra que seu primeiro editor, ao lhe despachar para a África do Sul sob o apartheid, alertou para não contar apenas a história evidente de opressão e descrever todos atores no conflito. Das distâncias que viajou, Burns trouxe na bagagem a convicção de que a ideologia colocada a serviço da tirania não discrimina entre direita ou esquerda.

Na última semana, observei na rede social brasileira discussões sobre assuntos tão variados como a legitimidade do serviço de transporte Uber e o assalto aos fundos de pensão dos Correios. A conversa era dominada por ideologia e os fatos eram o cachorro sacudido pela cauda. Não se pode culpar simplesmente a polarização incentivada pela mídia digital se os eleitos para legislar e governar são os primeiros a ofuscar debates públicos em interesse próprio.

O que torna a conclusão da despedida do correspondente especialmente oportuna. Mesmo sabendo que, ao voltar pra casa, não teme ser morto por deslealdade a um tirano, ele se confessa deprimido quando vê a lealdade a credos políticos de direita ou esquerda adotar a inflexibilidade comum aos estados totalitários que conheceu tão bem. Afinal, lembra Burns, nossa liberdade de pensar e falar foi duramente conquistada. Abusar desta liberdade tem um preço.

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