"Le Monde" dá destaque para Jorge Amado

"Jorge Amado, o liberador do povo brasileiro pela pena", é a manchete da página inteira - com chamada e foto na primeira - com o que o mais influente jornal francês, Le Monde, anunciou a morte do romancista baiano em sua edição de hoje. Desde as 8 horas, as emissoras de rádio e televisão francesas e européias noticiam e apresentam, em seus informativos e programas culturais a biografia do escritor, trechos de entrevistas concedidas quando de suas periódicas estadas na Europa. Na TV francesa, essas evocações foram ilustradas sobretudo com imagens de seu cotidiano em Paris, a cidade que ele mais amava depois de Salvador. As duas vertentes da saga amadiana - o engajamento político e a literatura- informaram os comentários da mídia eletrônica, com as alusões de rigor à sua condição de escritor brasileiro mais popular no mundo, traduzido em mais de 50 línguas e mais de 30 milhões de livros vendidos nos cinco continentes. "Ele não ganhou o Nobel, mas se contentava plenamente em ser premiado com a preferência do público internacional", precisou o editorial da rádio mais respeitada da França em assuntos de letras e arte, "France-Culture", para quem a obra romanesca de Jorge Amado se confunde quando não molda e fixa a própria identidade do povo brasileiro. "Como um homem consegue se identificar tão profundamente e durante tanto tempo com seu povo"? - foi precisamente a questão colocada por Le Monde. Na esteira dessa identificação, o jornal observou, o escritor, para a vendedora de acarajé, o capoerista, vagabundos, para o arcebispo ou o governante, não era "senhor ou mestre", mas apenas "o Jorge de todos". Para explicar o fenômeno, Le Monde refere-se às origens de Jorge, nascido numa plantação de cacau no Sul da Bahia e sua formação em meio àquela gente indômita cujos ícones iriam depois povoar o imaginário romanesco do escritor. "Um dos raros escritores no Brasil a viver da literatura, ele foi um profissional da escrita, mas generoso, entusiasta e convicto." Com uma síntese clara e precisa, Le Monde focalizou o engajamento político de Jorge, sua adesão ao PC, a perseguição que sofreu durante a ditadura de Getúlio Vargas, as prisões, os exílios, o afastamento da causa comunista diante dos horrores do stalinismo. Isto, depois de haver corrido em socorro das vítimas do totatalitarismo soviético como Boris Pasternak, London e outros. "Coragem nunca lhe faltou, inclusive para se desengajar do Partido em 1956, sob as imprecações de seus camaradas". Para o jornal francês, a contribuição maior oferecida pela obra de Jorge Amado à evolução histórica recente do Brasil foi a de, pela sua apologia da mestiçagem racial, dos sincretismos religiosos e dos demais valores coletivos próprios do País, haver afirmado o povo brasileiro na sua identidade multicultural. "Enquanto o sociólogo Gilberto Freyre realiza a crítica histórica do racismo, Amado, em Jubiabá e nos romances seguintes vai liberar seus leitores de um pesada culpabilidade, explicando-lhes o quanto a mistura racial tem de salutar e fecundo". Daí a razão por que "o fenômeno literário (desencadeado por Jorge) ganhou uma "dimensão sociológica". Ao necrológio assinado pelo escritor Jean Soublin, segue-se, em rodapé, um artigo de Lygia Fagundes Telles com o título O Coração Revoltado da Nação, comentando as diferentes facetas da obra amadiana.

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