Le Clézio alerta contra o rascismo

Olhar o outro, buscar entendê-lo, respeitá-lo, admirá-lo. Num momento em que o preconceito ameaça um retorno perigoso e anacrônico, há uma lição de humanismo nas prateleiras das livrarias, assinada por J.M.G. Le Clézio. O francês Jean-Marie Gustave L.C. é autor de O Peixe Dourado (Companhia das Letras, 210 págs., R$ 26), lançado recentemente no País, e também de várias obras que marcaram a literatura francesa contemporânea (é um escritor de leitura obrigatória no ensino médio francês).Nesse romance, publicado na França em 1997, ele, por meio da jovem negra Laila (noite, em árabe), faz um passeio pelo mundo contemporâneo, revelando seus preconceitos e intolerâncias ao mesmo tempo em que produz uma defesa elegante de um ser humano universal.Le Clézio, descendente de bretões que tentaram a sorte nas Ilhas Maurício, no século 18, e que cresceu à beira do mar Mediterrâneo, em Nice, define-se como um "mestiço". "Eu nasci durante a guerra na França colonial, passei um ano de minha infância na Nigéria, sob o domínio britânico, cresci escutando os ecos da guerra na Indochina, a revolta dos kikuyus na África e escapei por pouco da guerra da Argélia: toda a minha existência é marcada pelo horror ao preconceito racial e pela oposição à xenofobia e ao colonialismo, em todas as formas em que ele se exprime", escreveu à reportagem, em uma mensagem eletrônica enviada, muito provavelmente, de Albuquerque (Novo México, nos Estados Unidos), onde ele vive. Mas sabe-se lá: no dia em que os contatos para a entrevista foram feitos, ele estava na França; no ano passado, passou pelo Uzbequistão e também foi obrigado a desistir de entrar em contato com índios apaches de uma reserva próxima a sua casa.Em 1994, Le Clézio foi eleito pelos leitores da revista francesa Lire, especializada em literatura, o maior autor de língua francesa viva, superando nomes como o de Milan Kundera (A Insustentável Leveza do Ser) e Marguerite Duras (O Amante).Atualmente, a França vive uma espécie de paixão por escritores francófonos, que escrevem em francês, mas que não nasceram no País, numa tendência pluralista que era defendida por Le Clézio muito tempo atrás. Um dos nomes de destaque dessa tendência é o de Ahmadou Kourouma, autor de Allah n´Est Pas Obligé, nascido na Costa do Marfim e que deve ter esse livro lançado no Brasil no ano que vem pela Estação Liberdade."Na verdade, não gosto muito dessa palavra ´francofone´. Por que não falar apenas e simplesmente de literatura francesa, uma vez que a língua francesa é um modo de exprimir diversas culturas, diversas filosofias, e também se enriquece com esses aportes?", pergunta Le Clézio. "É a mesma língua a de Malcolm de Chazal e a de Marcel Proust; ou então seríamos obrigados a falar de uma líteratura nacional? Seria bem pior e ainda mais absurdo."Guerra - Como habitante dos Estados Unidos e como um escritor marcado por influências culturais as mais diversas, ele comentou a reação norte-americana aos atentados ao World Trade Center, em Nova York, e ao Pentágono, em Washington: "Os termos utilizados por George Bush - a ´cruzada´ e sua referência à luta do bem contra o mal - são, na minha opinião, extremamente perigosos", afirma."Se são compreensíveis no homem interpelado no meio da rua pelo horror do crime cometido pelos terroristas, eles são indignos de quem comanda um grande país", continua. "Justamente porque podem favorecer o ressurgimento do racismo e do medo do outro; fazem, portanto, o jogo do terrorismo, que não distribui apenas morte ao acaso, mas também ódio e instinto de vingança", completa.Segundo Le Clézio, a história de Laila é, "antes de tudo", uma história verdadeira. "Ela foi contada a mim por uma jovem marroquina que vivia nos Estados Unidos; quando a escutei, ela me fez pensar no meu romance preferido, Raptado, de R. L. Stevenson."Depois de seqüestrada no Saara Ocidental, aos seis ou sete anos, guardando apenas um par de brincos, a jovem protagonista passa a viver no Marrocos com uma senhora judia de origem espanhola chamada Lalla, que assume o papel de avó (e dona) para a menina. Com a morte de Lalla, então, a protagonista aos oito anos, inicia uma peregrinação, que passa por bordéis no Marrocos, chega a Nice e a Paris, na França, passa por Nova York e que acaba num retorno à África.O grande problema que enfrenta, contudo, é o que se desenha desde o seu nascimento: aqueles que tentam, de alguma forma, auxiliá-la, querem, ao mesmo tempo, prendê-la - o que a obriga a fugir sempre, numa errância constante, e a ter de enfrentar tanto inimigos quanto amigos.Ditado - O título do livro provém de um provérbio asteca de sete palavras - que, transcrito para o francês e daí para o português fica bem mais comprido: "Oh, peixe, peixinho dourado, cuide bem de si! Porque são tantas as armadilhas, tantas as redes armadas para você neste mundo."Mas qual a razão de um provérbio asteca inspirar a criação de uma personagem africana, que em seu périplo nem ao menos passa pelo México?Le Clézio retruca que adora os provérbios. "O meu preferido é japonês: ´Loucos dançam, um louco os observa: porque também ele não dançará?´" Vale a pena lembrar que o francês é autor de um livro intitulado Diego e Frida (publicado Brasil em 1994, pela Scritta), uma espécie de reportagem sobre os dois artistas plásticos mexicanos, cheia de indas e vindas, e é chamado, na França, de "o mais sul-americano dos escritores franceses" - o que é uma mistura de elogio (lembrança aos grandes nomes que conquistaram a Europa, como García-Márquez e Vargas Llosa) e rótulo de autor exótico.Num prefácio a um livro de aforismos do cineasta Robert Bresson, Le Clézio pergunta: "Para que servem os romances?" Cabe, portanto, a ele, uma pergunta: para que servem os romances? "Acredito que o gênero que eu prefiro é o romance, porque ele utiliza todos os meios de expressão, associados a qualquer coisa que me lembra a construção musical; por isso, o romance produz, algumas vezes, uma satisfação tão grande", responde. "Quando se lê certos contos de Borges, produz-se um sentimento de que eles contêm uma chave da existência, não sua justificação; porque eles não respondem a questão nenhuma, mas uma força da experiência que vai clarear sua vida."Mas outros gêneros também seduzem Le Clézio: "Eu gosto da poesia inspirada, como a do Mahmud Darwish. Também me encantam os documentos ´brutos´, os testemunhos, os relatos de jornalistas de talento - para mim, o modelo disso são Os Sertões, de Euclides da Cunha." Mas que ninguém se engane: como afirmou o historiador Nicolau Sevcenko, ao comentar, em 1987, o livro Deserto (Brasiliense), "se Euclides tinha uma fé convicta nas virtudes históricas da civilização ocidental, Le Clézio quanto a isso é um completo desiludido".

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