Le Carré venceu a Guerra Fria

Durante muitos anos, John Le Carré, cujo nome verdadeiro é David Cornwell, foi o eminente autor de livros sobre espionagem durante a Guerra Fria. Com a derrubada do Muro de Berlim, no ano de 1989, e o subseqüente fim da Guerra Fria, passou-se a prever que ele não teria mais sobre o que escrever. Ele mesmo declarou, em entrevista concedida há pouco em Nova York : "Tive a impressão de ler meu próprio obituário". Mas a verdade é que o autor nunca sentiu falta de material, escrevendo vários livros sobre conflitos e corrupção, sempre que se depara com isso em governos e em empresas, o equivalente de nações. Pode-se dizer que é o escritor de livros de espionagem que saiu do frio. Seu novo romance, o 18º de sua carreira, The Constant Gardener (O Jardineiro Fiel), ainda sem previsão de lançamento no Brasil, continua a tratar dos temas de Le Carré: o isolamento e a traição envolvendo o Foreign Office (Ministério das Relações Exteriores) britânico e os serviços secretos, além da amoralidade dos regimes políticos. Ao mesmo tempo, entra em territórios menos familiares. Esse é o seu primeiro livro cuja ação se passa na África, e o segundo a ter um mulher como heroína. O primeiro foi A Garota do Tambor. Em outras obras, John Le Carré tratou do tráfico de drogas. Desta vez está preocupado com a indústria famacêutica que, distribuindo produtos testados de modo inadequado, exerce uma ação destruidora sobre a saúde dos cidadãos de países emergentes. The Constant Gardener foi publicado com surpreendente rapidez. Ele o concluiu em meados do ano passado, e sua editora, Scribner, apressou-se a publicá-lo em dezembro. A pressa foi tão grande que a editora enviou as primeiras provas do manuscrito original para a imprensa com notas manuscritas do autor, em vez de mandar as provas tipográficas de costume. Durante o café da manhã no seu hotel, Le Carré, homem cheio de dignidade, acessível, afável, de 69 anos, parecia ser o oposto do que se esperaria de um ex-agente secreto e magistral autor de romances de espionagem. Em lugar de uma figura misteriosa, surgia o seu oposto, um cidadão de aparência inofensiva. O próprio Le Carré afirmou na semana passada, à rede BBC, ter realmente exercido a profissão de espião durante a década de 40, quando fornecia ao governo de seu país informações sobre companheiros de estudo enquanto esteve em Oxford. No centro do romance, há uma mulher, Tessa Quayle, que dedica sua vida a ajudar refugiados e outras vítimas da opressão. Nas primeiras páginas o leitor descobre que Tessa foi assassinada enquanto se desincumbia de uma missão filantrópica. Gradualmente o romance se converte em uma crônica, com flashbacks, sobre o modo como o marido de Tessa, Justin, funcionário do Alto Comissariado Britânico no Quênia, aparentemente passivo, tornou-se um ativista. Justin, personagem arquetípico de Le Carré, está obcecado pela idéia de descobrir a verdade sobre a morte de sua mulher. O livro é dedicado a Yvette Pierpaoli, figura admirável que trabalhou como voluntária de organizações de ajuda, e morreu em um acidente automobilístico no ano passado, enquanto viajava pela garganta de uma montanha para ajudar refugiados na Albânia. "Até o ponto em que qualquer personagem se baseia em alguma pessoa da vida real, a personagem Tessa baseou-se em Pierpaoli, no seu auto-sacrifício, zelo e indignada decisão de ser útil", explicou o escritor. Quando Pierpaoli morreu no acidente, Le Carré estava no Quênia, fazendo pesquisas, e decidiu que Tessa morreria no livro. Mas ele teve de enfrentar "a culpa, a sensação egomaníaca de que havia desejado a morte de Ivette". Depois de assistir aos funerais dela, voltou a escrever o romance, passando a pensar nele como um tributo à vida de Pierpaoli. O livro também foi inspirado na conversão do próprio Le Carré, "de um bom soldado muito ortodoxo" em dissidente. Essa transformação é representada pelo personagem Justin Quayle. Le Carré afirmou: "Sempre tento identificar-me com um dos personagens dos livros e nomeá-lo meu sócio secreto". Falando sobre suas novelas pós-Guerra Fria, ele declarou: "Se há um fator comum, é a tentativa de documentar essa misteriosa busca de identidade pela qual todos nós passamos. Naturalmente, no meu caso, isso é feito através de uma visão de mundo britânica". O que liga seus romances entre si é "a fascinação pelo que acontecerá ao capitalismo, agora que seu maior oponente não existe mais". "Havia", disse o escritor, "uma convicção bastante preguiçosa de que a Rússia poderia aceitar a privatização em grande escala. Aquela convicção ampliou-se, convertendo-se na idéia de que estávamos desenvolvendo o Terceiro Mundo. Acredito que continuamos a explorá-lo, sem o pretexto do anticomunismo." Fazendo um retrospecto de seu trabalho do passado para o governo britânico, ele deixou claro que o seu papel no MI6, o serviço de inteligência internacional britânico, foi breve e insignificante, mas também fundamental para ele como escritor. Ele acrescentou que todo escritor tem um armazém de idéias, "uma casa de campo que ele visita, e onde ficam os seus personagens. Lá ele faz os seus jogos e cria suas histórias". A infância de Le Carré foi uma influência que definiu sua vida. Como ele escreve de maneira ficcional em Um Espião Perfeito, cresceu tendo a mãe ausente e um pai salafrário, preso por fraude. Da mesma forma que seu personagem mais famoso, o agente secreto britânico George Smiley, John Le Carré teve de inventar seu próprio destino. "Eu era espião muito antes de ser recrutado", afirma o escritor. "Quando somos criados de modo a acreditar que a própria casa é um lugar extremamente perigoso", explicou, "passamos a alimentar suspeitas sobre todas as pessoas estranhas." Desde o início, ele era "observador demais", olhando tudo com "olhos suspeitosos. O breve período de minha vida que passei trabalhando para o serviço secreto serviu para dignificar e controlar as apropriações indébitas e a insegurança de minha infância". Na sua primeira novela, O Morto ao Telefone, ele criou o personagem Smiley. Depois do sucesso de O Espião que Saiu do Frio e outros livros, ele converteu Smiley no personagem principal de sua trilogia. Os livros tornaram-se best sellers e formaram a base para uma série de dramas de TV estrelados pelo ator shakespeariano Alec Guinness. Ele e Sir Alec Guinness, que morreu no ano passado, tornaram-se grandes amigos. Le Carré sentia que havia muita coisa em comum entre eles, a começar pela sensação de abandono na infância: Sir Alec era filho ilegítimo. Os dois tinham uma predileção natural pela espionagem, tendo descoberto muitos segredos e interpretado diversos papéis, na maioria das vezes ocultando as respectivas identidades durante a criação de sua arte. "Interpretar era a catarse dele, enquanto a minha era escrever," disse Le Carré. A respeito de Guinness, ele declarou: "Sir Alec olhava para as pessoas como se estivesse estudando-as para depois imitá-las". Antes de Guinness interpretar Smiley pela primeira vez, chamou o escritor e disse: "Jamais conheci um espião verdadeiro. Você poderia apresentar-me um?" Enquanto rememorava a conversa, Le Carre, excelente mímico, imitava a voz de Sir Alec com perfeição. Ele apresentou o ator a Sir Maurice Oldfield, que fora diretor do MI6. "Oldfield era baixo e gordo, sempre levava consigo um guarda-chuva, e usava botas de camurça cor de laranja horrorosas", disse. Após o almoço Sir Alec correu para a rua, enquanto Oldfield ia embora, para observar os movimentos de seu corpo. Mais tarde, ele se referiu ao modo como Oldfield havia mergulhado seu dedo no copo, perguntando: "Acha que ele estava procurando resíduos de veneno?" Sir Alec incorporou tudo isso à caracterização de Smiley. Le Carré afirmou: "Acho que ele copiou alguns de meus gestos também". Na sua época, disse Le Carré, Sir Alec teria sido uma escolha maravilhosa para o papel de Justin em uma versão cinematográfica de The Constant Gardener. Assim que um livro fica pronto, Le Carré não olha para trás. Necessariamente há um período de "resguardo pós-parto" depois da publicação de um de seus "filhos". Em parte por causa da rapidez com que foi publicado o novo livro, ele ainda não tem em mente uma nova história. "No momento estou vazio, o que é algo de novo para mim", afirmou. Sobre os personagens de The Constant Gardener, ele declarou: "Será muito difícil tirar aquela multidão da minha cabeça". E acrescentou: "Sinto que tracei uma linha abaixo do longo período que passei escrevendo esse livro. Isso me parece uma espécie de processo de adição". Quando o entrevistador perguntou se ele se considera um escritor de um gênero de literatura, ele respondeu com outra pergunta: "Você diria que Conrad é escritor de um gênero? Eu prefiro pensar que os meus livros resistirão às mudanças da moda, a imaginar que eles se enquadram em alguma categoria". Sobre seu legado, ele declarou: "Acho que provavelmente dois ou três dos livros viverão por algum tempo. Temos de ser muito modestos nas nossas expectativas". Em seguida ele se arriscou a uma previsão: "Acho que o conjunto da obra será lembrado como uma espécie de documento sobre a Guerra Fria e o pós-Guerra Fria. Seria uma pena se não o fosse, porque eu fui a pessoa certa, no lugar certo, na hora certa".

Agencia Estado,

03 de janeiro de 2001 | 12h33

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