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Le Carré

John Le Carré escrevia para quem não queria ser visto lendo livros de espionagem, para quem fazia questão de ostentar seu gosto ou para quem simplesmente buscava boa literatura popular

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2020 | 03h00

John Le Carré escrevia livros de espionagem para quem não queria ser visto lendo livros de espionagem, para quem fazia questão de ostentar seu gosto pelos prazeres do gênero, sem discriminação, ou para quem simplesmente buscava boa literatura popular, de qualquer gênero. Teve a sorte de ser o exemplo mais bem-sucedido da tradição anglo-saxônica de autores superiores produzindo para um grande público – gente como Eric Ambler, Len Deighton e, acima de todos, Graham Greene – sem sacrificar a qualidade literária. A sorte, ou a competência de Le Carré, foi a de reunir os três públicos num só mercado que, a partir do primeiro sucesso, O Espião que Saiu do Frio, incluindo as adaptações para o cinema, nunca parou de crescer e render.

A qualidade literária da obra de Le Carré é indiscutível. Pelo menos três dos seus livros – O Espião que Saiu do Frio, A Guerra no Espelho e A Vingança de Smiley – são modelos de roteirização e caracterização de personagens. O Smiley do título é George Smiley, fiel servidor do serviço secreto da Rainha, baixinho, gordinho, de óculos, obviamente traído pela mulher, um perfeito anti-James Bond. Smiley trava uma espécie de guerra fria particular com Karla, chefe do serviço secreto soviético. Não aposte contra os gordinhos.

David Cornwell, o verdadeiro nome de Le Carré, teve uma infância difícil. Apanhava do pai, um notório trambiqueiro, e foi abandonado pela mãe. No governo, trabalhou como espião de segunda categoria, sem muitos riscos, mas aproveitou a experiência para adotar o jargão e dar autenticidade ao mundo que retrataria em O Espião que Saiu do Frio. Le Carré descreveu como ninguém, no seu primeiro livro de sucesso, o clima de crise no país e no seu serviço de inteligência com as revelações sobre espiões nas altas rodas do reino, e de traidores como Kim Philby entre a nobreza. De certa forma, em todos os livros que publicaria depois, Le Carré abordaria o dilema da traição, de indivíduos tendo que definir suas relações com um estado opressor e intratável como um pai violento. 

É ESCRITOR, CRONISTA, TRADUTOR, AUTOR DE TEATRO E ROTEIRISTA

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