LD, LP, CD, DVD, Tropicália

Um dos maiores fracassos comerciais da indústria de entretenimento foi o LD (laserdisk). Lembrava um LP espelhado, com cara de elemento de cena de 2001 - Uma Odisseia no Espaço. Anunciava-se o futuro. E era caríssimo, apesar do padrão analógico. Nem chegou a ter distribuidor oficial no Brasil. Só os amigos com grana e passaporte em dia tinham e se gabavam. O primeiro título saiu nos Estados Unidos em 1978: Tubarão, de Spielberg, o Midas da nerdocracia. Em 2000 pararam de sair filmes em LD. Há três anos a Pioneer, detentora da patente, tirou os reprodutores da linha de produção.

MARCELO RUBENS PAIVA, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2012 | 03h09

O DVD, digital, com mais definição e um quarto do tamanho, na mesma forma dos já bem-sucedidos e responsáveis pela transformação da indústria, os CDs, foi o responsável. Os apressados não podem nem se vangloriar de que ver um filme em LD é "infinitamente" superior do que em DVD ou Blu-ray. Ele tem uma definição maior apenas do que as antigas fitas em VHS. Mas existem dúvidas entre a experiência de ouvir músicas num LP, analógico, e CD, digital. Para os entendedores, foi um assalto da indústria aos nossos ouvidos.

O CD retira amostragens pontuais da onda sonora de alta e baixa frequência, o que empobrece o som, embola, fatia a curva sonora, junta pedaços, perdem-se nuances, o extremo do agudo e do grave se misturam a outros instrumentos com sonoridades semelhantes. A música é "resumida" para liberar espaço. Faixas abaixo de 25 Hz e acima de 16 kHz são dispensadas.

Enquanto um LP reproduz a gama total da curva, o CD elimina frequências que teoricamente não ouvimos, mas, sim, estão lá e encorpam a música, tornando-a mais próxima da realidade; ou, como se dizia, com alta-fidelidade. Tem os riscos, os pulos, a poeira que se acumula na agulha, o esbarrão que arranha a superfície do vinil e termina com a música, o tamanho, o espaço para se guardarem dezenas ou centenas de discos. Foi por isso que você, como eu e a maioria, trocou LPs por CDs.

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Me senti aliviado quando um primo distante comprou minha coleção de três décadas que começou com Joe Cocker. Você também se lembra do primeiro disco que comprou na vida? Levou tudo e ainda me deu 500 contos, calculado randomicamente. Deu para comprar uns 20 CDs. Hoje vejo colecionadores atrás de discos que já tive, que muitos tiveram, e que desprezei como estorvos que atrapalhavam a circulação da casa. Como uma estátua de anão. Ou uma coluna de gesso na sala.

Aquele Dave Brubeck, Pink Floyd, Bill Evans, Led Zeppelin, Beatles, Stones, The Cure, a caixa tripla de Sandinista, do Clash, aquelas maravilhas de desenhistas e designers modernos, com seus encartes e jogos de imagem e mensagens cifradas, como Physical Graffiti ou Sticky Fingers, o disco da língua, que causavam ilusão de ótica, viraram um bagulho de plástico que quebra com facilidade. Abandonamos nossos preciosos brinquedos.

O tempo passou e limitaram mais ainda nossa capacidade auditiva. Educamos nossos ouvidos com fones primários, minúsculos, e com arquivos, não mais músicas, em MP3, FLAC, WAV e AAC de 3 MB ou ripados, sequências de zeros e uns que unidas conseguem a proeza de imprimir maravilhas num disco compacto, chip, memória, nas nuvens. Espaço é a lei, não a qualidade. Herança de uma sociedade que aceita e muitas vezes prefere o simulacro, para pagar menos.

Todas as noites praguejo contra meu primo que pensei que me fizera um favor. E me pergunto onde está aquele aterrorizante Tubular Bells, de Mike Oldfield, cujo baixo controla o andamento que cresce e se repete- como em Bolero de Ravel -, em que, em cada lado, havia uma faixa apenas, trilha do filme O Exorcista, que em CD ficou seco, e se as novas gerações entendem quando dizemos que muitas vezes preferimos o "lado B" das coisas.

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Alguns clássicos ainda são remasterizados e relançados em vinil, como Transa do Caetano, destaque nas megalivrarias - quase não existem mais lojas de discos. Confesso que se eu reiniciasse minha coleção, começaria por ele.

Duas músicas eram reproduzidas como hinos de repúblicas estudantis no final dos anos 1970, que sabíamos de cor e cantávamos nos entorpecendo, bebendo, cada um com um instrumento: Back in Bahia, de Gil, em que se aumentava no refrão "hoje eu me sinto como se ter ido fosse necessário para voltar, tanto mais vivo de vida mais vivida, dívidas e dúvidas pra lá e pra cá", e It's a Long Way, do disco que não saía das vitrolas da nova esquerda, Transa, libelo juvenil tão urgente quanto Love Will Tear Us Apart (Joy Division) e Smell Like Teen Spirit (Nirvana).

A esquerda de dez anos antes não entendia "nada, nada!". Caetano e Gil, sim, mudaram a nossa cabeça para sempre. Tudo o que queríamos era cantar com os amigos numa jam desafinada: "Hey brothers, say brothers, it's a long, long, long way, it's a long, long, long way, long, long, long, long. It's a long road". Se bem que nas repúblicas mais alternativas, ou de drogas mais pesadas, o disco Araçá Azul era o indispensável. Como numa em que morei, em que um estudante virou padre, dois morreram de HIV, outro virou professor de teatro, e eu, hum... ainda com dúvidas pra lá e pra cá.

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"Eu não queria ir pro festival, não sou escoteiro", disse Caetano sobre o convite para tocar no Isle of Wight Festival - enquanto amargava o exílio em Londres -, no documentário do amigo Marcelo Machado, Tropicália, daqueles filmes que caras da minha idade choram e saem do cinema com um turbilhão de imagens do passado invadindo a procura do carro no estacionamento, o caminho pra casa e o sono.

Que, como Simonal - Ninguém Sabe O Duro Que Dei, Raul - O Início, o Fim e o Meio, Uma Noite em 67 e Titãs - A Vida não É Uma Festa, mostra a força desse gênero que, definitivamente, aprendemos a fazer. Especialmente com a aliança do que temos de melhor, a música.

Numa das imagens, Tropicália resgata os brasileiros subindo timidamente no palco do festival em que tocaram Joe Cocker, The Who, Bob Dylan, Jimi Hendrix, Chicago, The Doors, The Who, Miles Davis, enquanto o locutor informava para centenas de milhares: "Vamos dar boas-vindas a um grupo de artistas brasileiros que não pode se exibir no seu país por motivos políticos".

Mal sabiam que era "o" grupo de artistas brasileiros que malandramente sintetizava todos eles e vomitava de volta com temperos de forró, bossa nova, samba, batidas de macumba, maxixe, maracatu, fado, frevo, xote, repente.

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