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Lázaro Ramos estreia como dramaturgo

Ator estimula a valorização das diferenças na peça infantil 'As Paparutas' em cartaz no Rio

ROBERTA PENNAFORT - O Estado de S.Paulo,

11 de setembro de 2012 | 03h09

RIO - Já faz 12 anos que Lázaro Ramos escreveu As Paparutas, peça infantil que estreou sábado passado no Teatro Fashion Mall, no Rio, sob a direção de Luiz Antônio Pillar. Ele tinha 21 anos e estava de volta à Bahia em meio a viagens da peça A Máquina, dirigida por João Falcão e na qual contracenava com os amigos Wagner Moura e Vladimir Brichta. Os três iriam se projetar ali.

"Era uma época de desemprego e aproveitei para contar uma história que me falava ao coração", diz o ator, que já dirigiu o texto, em Salvador, à época de sua conclusão, e o viu montado por outros encenadores.

"Não escrevi para o público infantil. Não estava preocupado com o mercado de peças para as crianças, não segui uma fórmula. Quando montei é que fui descobrir que as crianças se identificavam. Estou louco para ver a reação do meu filho, meus três afilhados, os filhos dos amigos."

Para esta montagem carioca, foi preciso atualizar a história do menino que não se cansa de contar histórias e que se deixa encantar especialmente pela magia em torno das Paparutas, associação de mulheres que têm uma relação quase religiosa com a comida. Elas existem na vida de Lázaro desde a infância. Soteropolitano, ele tem família na pequenininha Ilha do Pati - a 1h30 da capital baiana e com cerca de 200 moradores, descendentes de escravos. Passou bons anos assistindo às apresentações que elas fazem numa praça da ilha.

A combinação de dança, cânticos, percussão, indumentária colorida e culinária típica (acarajé, vatapá, caruru, moqueca) fascinava o pequeno Lázaro, que viria a criar a peça sob o ponto de vista do menino que ele foi.

Na nova versão, o protagonista (interpretado por Samuel de Assis) se chama Jovi - apelido de João Vicente, o filho de 1 ano que tem com a atriz Taís Araújo. Entraram em cena celulares e iPods, objetos do cotidiano das crianças do mundo tecnológico e veloz de hoje.

Dar ritmo à narrativa era uma preocupação do diretor. "A gente não pode perder a criança nem subestimá-la. É tudo que o Lázaro não quer", defende Pillar, companheiro de trabalho antigo de Lázaro. É sua primeira experiência nessa seara.

A manifestação cultural mantida pelas Paparutas vem da tradição africana. O autor é negro, assim como o diretor, a produtora, o protagonista e parte do elenco. A questão racial está presente, mas não é central. O que se sublinha é o respeito à diversidade, o carinho com a ascendência, a preservação da memória.

Uma nova Paparuta (Maria Gal) chega e logo se vê que ela não é como as outras: troca o "s" pelo "x", é meio maluquinha. Tem, entretanto, que se provar competente para ser aceita pela Paparuta chefe. "Cada qual no seu cada qual, ser igual não é igual", ensina uma das músicas.

"A peça fala da valorização da diferença, estimula cada pessoa a se interessar pela sua própria origem. Todos os meus parentes são da Ilha do Pati. Eu perguntava, mas ninguém sabia explicar direito o que eram as Paparutas. Então quis dar sentido àquilo", explica Lázaro, a quem não interessa se dirigir só aos negros.

"O diálogo tem de ser com todos. Jovi é negro porque eu sou negro. É claro que é interessante que seja um menino negro, porque é um protagonismo que é incomum no teatro brasileiro."

Não propriamente um militante, Lázaro havia estreado na direção de teatro adulto ano passado com Namíbia, Não!, que é permeada por uma tensão racial: na peça, o governo brasileiro obriga que todos os afrodescendentes regressem imediatamente à África. Em 2009, o ator foi a Washington por conta própria filmar a posse de Barack Obama para um documentário.

O investimento na autoestima infantil e no fortalecimento da própria identidade é uma necessidade para a qual Lázaro já vem chamando a atenção como embaixador do Unicef. Em 2010, ele lançou o livro A Velha Sentada, cuja personagem principal, Edith, é uma menina introspectiva, sem amigos e insegura, que desabrocha quando parte em busca de autoconhecimento.

"Na peça, a questão racial é um elemento, mas a gente faz questão de que a discussão seja mais ampla", diz Pillar. Uma flauta com poderes mágicos é alvo de disputa. Quem a toca consegue homogeneizar quem a ouve - tudo o que não se quer.

A produção cederá ingressos para ONGs e oferecerá uma vez por mês audiodescrição para os espectadores cegos e tradução para libras para surdos.

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