"Lawrence da Arábia" sai em DVD

Pode ser que El Cid e não Lawrence da Arábia seja o maior épico do cinema. Anthony Mann baseou-se no Cid de Corneille e no Poema do Mio Cid para transformar Rodrigo Diaz de Bivar num herói bigger than life, mostrando, no impressionante desfecho, a transformação do homem em mito. David Lean fez seu épico na contramão dessa tendência. Em Lawrence da Arábia, ele reduz o mito à condição humana. É o que faz desse filme um marco não só na carreira do diretor, mas de todo o cinema. Lawrence da Arábia está sendo lançado em disco digital duplo pela Columbia. Além do filme, propriamente dito - na versão restaurada, com os quase 20 minutos que havia perdido desde o lançamento -, há um monte de extras para fazer a delícia dos cinéfilos. Entrevistas, making of, está tudo lá. Mas o melhor é realmente o filme. Lawrence é obra de mestre. Venceu sete Oscars em 1962, incluindo os de melhor filme e direção. Poucas vezes os prêmios foram tão merecidos. Com todas as suas qualidades como obra crítica e desmistificadora, Lawrence impõe-se mesmo é como espetáculo audiovisual deslumbrante. É programa para se ver na tela grande, mas o DVD tem, sobre o vídeo, a vantagem do formato widescreen e a alta qualidade da imagem e do som.Começa pelo fim. Um homem disparando numa moto, um acidente. Thomas Edward Lawrence morre logo na abertura. Segue-se o funeral, uma palavra indiscreta de uma pessoa que o conheceu, a reação indignada de um nacionalista britânico para quem aquele é o protótipo do grande homem e aí, sim, começa a narrativa em flash-back. O recuo do tempo coloca o personagem em perspectiva. Contando a história do homem que virou mito, Lean o devolve à sua condição humana. É ainda nessas cenas iniciais que o espectador recebe o primeiro choque. Lawrence risca um fósforo e, graças à magia do cinema, a chama vira o sol do deserto. Justamente o deserto. O cinema contou muitas histórias desenroladas nesse mar de areia calcinada. Nenhuma mostrou o cenário com maior grandiosidade. Lean filmou em locações, mas as cidades em que se desenrola a ação, incluindo Damasco, foram recriadas na Espanha, para onde a produção se transferiu.Só a montagem da produção daria um filme. A primeira vez que o cinema tentou abordar o mito do enigmático Lawrence da Arábia foi em 1955. O diretor seria Anthony Asquith e o ator, Dirk Bogarde. A produção foi interrompida por causa de problemas no Iraque, onde seria rodada. Cinco anos mais tarde, o produtor Sam Spiegel retomou o projeto. Chamou David Lean, com quem havia feito A Ponte do Rio Kwai, para dirigi-lo. Lean partiu do roteiro do respeitável Michael Wilson, mas fez com que Robert Bolt o reescrevesse. Spiegel queria Marlon Brando, com quem fizera Sindicato de Ladrões (direção de Elia Kazan), no papel-título, mas Brando preferiu ir fazer O Grande Motim no Taiti .Albert Finney surgiu como uma opção, que Lean descartou. Também descartou um de seus atores-fetiches, Alec Guinness, considerando-o muito velho para o papel. Foi a chance do jovem Peter O´Toole, que não era um estreante, mas nem nos seus sonhos mais delirantes poderia imaginar que seria chamado para estrelar um épico caríssimo, dirigido por um cineasta nunca definido como menos do que grande. Não foi fácil para O´Toole. Spiegel e Lean forçaram-no a assinar um termo de compromisso, segundo o qual ele deveria renunciar à bebida durante todo o processo da produção. E O´Toole ainda teve de fazer uma cirurgia plástica para corrigir o nariz. Os problemas não terminaram aí. Ele sofreu vários acidentes durante a rodagem, o perfeccionismo do diretor levou-o à estafa. No fim, O´Toole internou-se num hospital para se recuperar do estresse.Elenco prodigioso - Isso tudo faz parte da lenda do filme, assim como outro dado curioso - ainda na fase preliminar, Spiegel e Lean chegaram a cogitar da possibilidade de que Lawrence fosse criado por Anthony Perkins, o Norman Bates de Psicose, a obra-prima de Alfred Hitchcock. Já pensaram? Lawrence da Arábia seria outra coisa. Seria, de qualquer maneira, se fosse outro o intérprete e não Peter O´Toole. O elenco notável contribui para a aura do filme até no que, a rigor, são seus defeitos. O nariz obviamente postiço de Anthony Quinn, a dicção afetada com que Alec Guinness cria o príncipe Faiçal. Lawrence não seria o espetáculo prodigioso que é sem tudo isso e, ainda, a alquimia entre O´Toole e um ator egípcio, já um astro em seu país, a quem Lean entregou o papel de Ali. Omar Sharif era bom ou é bom, nesse filme pelo menos. A estereotipação começou quando o próprio Lean fez dele o protagonista do seu épico seguinte, o não tão bom Doutor Jivago, adaptado do romance de Boris Pasternak. Lean já era considerado um grande do cinema inglês - e do cinema mundial - muito antes de iniciar, com A Ponte do Rio Kwai, a fase das superproduções, que marcou a etapa final de sua fulgurante carreira. Foi nela que se consolidou o cineasta estudioso da alienação humana, capaz de mostrar com intensidade personagens colhidos no turbilhão da história. T.E. Lawrence é expressivo das preocupações do autor. E a chave do filme é a histrionismo feminino com que Peter O´Toole acentua a ambigüidade do personagem. El Aurens, como os árabes o chamam, é um masoquista e um exibicionista. Quando apaga a chama do fósforo no dedo, diz que o segredo está em resistir à dor. Ondula seu manto branco na amplidão do deserto ou no alto de trens. E sublima seu homossexualismo, embora o encontro com o bei turco, que o violenta, opere nele uma transformação.O líder messiânico revela sua face cruel e lidera um ataque aos turcos que Lean filma em plano-seqüência, a câmera colocada rente ao ator, que grita "no prisoners" (nenhum prisioneiro). Por meio da ação contínua, o diretor mostra o traje branco de Lawrence rasgando-se e ficando tinto de sangue. Desta maneira, deixa claro que a violência que Lawrence usa contra os outros, para se vingar, volta-se contra ele e o destrói interiormente.Quando Lean morreu, em 1991, sem concretizar o projeto da adaptação de Nostromo, de Joseph Conrad, os críticos o definiram, à maneira de epitáfio, como um cético que amava a revolução. Lean era um esteta, admirava as rebeliões e praticamente não há outro tema nos seus épicos intimistas. Em Rio Kwai, Lawrence, Doutor Jivago, A Filha de Ryan e Passagem para a Índia, ele filmou homens e mulheres envolvidos pela desobediência, fosse ela política, militar ou social. Nesses filmes, Lean deixa claro que não acredita que alguém possa fugir ao seu destino político e sexual. Amava as rebeliões, mas era um cético que não acreditava que um dia elas pudessem ser a rotina da história da existência. Representam sempre um momento excepcional da humanidade. Como em Lawrence, onde o protagonista é colhido na teia de interesses e sutilezas de uma das regiões mais estratégicas da Terra, o Oriente Médio, rico em petróleo.Império britânico - Há aí uma espécie de jogo. Lawrence lidera os árabes contra os turcos, une as tribos do deserto e ajuda a construir uma nação a partir desse mundo fraturado. Mas o unificador, o grande homem, foi só um títere que serviu aos interesses do imperialismo britânico, que queria trazer os árabes para o seu lado, durante a 1.ª Grande Guerra. "I fear for Arabia" (Temo pela Arábia), diz Faiçal no fim, quando percebe que o libertador nunca teve consciência da teia na qual estava enredado. Exumando Lawrence, Lean exuma também o império britânico, justamente ele que, sendo sir, foi sempre crítico em relação ao império do qual se dizia, no seu apogeu, que nele o sol nunca se punha. Vale lembrar que, numa cena particularmente brilhante de Passagem para a Índia, Adela Quested (Judy Davis) visita o templo, no qual descobre inscrições eróticas que a perturbam. Alguém (o Dr. Aziz, seu guia) pergunta o que houve. Ela responde "nada". Poderia dizer tudo. É mais ou menos o sentimento diante de Lawrence. Lean ilumina o homem contraditório. Decifra o enigma, propõe uma interpretação para o personagem, mas Lawrence continua misterioso e fascinante. Um personagem assim tão grande, situado na confluência de duas culturas, exige um grande filme. Um filme como Lawrence da Arábia.

Agencia Estado,

03 de maio de 2001 | 18h09

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