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Lautréamont pelo paranoico Dalí

Obra fundadora da modernidade literária, que inspirou os surrealistas, 'Os Cantos de Maldoror' ganha edição rara com exemplares numerados, dos quais apenas 50 estão à venda no Brasil

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2012 | 23h58

A história firmou seu nome como o pai dos surrealistas. Exagero ou não, foi o conde de Lautréamont, pseudônimo do escritor uruguaio Isidore Ducasse (1846-1870), que inspirou o mais conhecido entre os pintores surrealistas, o espanhol Salvador Dalí (1904-1989), a produzir uma de suas melhores séries de gravuras. Dalí ilustrou seu livro Os Cantos de Maldoror em 1934. A Barsa Planeta Internacional traz agora ao Brasil apenas 50 exemplares da nova edição, feita em parceria com a Fundació Gala-Salvador Dalí, que, desde 1983, cuida da obra do artista. O livro é extravagante, como tudo o que Dalí fez. Essa excentricidade começa no número cabalístico da limitada edição: 2.998 exemplares numerados. E continua na embalagem: a obra vem acondicionada numa maleta de madeira com seis livros confeccionados à mão (um para cada canto de Maldoror), mais um livro de ensaios sobre Ducasse e Dalí, as provas das 30 gravuras usadas como ilustrações do original e um DVD com depoimento de Montse Aguer, diretora do Centro de Estudos Dalinianos. A edição, claro, é destinada a colecionadores. Seu preço: R$ 7.881 (informações pelos sites www.barsasaber.com ou www.planetaedicioneslujo.com/dali/cantos-de-maldoror ou pelo telefone 0 xx 11 3225-1900).

O livro de ensaios que acompanha Os Cantos de Maldoror traz textos que ajudam a esclarecer a relação obsessiva que Dalí tinha com a obra de Lautréamont. Já no prólogo é reeditado um estudo do jornalista e escritor espanhol Ramón Gómez de La Serna (1888-1963) produzido em 1925, quando fez a tradução para o espanhol do original francês. Outro texto fundamental sobre a obra, reproduzida na íntegra na caixa especial, vem assinado pelo poeta nicaraguense Rubén Dario (1867-1916), que o produziu para seu livro Los Raros, de 1905, dedicado à análise da obra dos seus autores preferidos, entre eles Lautréamont, Verlaine e Poe.

Inovadores, os três ajudaram a dar um empurrão na modernidade para que ela nascesse, aos berros, no século 19. Do trio, o mais marginal foi mesmo Lautréamont, que esperou 17 anos para ser lido - isso quando arranjou um editor belga disposto a correr o risco de publicar, em 1869, a versão integral de Os Cantos de Maldoror (por muito menos, editores franceses foram presos, acusados de atentado ao pudor). Morto aos 24 anos, o escritor uruguaio não conheceu a fama. Antes, viveu uma temporada no inferno parisiense, num quartinho modesto, dependendo da ínfima quantia que seu pai, funcionário do consulado francês em Montevidéu, enviava para seus estudos. Ducasse deve ter voltado pelo menos uma vez ao Uruguai, aos 21 anos, a julgar por uma passagem de Os Cantos de Maldoror em que relata sua viagem de retorno, por mar, e cita um antigo companheiro de escola, representado por Dazet, possível paixão reprimida do escritor.

Pouco se sabe sobre a vida de Ducasse, mistério que só fez crescer o mito de transgressor. De qualquer forma, foram a crueldade e o erotismo de Os Cantos de Maldoror que seduziram o surrealista Salvador Dalí. Maldoror representava para ele o herói do mal numa galeria de rebeldes luciferianos como Sade. O nome Maldoror seria um derivado de “mal d’aurore”. Essa impaciência de “devorar a aurora”, fazendo reinar as trevas, encontra ressonância principalmente no marquês. A historiadora e crítica de arte Pilar Parcerisas, que analisa a construção do “eu narcisista” de Dalí no livro, diz mesmo que Lautréamont representou para o pintor “um rito de iniciação”, baseando-se no livro do espanhol, Diário de um Gênio: “Embebido por tudo o que os surrealistas haviam publicado, com o beneplácito de Lautréamont e o marquês de Sade, fiz minha entrada no grupo, armado de boa-fé, certamente jesuítica.”

Pode-se não gostar da ironia de Dalí, de seu egocentrismo e, certamente, de sua pintura, mas há nessas gravuras uma inter-relação entre o sistema de interpretação paranoico-crítico do artista e a alucinada obra de Ducasse/Lautréamont. Na nova edição do livro, Montse Aguer observa como os temas predominantes em Maldoror - a sexualidade, a destruição, a perversão, a crueldade e a morte - são usados por Dalí nesse conjunto de gravuras para evocar visões artísticas distintas, entre as quais a da tela Angelus, de Jean-François Millet (reproduzida ao lado e que inspirou a gravura maior, de Dalí, nesta página).

O controvertido artista intuiu que havia alguma coisa na pintura de Millet parecida com um pentimento. Solicitou, então, uma radiografia do quadro ao Louvre, em 1933. Para surpresa dos especialistas, descobriu-se que havia um caixão com um recém-nascido, filho dos camponeses que rezam na hora do Angelus. Millet, aconselhado por amigos, que consideraram a cena de mau gosto, escondeu o caixão, pintando uma camada de tinta sobre ele. Tudo muda e se transforma em Dalí, até mesmo sua interpretação de Millet (ele repintou a cena durante toda a vida).

Essa metamorfose, aliás, é signo das mutações pelas quais passa o narrador de Os Cantos de Maldoror. O tradutor da obra em português, Claudio Willer, observa no prefácio da edição brasileira (Editora Iluminuras) que não só a idade, a fisionomia e a identidade do narrador-protagonista são mutantes. Na maior parte dos relatos, lembra Willer, a ação é no presente, mas há cenas que poderiam ser ambientadas na Idade Média.

No prólogo da atual edição, Gómez de la Serna chama atenção do leitor para a identificação narrador-autor já presente na forma original (1868) do livro, mas contesta as palavras de Malraux, que resumiu a obra como um poema em que o espírito do mal (Maldoror) recusa a salvação pelo espírito do bem (Dazet) e é amaldiçoado por esse. Seria simplista, dualista demais, escreve o espanhol. Para ele, as blasfêmias de Lautréamont são como as dos cubistas: literárias, nada mais.

E cita o canto terceiro, em que o Criador rasga as cópias oferecidas por seu autor, numa espécie de autocrítica precoce demais para um gênio como Lautréamont. Rubén Dario, já em 1896, dizia que não era prudente que espíritos jovens dialogassem com esse homem espectral, mesmo conselho que o próprio Lautréamont dá aos seus leitores, exortando-os a desistir da leitura na primeira página de seu livro sobre seu personagem maldito, saturnino, cruel, ambíguo.

A modernidade poética, radical, de Lautréamont e a dualidade constituinte de sua escritura encontram em Dalí sua correspondência visual perfeita. Para os surrealistas, Ducasse não era um louco, mas um visionário defensor da “poesia total” que teria de esperar até 1950 para que o crítico Maurice Blanchot (em Lautréamont e Sade) definisse o personagem principal de Maldoror como o próprio leitor. Dalí extrapola as representações metafóricas do inferno particular de Lautréamont (delírios sexuais com rapazes e prostitutas, pesadelos com leprosos, fantasias mórbidas de matar crianças, canibalismo) e ignora a narração literária para abraçar seu “método paranoico”, convertendo o texto numa sucessão de imagens delirantes como as da releitura de Millet.

O desejo canibal de devorar, em Lautréamont, equivale ao de Dalí destruir aquilo que, de alguma forma, lhe dá prazer, que são as imagens evocadas por Os Cantos de Maldoror. No fundo do cenário da morte que representa o Angelus, o espanhol faz desfilar Napoleão, como observa Pilar Parcerisa no livro. E por que ele? Por ser um Maldoror sedento de carne fresca, que encontra como cúmplice um criador celeste com fome de destruição e mau, conforme imaginou Lautréamont. Segundo Dalí, ele seria como o casal de Millet, que se alimenta da terra lavrada com esterco, onde jazz um pequeno cadáver na paisagem crepuscular. O canibalismo começa nesse quadro. E desperta nele um incontrolável prazer necrófilo, devorador, do qual nem Lautréamont escapa. 

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