Lauryn ou a arte de forçar limites

Volume exagerado de som, atraso, microfonia: show foi um suplício

, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2010 | 00h00

Não há mais uma conexão da Lauryn de hoje com aquela que ajudou a reoxigenar o rap nos anos 1990 (Foto: Marcelo Rossi/Divulgação) 

 

 

 

O que quer Lauryn Hill?

Em 2007, a cantora americana esteve no Brasil e marcou seus shows por: volume de som demasiado alto; microfonia a granel; atrasos médios de duas horas para subir ao palco; e a pulverização das melodias em uma maçaroca sonora.

Anteontem à noite, no Credicard Hall, ela marcou seu retorno por: um som demasiado alto (Metallica, Kiss e Megadeth são pintos perto daquilo); um atraso de duas horas; e uma espécie de hecatombe sonora nos ouvidos que tornou Zimbabwe, de Bob Marley, irreconhecível.

Ainda assim, o Credicard Hall lotou para vê-la. Ela entrou às 23h29, já sob uma chuva de vaias, cantando Lost Ones, depois de um set interminável de um certo DJ Rampage ("Só pode ser sobrinho ou parente dela", resmungou alguém). Vestia casaco, uma boina de tricô amarela e uma echarpe verde. "Obrigado!", disse, em português, para corrigir rapidamente: "Obrigada!"

Ativista do orgulho black, adversária do "music business", Lauryn é reverenciada por manos & minas de classe média e celebridades engajadas, que não a deixaram na mão anteontem. Sua música carrega uma "mensagem forte", é o principal álibi. Ganhou 5 prêmios Grammy por um único disco, Miseducation of Lauryn Hill (1998). Depois, fez acústico para MTV que a colocou no patamar das megaestrelas, e logo ela se encarregou também de se nomear uma megaexcêntrica (há quem jure que ela não permite que a fitem nos olhos enquanto fala numa entrevista).

"Nos discos, dá para ouvir a voz dela?", perguntou uma mina de salto ao namorado na pista. Sim, ela costumava ter uma voz bonita - dizia que sua escola vinha de artistas como Stevie Wonder, Donnie Hathaway, Jackie Wilson. Mas está difícil provar isso. Lauryn quase chegou lá, ao cantar o rap gospel Forgive Them Father. Mas precisa urgente de um diretor de palco, porque guitarras (para que dois guitarristas?) e baixo estavam soterrados por teclados e programações. O baixo, que é fundamental na ornamentação funk, praticamente se resumia a um golpe de demolição.

O hip-hop se sobrepôs aos outros gêneros no show. Ao contrário do que fazia nos anos 1990, Lauryn hoje "rapeia" em alta velocidade, exigindo aceleração do grupo todo o tempo, como se pilotasse uma carreta desgovernada em vez de uma big band de black music. O diálogo entre voz principal e as três backing vocals era inexistente, porque a voz dela parecia encoberta pela distorção e as vozes das garotas sucumbiam debaixo dos scratches.

Ela não reverencia tanto mais o funk, R&B, o jazz rap e a soul music, esta que é tão importante no substrato de canções como Hurts So Bad, a segunda da noite. Flerta mais com o dub, mas ainda assim parece muito mais longe do reggae do que da última vez que esteve aqui (tem filhos com Rohan, um dos filhos de Bob Marley). É dessa safra a canção To Zion, que ela "empunhou" logo depois de Zimbabwe.

Fugeela, que foi o primeiro grande single do Fugees (do disco The Score, de 1996), entrou já na segunda metade do set. Não há mais uma conexão da Lauryn Hill de hoje com aquela que ajudou a reoxigenar o rap com Wyclef Jean e Prakazrel Michel em meados dos anos 1990. O culto da personalidade e da "missão" sobrepujou a música, e o idealismo parece justificar toda displicência e desprezo. Lauryn não produz nada além de seu desfile pessoal de autoconfiança - não faz discos novos, e mesmo nos Estados Unidos suas apresentações são raras e complicadas.

Saúde. "Muitas vezes, a máquina se sobrepõe à necessidade de cuidar das pessoas que produzem a música, e isso tem a ver com a saúde e o bem estar da sociedade", ela disse recentemente, numa rara entrevista ao site Popmatters. "E é importante dar às pessoas o tempo que elas precisam para ir além, crescer, e o grau de consciência do público seja também afetado. Em geral, acho que as pessoas são forçadas a tomar decisões prematuramente."

No Brasil, como em 2007, Lauryn deixou para o final um de seus maiores hits, Killing Me Softly With His Song (da época em que militava na banda Fugees), talvez para garantir que ainda houvesse alguém na casa. O que Lauryn Hill parece querer é testar os limites da iconoclastia. "Quero ver até onde vai o amor deles por mim", parece dizer. Se permite um conselho, é melhor se cuidar: parece que a devoção acabou pouco depois da meia-noite.

REPERTÓRIO

Lost Ones

Hurts so Bad

Ex Factor

Zimbabwe

To Zion

War in the Mind

Turn Your Lights Down Low

Forgive them Father

How many Mics

I Only Have Eyes for U / Zealots

Fugeela

Ready or Not

Killing me Softly

Africa Unite

Doo Wop

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