Divulgação
Divulgação

Laurent Denave lança livro que traça a história social da música americana

Livro do pesquisador francês traça panorama entre 1890 e 1990

JOÃO MARCOS COELHO,

21 de setembro de 2012 | 19h00

É uma encrenca danada contar a história da música nos Estados Unidos durante o século 20. Quando se adota a perspectiva clássica europeia, a narrativa varre para debaixo do tapete a cultura popular e limita-se a dois discursos paralelos: o dos compositores que tentaram emular modelos do Velho Continente e do passado romântico tonal; e a linhagem experimental nascida com Charles Ives que hoje ainda tem como representante vivo Elliott Carter, aos 103 anos. Na perspectiva norte-americana, investe-se no jazz como a verdadeira música clássica norte-americana e privilegia-se a cultura popular.

Ocorre que tudo isso aconteceu ao mesmo tempo, durante o século 20. E no mesmo país. O pesquisador francês Laurent Denave, que assina Un Siècle de Création Musicalee aux Etats-Unis (Um Século de Criação Musical nos Estados Unidos), recém-lançado pela respeitada Contrechamps, de Genebra, faz, em sua história social da música nos EUA entre 1890 e 1990, uma admirável tentativa de compreender a multifacetada realidade musical norte-americana.

Sua história insere as diferentes correntes e gêneros musicais em seu contexto econômico e social. Não se limita aos compositores, de Charles Ives a John Adams, mas inclui as músicas populares, do blues ao jazz, dos musicais da Broadway ao rock/pop e ao dourado songbook dos anos 1920/50. Comenta em detalhe as tensões entre a música de concerto/invenção (que ele chama de "savant"), desde 1890 dividida entre criadores originais e compositores conservadores, e o universo popular dominado por critérios comerciais, e feito para e não pelo povo. Mostra como tais critérios invadem a música de invenção, culminando com a música repetitiva, por ele qualificada como revolução conservadora paralela ao neoliberalismo político.

"O minimalismo, mais particularmente a ‘música repetitiva’ (de Terry Riley, Steve Reich, Philip Glass, etc.) é o sintoma de uma possível transformação em profundidade do mundo musical norte-americano. Introduz a lógica comercial na esfera da música nova, ameaça a autonomia do espaço da criação musical em relação ao mundo econômico."

Costuma-se confundir, umas vezes perversamente, outras ingenuamente, a compreensão correta e abrangente de uma criação musical, seja em que gênero for, com a ausência de qualquer espírito crítico em relação à obra. A conclusão lógica é: o sujeito que emplaca um megassucesso comercial é um gênio, porque; 1) queria mesmo fazer sucesso e ganhar dinheiro da maneira mais rápida possível; 2) com apenas um sucesso musicalmente paupérrimo, conseguiu isso; 3) portanto, merece ser chamado de gênio da música, porque alcançou sua meta. Sofisma que vende alho como bugalho, Jesus como Genésio. Esse tipo de música continua sendo lixo; afinal, ele queria mesmo produzir lixo para as massas. O que não se pode é suspender o juízo crítico quando se examina uma obra musical (mesmo quando se erra; assumir o risco é parte da empreitada crítica). E esse é o maior mérito desta história da criação musical nos EUA. Denave escreve uma história abrangente, mas jamais se omite de um juízo sobre sua qualidade e originalidade.

O subtítulo do livro já diz tudo: História Social das Produções Mais Originais do Mundo Musical Americano, de Charles Ives ao Minimalismo (1890-1990). Ou seja, Denave defende seu direito de discutir a música e tomar posição sobre sua originalidade. "Um juízo estético nem sempre é arbitrário. Basta apontar, na partitura, o que é novo e o que é conforme a tradição."

E imediatamente mostra sua moldura ideológica, ao abrir o livro com uma epígrafe de Celestin Deliège, autor do monumental livro Cinquenta Anos de Modernidade Musical - de Darmstadt ao Ircam, de 2005: "Tornou-se muito difícil narrar a história de um movimento moderno face a uma sociedade globalmente indiferente à imagem dialética da história. Para essa sociedade, a história resume-se a uma série de incidentes, de truques imprevisíveis onde a ação criadora confunde-se com uma criatividade padronizada, onde o evento substitui o advento, onde a performance da estrela supera o objeto que está no centro da exposição. Como, nesse contexto social, abordar o fenômeno de modernidade sem provocar imediatamente a controvérsia?"

Denave desmonta criticamente vacas sagradas da música norte-americana como Gershwin e Bernstein, num saudável e correto exercício crítico que anda raríssimo hoje em dia. Apontar os limites e deficiências desses dois grandes músicos não significa apequená-los, achincalhá-los, mas mostrá-los de corpo inteiro. Acostumamo-nos a anestesiar nosso espírito crítico, e qualquer exercício nessa direção é considerado ataque pessoal. Dizer, por exemplo, que Beethoven escreveu porcarias como A Vitória de Wellington horroriza. Mas é verdade. A Vitória de Wellington é mesmo música ruim. E isso não apequena seu gênio inconteste.

"As competências de Gershwin permanecem muito limitadas. Todas as suas obras são produzidas a partir de improvisos pianísticos e não a partir de um trabalho de escrita. Falta-lhes coerência: ele passa de uma ideia a outra sem vínculo estrutural entre elas e precisa de ajuda na orquestração." Apesar disso, ironiza, "ele escreve música que será levada a sério no mundo sábio". Conclui com uma frase contundente: "Que historiador hoje poderia comparar seriamente Gershwin a Brahms ou Debussy?"

Ele também é duríssimo com outro queridinho preferencial nos EUA, Leonard Bernstein. Cita a seguinte frase de Renaud Machart, em biografia francesa de Bernstein de 2007: "Recorrer à música popular é um modo de estar antenado com seu tempo, o dos jovens, e contra seu tempo, o das grandes turbulências estéticas da ‘modernidade em música’". Revolta-se: "Tenta-se fazer passar por moderna uma posição dominante (portanto, conservadora); e, ao contrário, as produções da indústria musical como forma de resistência à ordem estabelecida: que admirável inversão! Os neoconservadores do mundo da música impõem uma certa produção (música repetitiva ou música pop) e uma nova representação do mundo musical em que as posições estão totalmente invertidas: ‘o mercado é a liberdade’, parecem pensar os agentes da contrarrevolução".

A revolução reacionária. Após reconhecer que o acontecimento mais marcante das décadas de 70 e 80 foi "o reconhecimento progressivo do minimalismo", Denave esclarece que essa etiqueta é colada em músicas diferentes: "De um lado, na que se inscreve na continuidade das pesquisas experimentais dos anos 50/60 (La Monte Young); e, de outro, na música repetitiva (Terry Riley, Steve Reich, Philip Glass), que se pode qualificar de reacionária. Defendemos a hipótese de que este último ramo do minimalismo é um dos componentes da revolução conservadora que tomou conta do mundo desde o final dos anos 60 e cuja lógica está muito próxima da corrente político-econômica que se chama neoliberalismo (...) Assiste-se a um retorno à ordem cultural que implica a música comercial, a acadêmica e até a moderna".

Denave acusa o musicólogo Richard Taruskin, autor de uma monumental História da Música em cinco volumes editada pela Oxford em 2005, de propor uma história ‘neoconservadora’ da música do século 20: "Para ele, o pós-modernismo se define pela posição central da música pop, a emergência do minimalismo, da música de ‘colagem’ (como a de George Rochberg) e da música propriamente ‘pós-moderna’ (John Adams, Laurie Anderson, etc.)". (...) "Taruskin contribui para a marginalização da música verdadeiramente original, e participa da revolução musical conservadora".

De modo agudo, identifica Alex Ross, crítico da New Yorker e defensor ferrenho do relativismo e da inclusão musical, como um dos responsáveis pela difusão de equívocos sérios: "A confusão dos gêneros (popular e de invenção) é celebrada por alguns críticos como Alex Ross". E cita um texto deste último ("os artistas pop e os compositores mais abertos acabarão por falar a mesma língua") para alfinetar: "Confusão que se concretizará se os compositores do século 21 se conformarem com as regras da ordem musical dominante (a tonalidade): uma resignação apresentada como ‘abertura’".

Quem de fato está fazendo música minimalista autônoma, ou seja, compositores que não dependem do mercado? São pouquíssimo conhecidos: Alvin Lucier, Gordon Mumma, Robert Ashley, Philip Corner e Phill Niblock, entre raros outros. E John Adams, entronizado como "o maior compositor da América", seria minimalista ou neorromântico? Sua música caracteriza-se pelos seguintes pontos: "independência dos compositores em relação à universidade (daí sua oposição aberta ao mundo ‘acadêmico’), mas inversamente uma forte dependência do ‘mercado’ (eles vivem de sua música), e uma reaproximação estética com a ortodoxia musical acadêmica ou comercial (linguagem tonal, sobretudo)".

Celestin Deliège considera a música de Adams como "um gênero intermediário entre os estilos sábios e os produtos industriais". E acrescenta que "o minimalismo americano consagrou o reino do capitalismo selvagem (...) ele apareceu numa época em que a noção de música ligeira, ainda atestada por Adorno, tornou-se difusa (...) o inimalismo é um gênero intermediário entre os estilos de invenção e os produtos industriais".

É fundamental para nossa vida musical seu alerta final com relação aos jovens compositores, que têm cada vez mais dificuldade para serem conhecidos. "É ingênuo acreditar que ‘naturalmente’ acabarão sendo reconhecidos. O processo de reconhecimento não acontece sozinho: ele é resultado do trabalho dos organizadores de concertos e de festivais, dos críticos, dos musicólogos, etc. Se este trabalho não for feito, é muito possível que se ignore ainda durante muito tempo algumas obras importantes." Por isso, optar pela abertura de espaço a músicos populares encomendando-lhes obras sinfônicas não é gesto ingênuo: bloqueia de fato o acesso aos compositores contemporâneos, já suficientemente marginalizados sem esse tipo de hostilidade.

Igualmente inteligente é sua associação da revolução musical conservadora com neoliberalismo, em termos de efeitos. Ambos tendem a suprimir as divisões internas desse espaço social. O neoliberalismo é um projeto de imposição de um consenso no mundo político que tem como resultado a confusão crescente entre direita e esquerda. "Igualmente, no mundo musical, a revolução conservadora combate toda forma de resistência à ordem cultural dominante." Daí a confusão crescente das posições no mundo musical e a marginalização de toda forma de postura crítica.

Quando diz que "o próprio modelo norte-americano, um espaço social dominado de forma esmagadora pelo polo comercial", está sendo exportado para a Europa, precisamos reconhecer que, como temos visto, essa invasão também vem ocorrendo nas Américas Central e do Sul, com destaque para o Brasil.

JOÃO MARCOS COELHO É JORNALISTA E CRÍTICO MUSICAL, AUTOR DE NO CALOR DA HORA (ALGOL)

UN SIÈCLE DE CRÉATION

MUSICALE AUX ETATS-UNIS

Autor: Laurent Denave

Editora: Contrechamps

(Importado; 412 págs.,25)

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.