Lascas da linguagem poética

Que falta nos fazem o poeta português Herberto Helder e o belga Henri Michaux. Para os escritores e críticos brasileiros trata-se de casal estapafúrdio, a não ser frequentado. Helder e Michaux não se enquadram no cânone modernista e nas audaciosas prescrições poéticas expressas desde o Manifesto Pau-Brasil (1924) até o Plano-Piloto para Poesia Concreta (1958). Os dois lembrariam o suíço Blaise Cendrars, caso ele não tivesse virado com o tempo tão geométrico e cubista quanto os amigos brasileiros. Cendrars visitou São Paulo na década de 1920. O gringo conduziu os modernistas à descoberta da arte barroca mineira, retirando a Missão Francesa (1816) da medula óssea da arte moderna. Nela alocou os artistas autodidatas mineiros.

Silviano Santiago, silvano.santiago@estadao.com.br

16 de março de 2013 | 02h00

O português Helder e o belga Michaux são globe-trotters. Mudam de um país para outro, de uma língua para outra. Todas as paisagens estão gravadas nos seus olhos. As cores do mundo, pintadas nas suas peles e nos seus escritos. Trazem na ponta da língua (e no abecedário da máquina de escrever) o saber anárquico e apocalíptico da dispersão das línguas na Torre de Babel. Helder e Michaux reafirmam a Lei do divino: os humanos se entendem poeticamente quando cada língua nacional muda da casa que passou a ser a sua, a fim de que, na residência imprevista, reganhe sons e sintaxe quase ininteligíveis, que serão universais na diferença.

Para que a linguagem humana seja poeticamente universal, Herberto Helder "muda para português" poemas escritos pelos pigmeus da África Equatorial, pelos dincas do Sudão, pelos huitotos da Colômbia Britânica, pelo cubano José Lezama Lima, pelos índios comanche dos Estados Unidos, pelo britânico D.H. Lawrence, pelos maias (Cantares Dbitbalché), pelo americano Robert Duncan, pelos índios caxinauás da nossa Amazônia. O português é mais, porque é outro.

A troca de língua, a troca de propriedade (como se diz em transação imobiliária) é momento confuso e fraterno. O distante e cobiçado se torna próximo. Mas a troca poética é principalmente "perda do sentido de propriedade" (como assinalou Denis Diderot a respeito do homem não europeu, para quem não existe a ideia de propriedade privada). Tudo é de todos. Ao mudar o poema de uma língua para a sua, o poeta descaracteriza a língua nacional e, pela superabundância da outra, a enobrece. Muda para sua língua os poemas escritos nas diversas civilizações e línguas do planeta, faladas em séculos distantes uns dos outros.

De Herberto Helder, salientem-se duas coleções de poemas: Ouolof (1997) e Magias (2010), ambos editados pela Assírio & Alvim. Neles coabitam os variados exemplos dados acima. As duas coleções trazem como subtítulo: Poemas Mudados para Português. Antes de ser transcriação de texto, como quer Haroldo de Campos, traduzir é ato de "mudar de língua". O poema muda de casa: sai da casa materna, onde estava para ser expulso por excesso, e é alocado a outra casa, onde será certamente bem recebido pelo anfitrião, mas novamente expulso por "desregramento", para lembrar o velho e sempre jovem Arthur Rimbaud. A palavra poética nunca está à vontade no mundo da convenção, por isso, transmigra. É invenção multilinguística nômade.

A poesia não se escreve com a tinta cujo fluxo é represado no cubo da caixa d’água pelo ladrão, obediente à função delegada a ele pelo engenheiro. A poesia se escreve com a tinta expelida pelo ladrão de várias, de todas as caixas d’água do mundo. As caixas d’água fomentam umas às outras pela sobra. Pelo desperdício.

Para Helder, traduzir não é deixar a voz seguir conformada o ritmo da prosódia materna. Ao se mudar, o poema inventa vocábulos com os sons de casa e os libera por caminhos sintáticos inexplorados. Mais significativa é a tradução se prótese, se artificial, vinho reconstituinte para a língua materna que se foi esclerosando pela ditadura do dicionário e da gramática. A poesia é tão vária quanto a Torre de Babel e tão única quanto o artista e seu leitor.

Helder e Michaux são contra Stéphane Mallarmé (seriam contra João Cabral de Melo Neto). Para que "dar um sentido mais puro às palavras da tribo"? A não ser para purificar a tinta represada na caixa d’água. A não ser para um filólogo corrigir os solecismos da Constituição de alguma República. Poesia não é detergente em pó.

A peripécia de Helder em Ouolof, suas "magias" têm o nome que lhe foi dado pelo segundo poeta, Henri Michaux. "Iniji" é a palavra que Michaux aloca a Helder e a todos nós. Iniji é título de poema que, por sua vez, enuncia uma poética universal que, na linguagem, traduz os impulsos e os movimentos que surpreendem a metamorfose perpétua da invenção humana. Em Iniji se lê (na "mudança do francês para português"): "Movem-se margens /Fundações afundam-se /Mundo. /Não mundo /só o amálgama". Ou ainda: "Fluidos, fluidos /tudo o que passa /passa sem parar /passa". Mais adiante: "Ananiá Iniji /Anâã Animá Iniji". Explica-se: "Iniji fala com palavras /que não são as suas palavras".

Traduzir obedece às leis da metáfora. Excesso de significado numa língua terá de o ser também na outra. Margaret Rigaud-Drayton escreve que o poema Iniji questiona a língua nacional (a francesa e qualquer outra para a qual foi "mudado") ao testar os limites da sua capacidade de significar. Derrubadas as margens, puro amálgama, Iniji convida o leitor a considerar o poder da poesia. Pela poesia a língua nacional se internacionaliza.

O projeto de Helder o aproxima também do atlas montado por Aby Warburg, intitulado Mnemosyne (memória). Neste são justapostas imagens afins produzidas em próximas e distantes culturas. Já Helder congrega em português os estilhaços babélicos de outra memória infinita - a da linguagem poética humana, independente de origem, de civilização e de autor.

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