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Lars von Trier bye, bye

Queridinho vira persona non grata em Cannes e diz adeus à possível Palma de Ouro

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2011 | 00h00

CANNES

De tanto querer fazer sensação no maior festival de cinema do mundo, Lars Von Trier terminou vítima do próprio exibicionismo. É verdade que o clima ajudou. Tudo o que a imprensa queria era um refresco do caso que mobiliza os franceses - as acusações de assédio sexual, num hotel de Nova York, que estão acabando com a carreira do presidenciável Strauss-Kahn. Lars forneceu os ingredientes, e agora paga por isso.

Não adianta ele ter divulgado uma nota, dizendo que não é racista (nem nazista) e desculpando-se pelo mal que suas declarações de quarta-feira possam ter causado. Rememorando o caso - durante a coletiva sobre o seu novo filme, o belo Melancolia (cujas qualidades passaram para o segundo plano), ele disse que compreendia Hitler e, "mesmo que tenha feito coisas ruins, simpatizo com ele". Ontem pela manhã, a cúpula do festival reuniu-se em caráter de emergência e Lars Von Trier, depois de anos sendo o queridinho do presidente do evento, Gilles Jacob, virou persona non grata.

No site do festival - www.festival-cannes.fr -, a nota enfatiza que as declarações do "sr. Von Trier" estão na contramão de tudo aquilo que Cannes defende (humanidade, tolerância. etc.). Bye-bye, Palma de Ouro, ou será que o júri presidido por Robert De Niro vai enfrentar Jacob, a comunidade israelense, qualquer pessoa de bom senso que ache que o diretor dinamarquês se excedeu? E Lars estava sendo sincero ou só querendo criar um "caso"? Essa é a pergunta que todos se fazem, e que com certeza vai ficar deste festival.

Ele estava, de qualquer maneira, num dia de humor meio pesado. Anunciou que seu próximo filme será um pornô, cheio de sexo explícito e com mais de quatro horas - haja Viagra! -, para satisfazer os desejos secretos da atriz Kirsten Dunst, que faz uma das irmãs de Melancolia. Kirsten segurou a onda, mas quando o diretor elogiou Hitler, ela levou as mãos ao rosto e deu para ouvir seu desabafo - "Oh, God". É pena que tudo isso tenha ocorrido porque Melancolia é muito bom e recebeu ótimas cotações dos críticos. Cahiers du Cinéma e Positif, revistas rivais, lhe outorgaram a Palma. Et Maintenant, On Va Ou? E agora, aonde vamos? É o título do filme de Nadine Labaki na mostra Um Certain Regard, mas é também a pergunta que cabe nesta história toda.

Os desdobramentos do affair Von Trier meio que ofuscaram o que seria o grande dia de Pedro Almodóvar no 64.º Festival de Cannes. Há anos que o autor espanhol persegue sua Palma. É muito difícil que venha consegui-la com La Piel Que Habito. O novo Almodóvar tem várias conexões com o Brasil, mais exatamente, com a Bahia. Na coletiva, Almodóvar disse que esteve três ou quatro vezes na casa de Caetano Veloso. Acrescentou que a Bahia é um dos mais belos lugares do mundo. Um dos personagens, que fala portunhol, veste-se de tigre para ressaltar o caráter selvagem da família que ele põe em cena. E o Brasil, lembrou o cineasta, está na ponta da cirurgia estética com o dr. Ivo Pitanguy, "que não sei se ainda existe", acrescentou.

Há ecos de Les Yeux sans Visage, o cult fantástico do francês Georges Franju, mas fornecem uma pista falsa. No começo, as pesquisas de pele do dr. Antonio Banderas nos levam a crer nos seus experimentos como ligados ao acidente da mulher, carbonizada num acidente de carro. Mas La Piel Que Habito aponta em outra direção. É o filme definitivo sobre abuso sexual, sobre transgenia de almas - a coexistência do masculino e do feminino. Para Almodóvar, é um filme sobre a sobrevivência e os sobreviventes.

Mudança de sexo. Banderas sequestra e faz uma cirurgia de mudança de sexo no rapaz que violou sua filha. Sai o garoto e entra em cena Elena Anaya, estrela de Manoel de Oliveira (Angélica) e Andrucha Waddington (Lope). Há 25 anos ou mais, na primeira fase de sua carreira, Almodóvar fez filmes sobre transexuais e mudança de sexo. Era a sua fase "escrachada". Agora, ele retoma os temas com seu atual apuro de mise-en-scène, mas o resultado desconcerta. Havia gente se perguntando, como num velho filme de Almodóvar, "Que hé hecho para merecer eso?", no fim da sessão.

La Piel Que Habito é irregular, feito de altos e baixos, mas a grande surpresa é que, no limite, o filme termina bem, muito bem. Quando estrear no Brasil, distribuído pela Paris, você verá que Almodóvar não poderia ter imaginado um final melhor nem mais denso (e triste?) para sua extravagante história. Resta saber se, aos olhos do júri, isso será suficiente para ele continuar aspirando à Palma.

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