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Larbi Cherkaoui, uma estrela espantosa

Após criar para companhias como a Ópera de Paris e Les Ballets de Monte Carlo, coreógrafo traz ‘Puz/zle’ ao País

Helena Katz - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

24 de outubro de 2013 | 19h26

Puz/zle reúne 11 bailarinos, 7 cantores e um percussionista. Composta no ano passado por Sidi Larbi Cherkaoui, e dançada pela Eastman (www.east-man.be), companhia que criou em 2010, será apresentada apenas três vezes no Alfa neste fim de semana.

Estrela disputada pelos palcos internacionais e ainda pouco conhecido no Brasil, Sidi Larbi espanta pela produtividade. Para dar uma ideia da sua capacidade de fazer muitas e diferentes coisas, basta listar o que realizou somente neste ano: a coreografia da ópera Götterdämmerung (em março), os quatro duetos de 4D (também em março), uma releitura do Bolero, para a Ópera de Paris (em maio), Milonga (no final de maio), e Gênesis (que vai estrear em novembro).

Falando ao telefone enquanto caminhava para um ensaio da companhia na cidade onde nasceu, Antuérpia, ele afirma ao Estado: “Sou obsessivo. Se me dedicasse a um único projeto, exigiria tanto de mim que sofreria o tempo todo. Diversificar me protege, é o que me permite avançar no que me interessa usando as oportunidades que aparecem”.

Em 2012, teve uma experiência que se tornou muito potente: fez a coreografia (usando vários bailarinos da sua companhia) para Anna Karenina, filme de Joe Wright sobre a obra de 1874 de Tolstoi, que obteve quatro indicações para o Oscar.

De lá para cá, anda bastante preocupado com a comunicabilidade da dança contemporânea: “Depois da experiência com o cinema, está mais clara ainda a necessidade de tornar a dança mais acessível para todos. Não falo de uma dança ‘fácil’, mas de uma dança que consiga se conectar com as pessoas. Precisamos aprender a nos beneficiar da possibilidade de estar em diferentes lugares ao mesmo tempo que o cinema permite. Estou engatinhando ainda, mas vou seguir por aí, mantendo o contato com Joe”.

Em suas obras, a preocupação com as tensões culturais estão sempre presentes. Mistura de flamengo e marroquino, vive no seu dia a dia a exigência de precisar traduzir as duas culturas para poder conectá-las. “Desde cedo, aprendi a ficar entre, porque nasci cristão e muçulmano. Precisei estudar filosofia para entender que não quero um mundo no qual alguém me diz o que é certo e errado e tampouco o que devo fazer”, afirma.

Talvez por conta da sua história de vida tão particular, que inclui haver estudado na P.A.R.T.S, escola ligada a Anne Teresa de Keersmaeker, trabalhado com Alain Platel no Les Ballets C. de la B., a relação entre antepassados, tradição, multiculturalismo, tolerância e presente tenha grande importância para ele. “Não é necessário ficar somente inventando. O passado está lotado de obras maravilhosas que precisam continuar a ser reinventadas por nós. Temos muito a aprender com os legados, precisamos sobretudo aprender a não esquecer deles”, conta.

Coreografou para companhias do porte do Ballet du Grand Théâtre de Genève, Les Ballets de Monte Carlo, Cullberg Ballet, Ópera de Paris. “Tudo acontece de forma muito ligeira no trabalho com as outras companhias. Não há tempo suficiente para que os bailarinos absorvam o que é necessário porque é preciso passar pelo processo de entender e fazer. A velocidade com que tudo deve acontecer é agora uma das principais questões que temos a enfrentar”, explica.

A iniciativa para trazer Sidi Larbi Cherkaoui e a Eastman ao Brasil é do produtor João Carlos Couto, consultor da programação de dança do Teatro Alfa desde o seu começo, em 2003. “Este é um projeto que já tem dez anos. Foi, o primeiro espetáculo dele que assisti, em Lille, em 2003. Você propõe anos a fio, mas, como os espetáculos dele reúnem muitas agendas, é sempre mais difícil acertar uma data possível. Para mim, ele conseguiu dar uma dimensão universal a preocupações que muitos tratam apenas parcialmente. É uma felicidade tão grande poder ajudar a apresentar alguém como Sidi aqui, que faz valer todos os sofrimentos que uma operação grande assim sempre traz.”

Como nas outras produções de Sidi, também em Puz/zle a música tem importância central. Além do coro da Córsega de vozes masculinas, o La Filetta, e da cantora libanesa Fadia El-Hage, reúne também as composições de Jean-Claude Acquaviva, Kazunari Abe e Olga Wojciechowska.

 

SIDI LARBI CHERKAOUI

Teatro Alfa. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, 5693-4000. Hoje, 21h30; sáb., 20 h; dom., 18 h. R$ 20/R$ 170.

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