LARANJAS E FORMIGAS DE THEO

Artista se destaca como um dos mais jovens da 12ª Bienal de Istambul e do Videobrasil

CAMILA MOLINA, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2011 | 03h07

Theo Craveiro era estudante de artes plásticas na USP, em 2007, quando a polícia entrou em seu apartamento e pensou ser o artista um falsário, de dinheiro. Como, para ele, a arte é o terreno onde se "provoca" e se "desdobram paradoxos", ficou satisfeito com o ocorrido, mas passou dois anos respondendo a um processo por falsificação de moedas por causa das serigrafias de notas de 1 real que faziam parte da obra Projeto Nascente 4 Mil Reais, 4 Mil Reais, apresentada, naquela época, no Museu de Arte Contemporânea. "Depois, fiz um vídeo contando essa história", diz o artista, de 28 anos.

Até há pouco tempo, o paulistano Theo Craveiro era um desconhecido no fechado mundo das artes visuais. Inscrevia-se em editais de instituições como o Paço das Artes ou o Centro Cultural São Paulo e nada de ser selecionado - e quando apresentou o Projeto Nascente no MAC-USP, não foi premiado na exposição universitária. Chegou a criar, até mesmo, seu Museu Ambulante em 2010 - dentro de uma carreta de madeira colocava suas obras e alguns móveis de papelão e montava a própria exposição no vão livre do Masp ou na área externa do Museu de Arte Moderna. "Teve uma hora que quis fazer a minha lógica e as coisas começaram a acontecer." Este ano, enfim, Theo Craveiro explodiu - para dizer o mínimo, destacando-se na 12.ª Bienal de Istambul e no atual Videobrasil, festival de arte contemporânea em São Paulo.

São laranjas, mais de cem, que formam a bela e terrível obra Vanish, que o artista exibe no Sesc Belenzinho na mostra do Videobrasil - e as frutas vão apodrecer, até janeiro, dentro de uma grande caixa de vidro, espelho e luzes. Sedutora, a peça, da linhagem das 'Vanitas', faz lembrar da inevitável questão da morte - nos vemos refletidos no trabalho, assim como são espelhados o ambiente ao redor e as pessoas que nele transitam.

Já na 12.ª Bienal de Istambul, em cartaz até domingo na cidade turca, a obra Formigueiro - Ideia Visível, 1956 - 2010, de Theo, é um 'quadro vivo' com um viveiro de formigas que habitam uma "composição abstrata" feita de caminhos de vidro quebrado, terra e folhas. A inspiração foi um trabalho concretista de Waldemar Cordeiro, criado na década de 1950.

De fato, é simplista descrever as criações de Theo Craveiro apenas pelo uso de materiais inusitados - laranjas e formigas. Há uma vertente conceitual e formal em suas obras que as coloca no instigante território do hibridismo e ambiguidade que só a arte pode oferecer. "As artes plásticas me interessaram mais sobre um jeito de pensar que não quer te empurrar nada, te convencer de nada, mas ser um convite para se refletir sobre sua vida", diz Theo, que largou, em 2003, o curso de fotografia no Senac para estudar artes na USP.

Para a Bienal de Istambul, foi convidado pelos curadores Adriano Pedrosa e Jens Hoffmann, assim como os consagrados brasileiros Antonio Dias e Adriana Varejão. Theo, enfim, está conseguindo até mesmo sobreviver de arte, o que é raro - ele, que também participa da mostra Em Direto, na Oficina Oswald de Andrade, está no time da galeria Mendes Wood.

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