LANCELOTE ENCONTRA O SERTÃO

Lancelote deixa a corte do Rei Arthur e troca as brumas de Camelot pela aridez do sertão nordestino. Eis o enredo que guia Lampião e Lancelote, musical que estreia amanhã no Teatro do Sesi. Com trilha sonora de Zeca Baleiro, a montagem se inspira no livro homônimo, obra escrita por Fernando Villela em que o cavaleiro da Távola Redonda enfrenta Lampião, o mais bravo cangaceiro do Brasil.

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2013 | 10h57

Ainda que o encontro entre esses dois mundos soe improvável, o autor diz ter encontrado uma matriz comum entre eles. "Existe um ponto em que esses universos convergem. A literatura de cordel traz para a contemporaneidade características das novelas de cavalaria e do trovadorismo", conta Villela. Como subsídio para a obra, ele aponta ainda os princípios do Movimento Armorial - iniciativa capitaneada por Ariano Suassuna que buscava criar uma arte de feições eruditas tomando por base as manifestações populares.

Para a batalha a ser travada, Lancelote e Lampião empunham, cada um, as suas armas: artes do verbo que eles irão exibir diante da plateia. Trata-se, sobretudo, de um duelo de linguagem, em que o vencedor será aquele capaz de construir o melhor repente. Responsável pela adaptação, Bráulio Tavares manteve boa parte da estrutura e da dicção do texto original. "Cerca de 70% do texto que está no palco vem do livro. Quase todo o seu esqueleto está mantido. Intercalado apenas por alguns gomos poéticos", argumenta a diretora Débora Dubois.

A mistura de prosa e poesia que surge na boca dos protagonistas possui incontáveis trechos rimados. "As falas do cangaceiro têm versos em sextilha, como na literatura de cordel. Já nos diálogos do cangaceiro, usei a setilha, sete versos de sete sílabas, aproximando-me da estrutura das novelas de cavalaria", conta o escritor.

Diretor musical, Zeca Baleiro "embrulha" esses versos com uma sonoridade nitidamente brasileira. Ao vivo, Bruno Menegatti toca rabeca, viola e violão. Ana Rodrigues empunha o acordeão. Há, ainda, uma parcela da música que foi pré-gravada em estúdio. "A música nordestina bebeu muito nos modos medieval e barroco, informação que nos foi passada pelos mouros através dos tempos. Logo, o repente e a trova menestrel, o aboio e a canção medieval, são 'gêneros' irmãos", diz Baleiro.

Esta não é a primeira experiência do compositor maranhense com musicais de cores nacionais. Em 2010, ele musicou e escreveu Quem Tem Medo de Curupira?. Voltada ao público infantojuvenil, a montagem se aproximava de referências do pop e do rock para apresentar criaturas míticas do folclore, como boitatá, caipora e saci. "Não é nova minha relação com o teatro. E ela não deve terminar. Meu próximo musical será baseado em Nelson Rodrigues", conta o músico.

A possibilidade de atuar em um musical completamente nacional - na produção e na temática - foi o que convenceu Cássio Scapin a integrar o elenco. "Os musicais estrangeiros estão por toda a parte, mas quase não há produções brasileiras do gênero. Existe um gap neste mercado", acredita o ator. Na peça, Scapin interpreta o narrador, responsável por guiar os espectadores nas idas e vindas da trama. Na pele de Lampião, está Daniel Infantini. E, como Lancelote, aparece Leonardo Miggiorin.

Se o texto trafega entre dois universos - o sertão do início do século 20 e a Europa medieval -, o mesmo vale para os aspectos visuais. No livro, Fernando Villela criou uma série de ilustrações para acompanhar o enredo e usou cores distintas para demarcar cada um dos territórios. Procedimento que a direção de arte repete nos figurinos. Em cobre estão a indumentária de Lampião e suas armas. Com tons prateados, aparecem a armadura de Lancelote e as vestes de Morgana. "Desde o princípio, pareceu importante manter a identidade estética do livro", pontua Débora Dubois.

Também o cenário de Duda Aruk lida com essa paleta de cores e princípios semelhantes. O palco está divido ao meio. Na parcela frontal, o piso está inclinado - evidenciando a aridez do solo. Xilogravura e fotografias da época também serviram como inspiração e surgem na série de projeções feitas ao longo do espetáculo.

Ao fundo, a cenografia prateada traz lanças, castelos e espadas. Quem também aparece incorporado à estética da peça é Glauber Rocha. Ainda que não seja citado no livro, o cineasta ocupa grande espaço entre as referências do escritor e é convocado a tomar parte da cena: As presenças de uma vaca cenográfica e de um carrinho de traveling servem para evocar as ideias e imagens do diretor de Deus e o Diabo na Terra do Sol.

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