Lançamentos infantis mostram Deus bonachão

Meu Deus do céu! Sim, é Ele mesmo, com direito a inicial em letra maiúscula e tudo o mais que garantir respeito. Esse tal a quem se costuma atribuir a criação do mundo está mostrando sua cara em dois livros infantis de lançamento recente, Que Mundo Maravilhoso!, da editora Brinque Book, e Deus Me Livre!, da Companhia das Letrinhas.Mas não são livros de religião, de propagação da fé católica no seio da família brasileira ou aqueles resumões da Bíblia para contentar cristãos. Os dois livros são escritos com bom humor, livres de ranços catequéticos e, sobretudo, das tais boas intenções. Deus mostra sua cara de forma brincalhona, irreverente e criativa."Dei asas à imaginação, que é talvez o modo mais autêntico de ser fiel à tradição", escreve Julius Lester no prefácio de seu Que Mundo Maravilhoso!. Ele é um escritor preocupado em recontar histórias folclóricas afro-americanas e africanas, para que toda a riqueza do universo da raça negra não seja esquecida. No seu livro, as ilustrações de Joe Cepeda mostram o Deus negro, usando bata africana, casado com uma certa d. Irene Deus, também negra, e assessorado de perto pelo anjo Bruno, que usa tênis, óculos e asas que parecem pranchas de skate.A história nada mais é do que uma versão para o surgimento de borboletas no planeta Terra. Bem pouco tempo depois de criar o mundo, Deus nem teve tempo de descansar e tomar chá na varanda de sua casa, bonachão como Ele só. Logo começaram as primeiras críticas, de que "aquilo lá embaixo" parecia muito chato. O criador resolveu, então, melhorar sua criação. Fez muitas tentativas, até que encheu a Terra de borboletas, colorindo-a e enfeitando-a, resolvendo, enfim, o problema.Deus Me Livre!, de Rosa Amanda Strausz, com ilustrações de Myrna Maracajá, não é lançamento tão recente. Saiu no fim do ano passado. A autora já teve tempo de ouvir as reações dos leitores sobre a sua versão do Pai de todos. "As crianças adoram e os adultos ficam surpresos com a forma tão desabrida e sem cerimônia com que falo de Deus", conta ela.Rosa Amanda escreve sobre como as crianças Júnior e Deusinha, filhos de Deus, descobrem o sexo e o sistema reprodutivo. Dito assim, imagina-se mais um daqueles manuais científicos de iniciação sexual, com esquemas do corpo humano e explicações sérias demais. Nada disso. A autora mostra Deus como uma espécie de designer, que vai "tentar" explicar para os filhos adolescentes as obras de arte que criou e como elas funcionam."Criança nenhuma nunca fez a clássica pergunta: ´Mãe, de onde vêm os bebês?´", diz Rosa. "A abordagem é diferente, muito mais emocional; hoje em dia, para completar, elas ouvem sobre Bill Clinton na TV e perguntam: ´Mãe, o que é sexo oral?´" Por isso, Rosa Amanda acertou no tom. Não escreveu uma aula de ciências, tampouco de religião. Produziu uma pérola de imaginação e humor - muito, mas muito mais eficiente.Que Mundo Maravilhoso!, de Julius Lester. Brinque Book, 32 págs. R$ 16,00.Deus Me Livre!, de Rosa A. Strausz. Companhia das Letrinhas, 32 págs., R$ 17,00.

Agencia Estado,

28 de julho de 2000 | 17h21

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