Lançamento de edição de A Revista lembra censura

Uma onda de saudosismo marcou os visitantes que percorreram hoje um quarteirão da Rua Maria Antônia, no centro de São Paulo, entre as ruas Dr. Vila Nova e Itambé, interditado ao trânsito de carros. Ali, sob uma cobertura, um público de idades distintas conheceu (alguns relembraram) os acontecimentos de outubro de 1968, quando um confronto entre os estudantes da USP e os do Mackenzie distinguiu nitidamente opositores e apoiadores do regime militar.Naquele ano o acontecimento resultou em vários feridos e um morto, a ocupação de hoje teve um saldo pacífico. "É muito bom percorrer esse quarteirão em paz", afirmou o comentarista Arnaldo Jabor, que naqueles dias ainda vivia no Rio de Janeiro. "Naquela época, graças à opressão dos militares, a juventude enlouqueceu e se atirou nos mais diversos caminhos, como guerrilha armada, drogas e até magia negra."Jabor foi um dos muitos visitantes que hoje, entre 11 e 17 horas, acompanharam o lançamento da sétima edição de A Revista, publicação bimestral da editora Takano, que focaliza os acontecimentos que marcaram o ano de 1968. Além de ter a maioria das matérias sobre esse assunto, a edição vem acompanhada também de fac-símile da primeira impressão de "Os Lusíadas", datada de 1572, poema que foi utilizado pelo jornal O Estado de S. Paulo na substituição de matérias censuradas pelo regime, artifício que se tornou clássico na luta de resistência.Completando o pacote, com a edição vem um DVD com imagens raras sobre aquele período, coletadas na Cinemateca Brasileira. As cenas foram exibidas durante toda a tarde em três telões, acompanhadas ainda de imagens de gols marcados na época, além de números musicais do Festival da Record. "Não vivi diretamente os problemas desse período, pois eu estudava em outro lugar", lembra Ana Buarque de Holanda, filha de Sérgio e irmã de Chico. "Mas vi muitas das movimentações que aconteceram nesta rua e tenho firme na memória a imagem da minha mãe trazendo sanduíches à noite, para os estudantes que faziam barricada no prédio da Filosofia."Sérgio Buarque de Holanda é tema da principal matéria de A Revista e Ana foi uma das principais articuladoras para a publicação. "Quando comentei com o Marcos Weinstock (diretor de criação da edição) que neste ano seria comemorado o centenário de meu pai, ele decidiu que um número prestaria homenagem a ele."Enquanto Ana acompanhava muitas das imagens projetadas nos telões, as mesmas cenas despertaram a curiosidade das mexicanas Concepción e Gabriela Severino, mãe e filha, atraídas pelas manifestações que marcaram o lançamento - além das projeções, uma série de concertos eruditos e populares ocorreu durante toda a tarde. "Não pensei que tivessem acontecido tantos atos violentos", disse Concepción que, na época, vivia em seu país. "Durante esse período, sabíamos que a repressão era dura na Argentina e no Uruguai, mas não no Brasil, do qual só ouvíamos falar de Pelé e Rivelino."A resistência contra o regime militar, expressada especialmente pelos estudantes da USP, era uma rotina para Maria Eugênia de Alencar que, na época, viveu algumas semanas em uma pensão da Rua Maria Antônia. "Era comum acompanhar, da minha janela, confrontos contra a polícia", afirma. "Apesar da violência, era um momento em que ainda tínhamos esperança." Apesar de habitualmente não ser comercializada, A Revista está à venda no Centro Universitário Maria Antônia, que recebeu 1.500 exemplares da Takano para serem vendidos a R$ 30. O que for arrecadado vai ajudar na reforma do prédio do centro.

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