Lançado romance esquecido de Henry James

Henry James (15/4/1843-28/2/1916) é daqueles escritores clássicos no sentido de que é eterno. O que escrevia de bom continua bom hoje, essa é a marca do clássico verdadeiro. Livros como As Asas da Pomba, A Volta do Parafuso, The Golden Bowl, Retrato de uma Senhora são títulos que marcam a literatura anglo-americana (Estados Unidos e Grã-Bretanha brigam até hoje para se apropriar de James, já que embora nascido em Nova York, morou bom tempo em Londres e se naturalizou inglês). Seu período final é todo inglês. Curiosamente, é uma fase pouco estudada da sua vida e, para a maioria dos leitores, sua carreira termina com The Golden Bowl, de 1904, talvez porque este romance, fora de catálogo no Brasil - alô, alô, editoras - seja considerado por muitos o melhor livro dele e toda a experiência de uma vida tem a ver com sua realização. Talvez agora, com a exibição do filme ATaça de Ouro, em 2002, ele consiga ser lido em tradução nacional. A propósito, a atualidade de James se traduz pelo número de livros dele que são adaptados para cinema e TV, como Retrato de uma Mulher. Para supresa até de fãs de Henry James, acaba de ser publicado pela editora Penguin The Outcry, um romance completo de James, pouquíssimo conhecido, editado em 1911 e nunca mais. Ele deixou alguns romances inacabados como The Sense of the Past, mas eles parecem mais exercícios de estilo que complicam a vida do leitor que narrativas do nível dos outros livros de James. Os contos dessa fase são dos melhores que ele escreveu também, prosseguindo a tendência psicológica e abstrata de The Golden Bowl. Um dos pequenos grandes livros de James é Os Papéis de Aspern, que foi inspirado por uma fofoca. O mesmo aconteceu com The Outcry: o escritor soube do caso do retrato da rainha Cristina da Dinamarca, feito por Hans Holbein, que era do duque de Norfolk e emprestado para a National Gallery. O duque revelou que recebeu ofertas enormes pelo quadro e queria vendê-lo. No fim, o museu estatal ficou com ele, graças a uma valiosa doação de uma mulher que ficou no anonimato. James ficou fascinado pela história e em 1909, começou a escrevê-la. Pensou não num romance, mas numa peça. Suas tentativas anteriores de fazer teatro não foram lá grande coisa (embora tivessem ajudado muito sua técnica de escrever ficção) e a última, Guy Domville, foi descrita como "uma humilhação pública". Pelo que se viu depois, poderia ser um sucesso como comédia de costumes. Poderia porque James terminou o texto, mas não pode encená-lo. A morte do rei Eduardo VII, em maio de 1910, fez com que todos os teatros ingleses fechassem num período de luto nacional e a última peça de James foi para o espaço, mesmo tendo sido elogiada por quem conheceu o texto original para os palcos. The Outcry, reescrito como romance, saiu em 1911 e foi um sucesso. James nunca foi dos mais populares, mas vendia razoavelmente. Contudo, após a morte do escritor, o livro como que caiu num buraco negro e ninguém pensou em publicá-lo até agora. Henry James estava exausto na época e não se esforçou muito na transformação da peça. Basicamente, ele estava com um texto meio pronto nas mãos e aproveitou para lançá-lo, mesmo sob outra forma, a de uma ficção curta, para atender seus compromissos com o editor. Cada página, dizem as primeiras críticas da reedição, que saíram nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, mostra a origem teatral do texto, que vai pouco além do diálogo; raramente o autor se aventura pela descrição e quando intervém na ação, geralmente usa frases rápidas que parecem indicações para marcações de teatro. Se o autor fosse outro, The Outrcry não teria de sofrer umas comparações implacáveis com textos exemplares como os anteriores de James. De qualquer forma, é uma conversa refinada e de duplo sentido, sobre um quadro que pode ser ou não mais importante do que todos pensaram. Se na Inglaterra o livro ainda teve repercussão, nos Estados Unidos ele simplesmente foi esnobado. Afinal, James morava do outro lado do Atlântico e só de vez em quando voltava ao país natal. Ao completar 70 anos, foi consagrado como um clássico contemporâneo. Dois anos depois, em 1915, tornou-se cidadão britânico e morreu em 1916, em plena Primeira Guerra Mundial, que marcou significativamente o fim do mundo vitoriano, com sua era de aparências, tema favorito do grande escritor.

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