Lançado romance científico de Volpi

Durante a Feira de Frankfurt de 1999, o livro de um autor mexicano conhecido por poucos despertou a atenção de muitos - era Em Busca de Klingsor, um volumoso romance científico que se destacava também por ser um intrigante relato sobre a justiça, a razão, a moral, a ética e também o amor. O autor, Jorge Volpi, tornou-se o nome mais discutido no evento, entre escritores de língua espanhola. E o livro, lançado recentemente pela Companhia das Letras (480 páginas, R$ 38,50), ganhou, no mesmo ano, o Prêmio Biblioteca Breve, na Espanha, recebendo elogios de autores renomados, como o cubano Gabriel Cabrera Infante."Em Busca de Klingsor é uma amostra exemplar da arte que quero denominar ´ciência-fusão´. Fusão da ciência com a história, a política e a literatura para dar forma a isto que chamamos ´cultura´", elogiou Cabrera Infante, tachando-o ainda de "romance de mestre".O livro conta a história do tenente Francis Bacon, que recebe a ordem de capturar o cientista que controlou as investigações atômicas do 3.º Reich. Klingsor, seu codinome, supervisionava a organização secreta de físicos e místicos da SS dedicada a solucionar a construção da bomba atômica. Na perseguição de um homem que praticamente não deixou vestígios e cuja existência é até questionada, Bacon contata grandes nomes da ciência, como Albert Einstein, além de outros físicos como Werner Heisenberg e Niels Bohr, que foram personagens de uma outra obra, a peça Copenhagen, do inglês Michael Frayn, em cartaz na cidade.O sucesso do romance tornou Jorge Volpi um nome procurado para encontros literários - foi destaque, por exemplo, do Congresso de Novos Narradores Ibero-Americanos, em Madri. "Alguns agourentos acreditam que o romance chegou ao seu fim, o que não é verdadeiro, pois desde que Proust, Joyce e Kafka mudaram os modelos narrativos, como já fizera a física quântica com a ciência, tudo se transformou e a possibilidade é imensa", afirmou ele, que concedeu a seguinte entrevista para a reportagem, por mensagem eletrônica:Agência Estado - Como surgiu a idéia de escrever Em Busca de Klingsor?Jorge Volpi - Desde criança, sou interessado no mundo da ciência mas logo me decidi pelos estudos das humanidades, pois tive péssimos professores da área científica. Sempre lamentei, porém, ter seguido esse caminho. Meu primeiro objetivo foi, então, escrever um romance sobre o mundo da ciência, esse mundo que eu havia perdido. Eu sabia também que havia uma quantidade de riqueza de imagens, metáforas e símbolos que permitiriam não apenas explicar o mundo, que é o que busca a ciência, mas também as relações humanas entre si e com seu ambiente.Apesar de ser um romance científico, o que parece mais importante são as histórias de cada personagem.Estou totalmente de acordo. Eu queria enfrentar destinos particulares dos grandes temas e momentos da história. Diante da guerra e da bomba, interessa a história de amor de Links e Bacon. Afinal, as decisões tomadas pelos personagens têm relação com o amor. Em meio às incertezas, a decisão trágica é sempre apostar no amor irracional.A intenção da ciência é simplificar suas leis, mas o romance coloca o leitor em situações às vezes complexas. Por quê?Porque o caminho para a verdade, como diziam os antigos, sempre é tortuoso.Como o sr. vê a verdade científica?É a melhor aproximação que dispomos da realidade, por mais que não seja uma verdade absoluta. E a novela é um questionamento dessa verdade absoluta. Trata-se de um romance que questiona as verdades históricas, uma vez que esse foi o tema da ciência no século passado. Para mim, é interessante observar como a verdade científica não é apenas um produto de laboratório, da concentração, dos experimentos, mas também da própria vontade dos indivíduos e, desde logo, da luta de verdades em conflito.Ao fim da leitura, o leitor encontra-se desconfiado do que leu. Era intencional transformar o leitor, durante o ato de ler o romance, em participante de um jogo?Desde logo, como se tratava de uma novela sobre o azar e a incerteza, não era correto deixar ao leitor uma verdade completa. Ele teria de ser introduzido nesse mesmo mundo confuso e deixar que ele realizasse sua própria decisão sobre o final. Ao fim da leitura, seria interessante o leitor recomeçar para descobrir os momentos em que foi enganado intencionalmente pelo narrador e os momentos em que esse narrador foi enganado pela própria narração. O leitor tem de ser mais inteligente que o narrador.O romance começa com Hitler dizendo "Nada de luz!", o que é sintomático sobre o período que viria a seguir. E termina com Links pedindo que a luz seja acesa. Seria o triunfo da ciência?Não exatamente. Se a ciência sai triunfante depois de tudo que acontece, não ocorre o mesmo com os personagens. Se a luz se acende no final, é para mostrar que estes foram trocados ou sucumbiram. Uma das minhas inspirações foram as frases finais de Goethe ("Luz! Mais Luz!"), que correspondem também ao fim do romantismo.O sr. acredita, como Jorge Luis Borges, que toda a metafísica não passa de um ramo da literatura fantástica?Trata-se de uma boutade (dito espirituoso) de Borges que sem dúvida, tem muito de certa. Às vezes, não é apenas a metafísica, mas as ciências humanas em geral se voltam quase fantásticas. Sempre admirei a idéia de Borges em converter a filosofia, a ciência ou a psicanálise em um ramo da literatura fantástica.

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