JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

Lançado há 50 anos, conto de João Antônio inspira disco de Thiago França

Ouça na íntegra o disco 'Malagueta Perus e Bacanaço'

Lucas Nobile / Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

27 de dezembro de 2013 | 19h30

Avesso a holofotes e a posar de celebridade, em uma das poucas entrevistas que concedeu, o escritor paulistano João Antônio (1937-1996) disse ao jornalista Aramis Millarch: “Não estou brincando de escritor. Joguei a vida nessa aí. Abandonei uma situação que era muito mais cômoda, era muito mais razoável. Eu não tenho uma relação intelectual com a literatura, é uma relação vital”.

Há alguns anos, nomes como Thiago França, Rodrigo Campos, Kiko Dinucci, Romulo Fróes, Marcelo Cabral, Juçara Marçal, entre outros, também não têm brincado de ser músicos. Lançam uma enxurrada de discos por ano, faixas, bootlegs, participam de diversos projetos, circulam em festivais por todo o país (sem leis de incentivo ou editais) e tocam em todo tipo de casa de show a preços acessíveis. Independentes, são eles que dão as cartas na música contemporânea de São Paulo.

Nesse ritmo intenso, de alta produtividade, esse grupo de músicos está presente em mais um lançamento. Trata-se do álbum Malagueta Perus e Bacanaço, do saxofonista e compositor Thiago França, feito em homenagem ao conto de mesmo nome de João Antônio, que completou 50 anos em 2013.

 

 

 

O conto foi escrito em 1958 e, dois anos depois, os originais se perderam em um incêndio na casa do pai do escritor. João Antônio reescreveu a história e lançou o livro em 1963. Com a obra, recebeu prêmios como o Jabuti (autor revelação e melhor autor de contos), algo inédito, até então, para um estreante.

O álbum, gravado pela YB Music e que sairá também em vinil pela Goma-Gringa, foi lançado gratuitamente na internet (thiagofrancaoficial.blogspot.com.br) no último dia 17 e é mais um redescobrimento do talento de João Antônio. Das 11 faixas, oito são instrumentais, trilha sonora criada a partir do conto que narra a história de três malandros paulistanos que vagam por bairros da cidade, como Lapa, Água Branca, Barra Funda, Perdizes e o Centro, atrás de jogos de sinuca, valendo dinheiro.

Da leva de temas instrumentais, três (Malagueta, Perus e Bacanaço, que abre o disco; São Paulo de Noite e De Volta à Lapa, que no disco conta com breve locução de Maurício Pereira) surgiram em 2010, quando a faísca do projeto acendeu na cabeça de Thiago França. Na época, ele se apresentava no Ó do Borogodó com o projeto Gafieira Nacional, que contava com integrantes que estão no disco: Rodrigo Campos (voz, cavaquinho, violão e guitarra), Marcelo Cabral (baixo), Welington “Pimpa” Moreira (bateria e percussão), Amilcar Rodrigues (trompete e flughelhorn) e Didi Machado (trombone). A este time, para as gravações do álbum, somaram-se Anderson Quevedo (sax barítono), Kiko Dinucci (voz, guitarra, violão e percussão) e Daniel Ganjaman (hammond, em duas faixas).

“Eu gosto muito disso, de ter um disco contando uma história, e não é um disco de saxofone. O disco nem tem improviso. O de Malagueta, Perus e Bacanaço está dentro da composição, tem ideia de ser uma parte da composição, não tem aquela coisa de chorus, é só tema”, diz França.

Ainda entre as faixas instrumentais está o Tema do Carne Frita, sobre um dos maiores tacos, como dizia João Antônio, da história da sinuca brasileira, verdadeira lenda da “arte do tapete verde” e que aparece com reverência no conto. Além dela foram compostas três vinhetas, para apresentar cada um dos três personagens centrais da história: Picardia, um sambão para “descrever” a pompa e a lábia do malandro típico, Bacanaço; Nostalgia, faixa sobre o jovem Perus, outro bom de taco, mais ingênuo e deslumbrado com a malandragem da noite e que sempre vislumbra “um joguinho na Vila Alpina”; e Fome, tema mais free, que tem breve locução de Romulo Fróes e apresenta Malagueta, velho malandro de taco que chegava no bar para um joguinho e pedia cachaça e um pão com pimenta malagueta. Por fim, no grupo das instrumentais há ainda o Bolero de Marly, bolero sacana sobre mais uma personagem que aparece brevemente no conto, a prostituta Marly, namorada de Bacanaço, que também é seu cafetão.

“Eu queria ser só o arregimentador dessa história. Todos eles (participantes do disco) têm uma ligação muito forte com o João Antônio, com essa estética paulistana. O João Antônio é mais um maldito de São Paulo, assim como Plínio Marcos, Itamar (Assumpção). E todos eles têm a sua visão particular desse universo, então achei que fazia muito sentido ter uma música do Kiko, uma do Rodrigo e uma do Romulo”, conta França.

Malagueta, Perus e Bacanaço tem também três canções. Na Multidão (Kiko Dinucci e Romulo Fróes), interpretada por Juçara Marçal; Vila Alpina, de Rodrigo Campos; e Caso do Bacalau, escrita e cantada por Dinucci e pelo rapper Rodrigo Ogi, crônica urbana inspirada em personagens e passagens do conto, e que capta a essência e o vocabulário de João Antônio, com palavras como coió, corriola, desenxabido, entre outras.

“Eu conhecia o Ogi de disco. E ele sabe mais de João Antônio do que todos nós juntos. Nesta música, pegou a ideia do conto e fez baseado, do jeito dele. O Ogi tem um lance legal pra caramba, ele é um rapper sambista, né? O flow dele é muito melodioso, é muito diferente. É algo muito próximo do Bezerra (da Silva), um flow que é mais um negócio de coco do que de rap, sabe?”, comenta França.

Impulso. A ideia de Malagueta, Perus e Bacanaço surgiu em 2010, e o álbum poderia ter sido lançado no primeiro semestre, o que não aconteceu devido ao ritmo intenso com que França atuou em alguns projetos, somando nove lançamentos no ano.

“A gente tem que começar a mexer nessa estrutura, é nosso papel. O que eu acho ruim é que as pessoas deixaram o modelo da indústria formatar o próprio impulso criativo, você tem uma meta a cumprir. A indústria impunha que você tem que vender o disco, então o show é para você vender o disco. Você lança, faz o show com as músicas daquele disco, aí você grava outro disco, que vai ser o produto da vez e as músicas antigas você enterra. A gente faz as coisas para elas durarem, serem perenes. O impulso criativo é ancestral, não foi a indústria que inventou isso. Eu não acordo com a sensação de que o HD está cheio, de ‘ai, não aguento mais informação’. Cada vez que você entra num universo diferente, vai tocar diferente”, completa o músico.

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