Lançada nos EUA, obra apresenta Primavera Árabe para leitores não iniciados

'The Battle for the Arab Spring' é a melhor síntese das revoltas até o momento

Hussein Ibish - Bookforum,

14 de setembro de 2012 | 19h00

Se alguém me pedisse, especialmente num tom de desespero, para sugerir algum livro que oferecesse um amplo pano de fundo, a título de introdução, das revoltas que convulsionaram grande parte do mundo árabe desde dezembro de 2010, não hesitaria em indicar The Battle for the Arab Spring. Lin Noueihed, editora da Reuters, e Alex Warren, especialista em consultoria, se juntaram para produzir um resumo de um alcance surpreendentemente grande e excepcionalmente preciso das revoltas chamadas geralmente, embora infelizmente, de Primavera Árabe. Particularmente para os que não estão familiarizados com o assunto, ou buscam um relato esquemático, mas relativamente detalhado, do que ocorreu e não ocorreu no mundo árabe nos últimos 18 meses, Noueihed e Warren diligente e metodicamente abordam todos os aspectos do movimento. Tudo o que um especialista esperaria fosse oferecido a um público popular em busca de orientação e informação está neste livro, e muito pouco do que é obviamente crucial foi omitido.

Mas esta grande força também é um ponto fraco fundamental do livro. (...) Folhear suas páginas muitas vezes provoca uma certa exasperação à medida que os autores examinam um assunto após o outro.

O livro tem início com uma série de capítulos que tratam das condições fundamentais que provocaram as revoltas: ausência de liberdade política, má governança e falta de dignidade pessoal; as frustrações socioeconômicas de uma população "pobre de classe média" desqualificada, condenada ao desemprego ou subemprego; e a ascensão de uma nova esfera pública árabe definida pela revolução das comunicações, dos canais de TV por satélite pan-árabes, os celulares e a internet. Segue então uma série de capítulos em que são abordadas as revoltas na Tunísia, Egito, Bahrein, Líbia, Iêmen e Síria, apresentadas numa ordem cronológica e também lógica. Finalmente, o livro oferece uma análise mais vívida ao ponderar sobre as consequências dos levantes no sentido de uma mudança no equilíbrio de poder no Oriente Médio, contemplando os desafios enfrentados pelos Estados mais estáveis do Golfo; os efeitos do declínio do poder americano na região no contexto de uma ordem mundial multipolar emergente; e a ascensão política dos islamistas árabes de várias categorias.

A grande força do livro está nos capítulos finais, particularmente quando os autores analisam os desafios com os quais se defrontam as monarquias do Golfo. No capítulo dedicado ao "Dilema dos Reis", Noueihed e Warren produziram talvez uma das melhores análises condensadas sobre o assunto - em particular ao avaliarem a dinâmica dentro do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), liderado pelos monarcas eternamente rivais da Arábia Saudita e do Qatar. Os autores admitem que o governo saudita ficou profundamente inquieto com a derrubada do ditador egípcio Hosni Mubarak e que todo o CCG está unido para, a qualquer custo, conter a propagação das rebeliões para qualquer uma das monarquias, incluindo Marrocos e Jordânia. E sublinham também que Arábia Saudita e Qatar estão hoje de acordo no sentido de que "se for necessário que haja uma democracia (em qualquer república árabe), então melhor que seja uma democracia islâmica sunita que consiga reforçar a posição do Golfo contra o Irã xiita, do que um liberal secular agitador cuja missão é difundir a liberdade para as monarquias". O resultado, naturalmente, é que os islamistas no geral podem se enquadrar muito melhor nos sistemas políticos e sociais existentes no Golfo do que os liberais - é por isso que o Qatar apoia a Irmandade Muçulmana e os sauditas aparentemente apoiam os diversos grupos salafistas. Noueihed e Warrente observam, também corretamente, que embora "todas as monarquias árabes possam sobreviver a curto prazo... o petróleo vai escassear num certo ponto, e quando isso ocorrer, a estrutura inteira de alguns Estados do Golfo será questionada".

Do mesmo modo, os autores oferecem uma bem-vinda profundidade analítica no capítulo intitulado A Ressurgência Islamista. Nesse capítulo, a argumentação é bastante vigorosa quando enfatizam diversos aspectos cruciais com frequência omitidos nas análises ocidentais: ou seja, que os islamistas formam um espectro surpreendentemente heterogêneo; que as democracias árabes não conseguirão funcionar sem a inclusão deles; que eles são inevitavelmente os primeiros beneficiários do espaço político recentemente aberto em muitas sociedades árabes; e que não há nada em teoria que deva, no decorrer do tempo, impedir esses islamistas árabes de desenvolverem mentalidades constitucionalistas coerentes com as normas exigidas para o bom funcionamento de uma democracia.

Os autores também não omitem as contradições fundamentais incrustadas na retórica islamista enfatizando a democracia, o pluralismo, os direitos humanos e, especialmente, a cidadania - tudo isso supostamente baseado em "valores" muçulmanos como eles os definem. "Democratas" islamistas, como Rachid Ghannouch e Said Ferjani, do partido Ennahda, da Tunísia, não se cansam de invocar a crucial importância da cidadania. Mas mesmos essas figuras relativamente "liberais" dentro dos movimentos islâmicos não chegam ao ponto de falar sobre as limitações dos direitos dos indivíduos previstas no seu programa inspirado pela religião. Noueihed e Warren sugerem que as sociedades árabes pós-ditadura podem produzir "democracias não liberais ou religiosas em que o governo é eleito e há uma rotatividade de poder, mas onde, por exemplo, a homossexualidade continua proibida e as minorias e as mulheres não têm os mesmos direitos que os homens". Num cenário como esse, as garantias islamistas quanto a direitos iguais para todos os cidadãos ficarão expostas como uma mentira retórica.

Desde que as revoltas eclodiram, tenho advertido que, após a queda das ditaduras, as sociedades árabes enfrentarão três importantes perigos: de um governo militar, Estados falidos e maiorias tirânicas. Apesar de a abundância de dados que os autores fornecem torne difícil discernir qual é o seu argumento em definitivo, eles consideram o terceiro perigo uma consequência muito provável.

E, na verdade, um revival político e religioso de direita no Oriente Médio, corroborado por um forte apoio democrático, é um resultado bastante provável dessas revoltas. Como observam os autores, é de se esperar que grupos islâmicos árabes criem partidos constitucionalistas sem passar por um processo de autêntico constitucionalismo. Algo visivelmente ausente na história política árabe. Noueihed e Warren estão certos quanto ao fato de que, em consequência de décadas de tortura e repressão brutais, alguns "islamistas tenham se radicalizado na prisão". Mas um dos poucos erros que eles cometem é afirmar que tais políticas têm sido norma em toda a região. "Os dirigentes árabes reservaram a sua mais dura repressão para os islamistas porque perceberam que eles constituem uma séria ameaça." (...)

Não obstante as falhas estilísticas e narrativas, The Battle for the Arab Spring é a melhor síntese das revoltas árabes produzida até o momento. Como um manual para os não iniciados, contém praticamente tudo o que é preciso. No entanto, é uma lástima que todo esse material pareça tão familiar, repetitivo e monótono para quem tem acompanhado de perto as transformações históricas em curso na paisagem política e na cultura árabes. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

HUSSEIN IBISH É PESQUISADOR SÊNIOR DA AMERICAN TASK FORCE ON PALESTINA (FORÇA TAREFA AMERICANA PARA A PALESTINA)

THE BATTLE FOR THE ARAB SPRING

Autores: Lin Noueihed e Alex Warren

Editora: Yale University Press

(Importado, 304 págs., U$S 28)

 

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