Lançada biografia de Patativa do Assaré

A editora CPC-Umes promove amanhã, a partir das 19 horas, o lançamento, com música e autógrafos, do livro-disco-ensaio fotográfico O Poeta do Povo - Vida e Obra de Patativa do Assaré, de Assis Ângelo (202 páginas, R$ 75). A festa de lançamento vai ser na Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos (Avenida Nações Unidas, 4.777, telefone 3024-3599).Para a festa, foram convidados o repentista Sebastião Marinho, presidente de associação de nome curioso - União dos Cantadores Repentistas e Apologistas do Nordeste (Ucran) -, e o compositor Gereba e montou-se exposição de fotos de Gal Oppido, que foi a Assaré flagrar o cantador genial em sua terra e a paisagem e os personagens da cidadezinha. Gereba vai cantar o repertório do CD que vem encartado no livro e é parte inseparável dele, com versos musicados de Patativa, um depoimento dele, uma parceria do repentista e do cantor, um poema dito pelo próprio poeta. Belo documento. No depoimento, Patativa conta como surgiu seu apelido - dado por um escritor cearense. O nome de batismo é Antônio Gonçalves da Silva. O livro é graficamente belíssimo. As imagens quase todas em cor, de Gal Oppido, muito conhecido pelas capas de disco e fotos de músicos que faz, são expressivas, trabalhadas em cores fortes, as cores do agreste.Infelizmente, o livro traz, também, uma série de textos de apresentação em que os apresentadores aproveitam para fazer auto-homenagem. Nos anexos, um texto que diz que, por iniciativa do deputado paulistano Fulano de Tal, foi realizada, no dia tal, uma sessão solene em homenagem... e ainda há o fac-símile do discurso do senador Sicrano dos Anéis Ferreira - e assim por diante. Essas intromissões dão ao Poeta do Povo um ar provinciano e cabotino. Devem ser ignoradas em nome da homenagem ao genial improvisador, talvez o maior dos repentistas nordestinos, vivo, lúcido e ativo aos 91 anos, completados no dia 5 de março.Patativa do Assaré nasceu numa localidade chamada Serra de Santana, próxima de Assaré, no Ceará. Foi apelidado de Sinhozinho. Perdeu um olho, no primeiro ano de vida. Aos 5 anos, embolava no quintal de casa. Aos 10, vendo um homem ler folhetos de cordel, resolveu estudar e tornar-se poeta popular. Aos 20, teve seu primeiro texto publicado, no jornal Correio do Ceará.Só em 1954 publicou o primeiro livro, Inspiração Nordestina. E só em 1979 lançou o primeiro disco, Poemas e Canções, produzido por Raimundo Fagner. O disco parte de um projeto ousado de gravadora CBS, hoje Sony Music: ao mesmo tempo em que saiu o disco de Patativa do Assaré, foi lançado outro, do repentista Oliveira de Panelas, produzido por Zé Ramalho. A crítica adorou, mas o resultado comercial foi decepcionante. O projeto foi extinto.Mas Patativa do Assaré já era lenda, à qual nem mesmo a televisão resistiu. Em 1993, ele participou da novela Renascer, da TV Globo, e o autor Benedito Ruy Barbosa fez um personagem de outra novela dizer um poema de Patativa. Ele publicou dezenas de cordéis e vários livros. Seus versos setessilábicos são ousados, originais, amorosíssimos: "Meu Assaré pequenino/ Sou também um pigmeu/ Eu vejo que meu destino/ Foi sempre ligado ao seu/ Tu pobre e desprotegido/ E eu velho e desiludido/ De um horizonte de amor/ Seguimos a nossa meta/ Feridos da mesma seta/ Sofrendo da mesma dor/ Desde o vale até a serra/ Te canto e tenho cantado/ Quem não ama a sua terra/ É um desnaturalizado/ Quando o coração desfeito/ Bater dentro do peito/ Sua derradeira nota/ Eu sei que a terra me come/ Mas tu ganharás o nome/ De um poeta patriota".Assis Ângelo fala da paisagem, dos personagens, do tempo da geografia da terra do poeta, numa narrativa que flui saborosamente. Em que pesem as falhas, O Poeta do Povo é uma rara e admirável homenagem em vida a uma expressão fundamental da cultura popular. Só por isso, seria meritório.

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