Lamento do amigo italiano

O livreiro Enrico Adelman, fiel em tudo e solidário a Roth

O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2012 | 02h07

LÚCIA GUIMARÃES

NOVA YORK

A cena se passa em 2006. A calçada da Broadway, em frente do mercado gourmet Zabar's, é sempre movimentada e abriga também uma banca de livros com desconto. Um freguês pega uma cópia do recém-lançado romance Homem Comum, de Philip Roth, com 182 páginas. Ele vê o preço, US$ 18, e interpela o vendedor: "US$ 18 por este livrinho?" Um sujeito alto que acompanha tudo, pergunta: "Quanto você acha que vale? US$ 10?" A resposta: "Por US$ 10, eu compro". "Vendido!", exclamou, impaciente, Philip Roth, o tal "sujeito alto". E o unha de fome saiu satisfeito com a barganha, sem reconhecer o autor. Roth puxou uma nota de US$ 20 e entregou, sob protestos, ao amigo, dono da banca, o livreiro Enrico Adelman.

Hoje é improvável encontrar Roth ali se divertindo à custa de desavisados. Mas, como se recusa a autografar livros, a não ser para Enrico, já corri para pegar minha cópia autografada de Nêmesis, seu romance final, que o livreiro me vendeu com uma expressão sincera de luto.

Os dois se conheceram em 1989, quando Enrico ainda era dono de sua segunda livraria, no mesmo quarteirão da Broadway. Grande contador de histórias, comerciante sofrível, Enrico é um florentino que emigrou ainda criança para os EUA, mas voltou para a Itália jovem, onde estudou russo, literatura e filosofia na Universidade de Florença. Nos anos 70, decidiu tentar a sorte em Nova York. Sua história é típica do livreiro independente, primeiro engolido pelas cadeias como a Barnes & Noble, depois massacrado pela Amazon e agora vivendo à custa da mesma Amazon com seu negócio Bloomsday Books on-line. A banca que mantém há 20 anos não dá mais lucro. Enrico ecoa Roth no desencanto pelo declínio da leitura: "Chamam Cinquenta Tons de Cinza de livro!", esbraveja.

O livreiro é zeloso da privacidade de Roth, que mora, durante o inverno, a quatro quarteirões da banca. Sabia que o amigo estava escrevendo uma obra de não ficção e contava com as "sessões de autógrafos" em sua casa, onde chegava com caixas de livros e desfiavam uma prosa, pelo jeito, cheia de humor traquinas.

Em 2010, quando fui convocada para entrevistar Roth sobre Humilhação, em sua casa de Connecticut, caminhei até a banca de Enrico e ele, maroto, me disse que tinha uma coisa especial do outro lado da rua, no porão onde acumula dezenas de milhares de livros. Voltou com as provas de Nêmesis - e Philip Roth concedeu ao Sabático uma exclusiva, gravada em vídeo, sobre o romance, à época ainda inédito. Diante da ausência literária de Philip Roth, aqui, no bairro onde esbarramos com ele, conversar com Enrico é uma forma de consolo. Agora, é o fantasma que entra em cena.

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