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Lambari de piscina

Tenho medo de esquecê-la do mesmo jeito que esqueço todo o resto

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2021 | 03h00

Quando ela chega na hidroginástica, minha alma parece que vai sair do corpo. Na minha idade, meu medo é que ela, a alma, não volte. Mas cá estou eu, um lambari de piscina, acompanhando com os olhos a caminhada da musa até a escadinha que vai dar na água. 

Ela molha os pulsos para sentir a temperatura. Alguns de nós pode ter feito um xixi involuntário na piscina – o que, convenhamos, ajuda a sustentar essa sensação morna e agradável. 

Gosto da touquinha protegendo o cabelo pintado. Gosto do maiô meio anos 50. Minha falecida usava um igual. Gosto demais do jeito em que ela arruma os óculos de natação atrás da orelha. A última vez que eu a vi foi quando? Acho que uns quinze dias antes de fechar tudo. Será que alguém notou que o meu coração está disparado? Vou submergir para disfarçar.

No começo da pandemia eu ainda mandava umas mensagens no WhatsApp dela. Eram recados inocentes, coisas como “bom dia”, “boa noite” e notícias sobre a covid que eu repassava sem ler. Infelizmente, precisei cortar essa comunicação depois que o neto dela me acusou de espalhar fake news.

Agora, estamos de novo nessa piscina. Acho que guardamos as mesmas marcas e dores pelo corpo. Ninguém chuta a porta dos oitenta impunemente. Somos contemporâneos, viúvos e sobreviventes.

No início do ano, fiquei muito ruim de covid. Fui parar na UTI e o médico do plano de saúde quase me despachou antes da hora. Quando estava naquele quarto, sonhei com ela.

Nós estávamos sentados em uma mesinha e tomávamos um café com bolo de cenoura. Lembro que ela catava as migalhas do bolo com a pontinha dos dedos e reunia todas elas em um montinho para comer depois. Aquilo me deixou comovido. 

No sonho, colocava minha mão sobre a mão dela e dizia alguma coisa sobre também gostar daquelas migalhas. Ela me olhava, sorria, e pedia para eu não morrer. 

Nos últimos meses, torci para encontrá-la na fila da vacina. Mas não aconteceu. Passei dias na frente do posto de saúde... Só depois fui saber, por meio de uma rede social, que o neto tinha embarcado com ela para o exterior. Acho que minha musa se vacinou em Portugal.

Agora estou aqui, lambari de piscina, me atrapalhando com os exercícios da hidroginástica. Aos 82 anos, me atrapalho com muita facilidade. Tenho medo de esquecê-la do mesmo jeito que esqueço todo o resto.

Ela acenou em minha direção. Estou tremendo. E não é de frio. Tenho 20 anos outra vez. Que agitação é essa? Acho que é isso o que acontece quando a gente se apaixona: a alma sai nadando borboleta.

*Gilberto Amendola é repórter do Estadão e observador da vida urbana

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