Lambança de carnaval

Meu carnaval inesquecível não foi num salão de baile nem num bloco de rua

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2018 | 02h00

Bem que eu queria ter uma boa história de carnaval para contar, uma história bonita, mesmo que fosse um pouco triste, que nem a Máscara Negra do Zé Kéti – Pierrô no meio da multidão, chorando pelo amor da Colombina, com quem, está fazendo um ano, trocou abraço e beijo que não vê a hora de reprisar, e antecipadamente se desculpa, vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval. Queria uma história assim, com final feliz ou não, que tivesse rolado (literalmente, se possível) num chão de confete, sob um céu de serpentina.

Talvez fosse preciso atualizar o enredo, passando do esvaziado salão ao suarento empurra-empurra dos blocos de rua – mas ainda assim eu provavelmente não mereceria protagonizar uma história digna de marchinha. De nada me valeu ter chegado ao mundo num sábado de carnaval. Mais: precisaria ter nascido minimamente folião, e não ter crescido numa cidade como aquela BH, quarentona pouco dada a remelexos pagãos, na qual era fácil desaguar na Quarta-Feira de Cinzas sem ter visto um palmo de serpentina, um mísero confete. Até por isso, imagino, tanta gente buscava um retiro espiritual – aquilo que Rubem Braga, para zoar com seus amigos católicos, chamou de “almaval”, já que nele a carne temporariamente não teria vez. Se a BH de agora se sacode inteira no carnaval de rua, é só mais uma prova de que minha cidade, não me canso de repetir, melhorou demais da conta depois que eu saí de lá.

Na verdade, até que tenho lembranças de gostosos carnavais, vividos na fazenda, menino, e nos salões de clubes, na adolescência. Ou mesmo nuns cantos de calçada, onde me sentava com uns comparsas para esguichar no lenço (não havia indivíduo do sexo masculino que não carregasse no bolso traseiro da calça um lenço de pano, não raro com iniciais bordadas) uns jatos de lança-perfume, buscando no éter um álibi químico para inconsciência de outra ordem. Convinha cafungar dois a dois, um apoiado nas costas do outro, e com as pernas bem abertas, para não estatelar na calçada. 

A farra durou até 1961, quando Jânio Quadros pôs o lança-perfume na ilegalidade, num pacote de proibições que incluiu ainda o biquíni, os desfiles de misses com maiôs cavados, as corridas de cavalos em dia de semana e, em qualquer hora e lugar, as brigas de galos. Lembro, a propósito, de investidas policiais contra rinhas em todo o País, nenhuma delas tão aparatosa quanto a encenada em BH. Assunto na imprensa nacional. Dezenas de pessoas foram presas, e outros tantos galos confiscados. Como para estes não houvesse uma cela-galinheiro, acabaram convertidos em boia de presidiário. Até mesmo o imbatível “Fidel Castro”, assim batizado em homenagem cívico-bélico-avícola a quem já ocupava em Cuba o mais alto dos poleiros.

Mas estou deixando o papo se esgarçar. Voltemos àqueles carnavais em que busquei saciedade para a sobrecarga de hormônios ociosos. Menos no amor, admito, do que em desvarios pelos quais o Código Penal poderia interessar-se. Toda esta prosa retorcida para dizer que meu carnaval inesquecível não transcorreu num salão de baile, nem mesmo numa calçada irrigada com lança-perfume, mas na sacada do apartamento, num 4º andar, onde morava um amigo, o não menos meliante Zé Amado. 

Estávamos os dois armando o bote para alguma festa quando, lá embaixo, na sobreloja, se pôs a crepitar o baile da Sociedade Mineira de Engenheiros. Da sacada escura, começamos a observar o espetáculo de casais que saíam para refrescar-se na varanda, ou para ali incendiar-se mais ainda em fogosos amassos – e aí é que nos veio a ideia maligna, gorda de inveja, de acabar com aquela sem-vergonhice. 

O primeiro projétil, contra um par todo enroscado, foi um copo d’água. Como no alcoolismo, porém, também num caso assim nunca se fica no primeiro copo, de modo que a ele, para resumir, muitos outros se seguiram, sem que nossa sede se aplacasse, depois toda uma jarra, e uma panela de água fria, e outra gelada, e hoje não sei como não chegamos ao caldeirão fervente, pois só quem já atirou coisas do alto sabe o risco de escorregar numa espiral cada vez mais ensandecida. Coisa de moleques? Não só: a certa altura, na sacada ao lado, o sempre sisudo desembargador nos absolveu tacitamente ao piscar um olho. 

Da água gelada evoluímos, qual escola de samba rumo à apoteose, para o conteúdo de uma cumbuca de feijão catado na geladeira, cujo melequento despejo sobre um casal por pouco não nos proporcionou um orgasmo a seco. Hoje poderíamos alegar, à guisa de justificativa, que estávamos apenas restaurando a tradição várias vezes secular do entrudo, aquele bombardeio de água, areia, farinha, limões de cheiro ou mesmo coisa malcheirosa a que outrora se resumia o nosso Carnaval. 

Esgotado o conteúdo da geladeira da mãe do Zé Amado, partimos para a cartada final, a nossa bomba atômica: uma panela na qual despejamos uma garrafa inteira de mel, de modo a que uma lenta, obesa, viscosa cachoeira fosse carimbar e recobrir um parzinho de foliões, em seguida empanado com uma latada de farinha de mandioca. Naquele ponto estávamos quando um de nós se lembrou da festa programada para aquela noite – mas bastou uma troca de olhares para concluirmos que o carnaval de BH nada tinha de mais excitante para nos oferecer. 

(Se você chegou até aqui, não me venha com reclamação, lá em cima eu avisei que não tinha uma boa história de carnaval para contar.)

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