Andrew Medichini/Reuters
Andrew Medichini/Reuters

Lado sexy da desilusão

Clooney leva ao Lido o filme do desencanto americano com a era Obama

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL

VENEZA

É um show à parte ver um ídolo de Hollywood chegar ao Lido de Veneza. Os comuns mortais vêm nos superlotados vaporetos; os deuses não descem propriamente dos céus, mas viajam em lanchas privativas. Foi numa delas que apareceu George Clooney no embarcadouro do Casinò, o Cassino, vetusta e imponente construção da primeira era fascista. Uma multidão de fãs e fotógrafos o esperava. Uns rivalizavam com outros numa gritaria digna de deixar a tietagem do Festival de Gramado no chinelo. Aqui estamos entre profissionais.

Clooney veio em companhia de parte do elenco e equipe do filme concorrente que abre a 68.ª Mostra de Veneza. The Ides of March, que estreia em outubro no Brasil sob o título de Tudo pelo Poder é baseado numa peça de Beau Willimon, Farraguth North. Literalmente, o título original se refere aos "idos de março", data do assassinato de Júlio César em 44 a.C. por seu filho adotivo, Brutus, e outros conspiradores.

Tem tudo a ver com essa trama de bastidores políticos, interpretada e dirigida pelo próprio Clooney. Ele faz o governador Mike Morris, que disputa as primárias em Ohio e tem boas chances de se eleger presidente dos Estados Unidos. Mas o foco todo da história recai sobre o assessor Stephen Myers, numa bela composição de Ryan Gosling. Ao longo da campanha, Myers envolve-se com a estagiária Molly (Evan Rachel Wood) ao mesmo tempo em que faz um aprendizado rápido do jogo sujo da política.

Na entrevista, Clooney disse que não havia nada de novo naquilo que mostrava. "As coisas são assim desde Júlio César. Talvez seja uma consequência da nossa falta de saúde mental. Deveríamos ter feito o filme em 2007, depois houve Obama, e a história era tão cínica que julgamos o momento inapropriado, com as pessoas tão esperançosas. Agora achamos que essa história voltou a fazer sentido." Ou seja, pode-se deduzir que seja o resultado de uma experiência de desilusão política. Ou, pelo menos, o refluxo de expectativas com o governo Obama tornou a obra atual tanto para o diretor como, supostamente, para o público norte-americano. Em especial do voto democrático, que esperava mudanças radicais do primeiro presidente negro.

Outro tema abordado é o da sedução como arma política. Ela se dá em diversos níveis. Por exemplo, a personagem de Evan Rachel Wood é envolvente por si mesma. Basta vê-la. Sexo e política andam juntos, embora nem sempre combinem, ainda menos no pseudo puritanismo americano. Há outros tipos de apelo. Paul Giamatti diz que seu personagem Paul Duffy seduz apenas com as palavras. É ele quem tenta fazer Stephen mudar de lado no jogo pesado da campanha eleitoral. "A política é muito sexy na América", diz o ator.

Jogo perigoso, esse da coabitação entre política e sexo, tanto que um personagem diz a certa altura que "Você pode fazer quase tudo, aumentar impostos, roubar, levar seu país à guerra; só não pode transar com a estagiária". Alusão a Clinton, mas a todo político pego em flagrante escapadela sexual. O resto não interessa. Ou não faz tanta diferença na ordem das coisas.

Esculpido em dramaturgia convencional, porém sólida, Tudo pelo Poder é um drama político adulto, desencantado e realista. Muito bem interpretado por um elenco homogêneo, investe fundo naquilo que o cinema norte-americano tem de mais solidificado por décadas seguidas de produção sem descontinuidade.

A peça foi escrita antes da era Obama e mesmo o filme foi planejado antes da sua eleição. Mas dele pode-se dizer que, na figura do assessor Stephen Myers, reflete um processo de amadurecimento político. Processo que costuma vir pelas vias da desilusão e do sofrimento.

VENEZIANAS

O documentarista Frederick Wiseman exibiu seu novo Crazy Horse, poderoso olhar sobre os bastidores do cabaré parisiense. Adepto de um cinema de observação, Wiseman mostra do que é feito o "mais conhecido espetáculo de nu chique do mundo", como os chefões do Crazy se autodefinem.

No último ano da gestão Marco Müller, Veneza mostra a ferida das obras inconclusas do Palácio do Cinema. Os italianos já apelidaram o buraco de Ground Zero.

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