Lado a lado com personagens reais

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Celso Ming, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2010 | 00h00

A paisagem é desoladora. É a maior crise da economia mundial desde os anos 30. Grandes bancos que aparentavam solidez começam a soltar fumaça preta e as autoridades, atônitas, ora se movimentam às cegas, ora parecem paralisadas, como estátuas e, às vezes, acertam sem dar trombadas.

Pode-se ler o livro Os Bastidores da Crise, do jornalista David Wessel, como quem assiste a um grande incêndio. Isso porque ele permite conferir quase ao vivo como se comportaram as vítimas e como trabalharam os bombeiros sob situação precária: falta d"água, equipamentos que não funcionavam e, mais que tudo, desconhecimento do que acontecia. Mesmo para entendidos é uma experiência e tanto.

O outro jeito é lê-lo como alguém que a qualquer momento pode enfrentar uma situação de alto estresse na vida: casamento que se desfaz de repente; o desemprego que muda tudo; doença grave de uma filha; o filho que se envolveu com narcotraficantes... Como lidar com coisas inesperadas e doloridas?

Voltemos no tempo. Tudo começou com um desarranjo num segmento pouco importante do mercado de financiamento imobiliário (hipotecário) nos Estados Unidos, o subprime. Parecia coisa de conserto fácil.

De repente, um a um os bancos americanos avisaram que estavam a perigo e pediram socorro. Depois se viu que não eram só os bancos. Estavam em chamas milhares de empresas enormes, grandes e pequenas, que atuavam como se fossem bancos sem que nenhuma instituição se encarregasse de controlá-las e de impor alguma supervisão.

Mais alguns meses e o que se imaginava que fosse apenas uma pane controlável tipicamente americana (como foi a crise das instituições de poupança no fim dos anos 80 e início dos 90) transformou-se em gigantesca cadeia de estouros globais de bolhas financeiras.

Os Bastidores da Crise é o relato palpitante do crash de 2008 feito por alguém que estava num privilegiado posto de observação: a editoria de Economia do maior jornal de Economia e Finanças do mundo, o Wall Street Journal. Wessel, que já arrebatara dois prêmios Pulitzer, o principal troféu do jornalismo nos Estados Unidos, descreve com vibração e grande capacidade de observação o período de turbulências que cobriu os dois últimos anos da administração Bush.

O livro mostra que o maior banco central do mundo, o Federal Reserve, dos Estados Unidos, a princípio não tinha clareza sobre o que acontecia. Seu presidente, o ex-professor de Economia da Universidade de Princeton, Estados Unidos, e celebrado especialista em crashes econômicos, entendia que nada exigia cuidados especiais.

O desastre maior foi a falência do Lehman Brothers, em setembro de 2008, mas tudo começara a mudar de forma irreversível, narra Wessel, seis meses antes, quando um banco de investimentos relativamente pequeno, o Bear Stearns, teve de ser socorrido. Até então, o Fed só cuidava dos seus bancos. O Bear era uma das instituições que não trabalhavam com depósitos do público e não tinha garantia oficial. Mas logo se viu que era preciso cuidar do caso num gabinete de guerra. O Bear Stearns acabou sendo comprado pelo JPMorgan Chase, com forte ajuda do Fed. Foi a primeira incursão fora dos manuais, ressalta Wessel - o marco que definiu o que veio antes e o que veio depois.

Mas, em seguida, veio o caso do Lehman Brothers. Até hoje os especialistas discutem se as autoridades dos Estados Unidos deveriam ou não ter salvado o Lehman. O que se pode dizer a favor do Fed e do Tesouro, que lavaram as mãos e foram acusados de omissão temerária, é que se o Lehman não tivesse quebrado, a crise talvez tivesse sido ainda mais profunda. Foi o pânico desencadeado pelo desastre do Lehman que, afinal, criou a percepção nas autoridades e nos políticos de que era preciso agir para além dos limites convencionados. Se as leis pareciam obstáculos, era então preciso reinterpretá-las, e retomar a maneira de pensar dos romanos para os quais a lei maior é a salvação do povo. E assim foi feito.

O diabo é que, rapidamente, os não-bancos ou os quase-bancos (ninguém sabia que eram assim) foram seriamente contagiados. Bancos comerciais (como o Citicorp, Wachovia, Washington Mutual), bancos de investimento, seguradoras (como a AIG), gigantescas sociedades de crédito imobiliário (Fannie Mae e Freddie Mac) ficaram a um triz do derretimento definitivo e irremediável.

Os principais protagonistas do improvisado corpo de bombeiros foram o presidente do Fed, Ben Bernanke; o secretário do Tesouro, Henry Paulson; o vice-presidente do Fed, Donald Kohn; o presidente do Fed de Nova York (agora secretário do Tesouro), Tim Geithner; a presidente do Federal Deposit Insurance Corporation, a instituição que controla o fundo de seguro de depósito bancário, Sheila Bair. O set da tragédia teve ainda dois zumbis: o presidente da República George Bush, que ficou a distância e entendeu que o comando da guerra deveria ser confiada a profissionais; e o ex-presidente do Fed, Alan Greenspan, que atuou em tudo como a grande sombra.

Trapalhadas. No conjunto, sustenta Wessel, atuações de gênio da administração e da política se misturaram com grandes trapalhadas. Paulson, por exemplo, personalidade atormentada por cobranças interiores, chegou a ajoelhar-se diante da presidente do Congresso, Nancy Pelosi, e pedir de mãos postas que os políticos, furiosos diante do que lhes parecia uma queima descomunal de dinheiro público, aprovassem uma injeção de US$ 700 bilhões do Troubled Assets Relief Fund (Tarp) para "a comprar ativos tóxicos dos bancos antes que quebrassem". Depois se viu que não poderiam ser usados para isso, mas, sim, para capitalizar os bancos ou para coisas mais complexas.

A grande lição de tudo isso, conclui Wessel, é que nem o presidente da República nem ninguém pode emitir moeda para financiar uma guerra externa. Mas um poderoso e autônomo banco central, como o Fed, tem.

Assim, sob o mantra "o que for preciso", Bernanke trabalhou como bombeiro que não olha demais para o estrago nas louças e na prataria. Mas salvou o sistema, pelo menos por enquanto, e cumpriu a suprema lex.

Pelo que se soube depois, a crise continua, agora metamorfoseada em crise fiscal dos países de alta renda. Mas o livro para em dezembro de 2009. Como nos filmes, abre-se enorme espaço agora para Bastidores-2, Bastidores-3...

CLÁSSICO

Lançado em 1955, 1929: A Grande Crise, de John K. Galbraith, é considerado marco da literatura sobre economia no século 20 e ganha nova tradução para o português (Larousse, 189 págs., R$ 29). A edição tem introdução de James Galbraith, filho do autor, que analisa a crise de 2008.

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