LAÇOS HERMANOS

Documentário do Discovery sobre ditaduras militares recria diferentes cidades em cenas gravadas nas ruas de São Paulo

JOÃO FERNANDO, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2013 | 02h13

Deixar São Paulo parecida com Washington, Roma, Buenos Aires e outras capitais foi um dos desafios da equipe de A Rede Condor, novo docudrama do Discovery produzido pela Mixer, que vai ao ar hoje, às 21h30. Rodado em espanhol, mas feito por um time de profissionais brasileiros, o programa fala sobre a Operação Condor - aliança entre as ditaduras militares da América Latina, iniciada nos anos 1970, para reprimir os opositores dos regimes - com depoimentos de vítimas e de historiadores, além de dramatizações.

As cenas de ficção que retratam ações dos militares em diferentes países foram inteiramente gravadas na capital paulista, como, por exemplo, o atentado contra o ex-chanceler chileno Orlando Letelier, morto após um atentado em Washington, em 1976. "Usamos imagens próximas (dos rostos) com o fundo desfocado e misturamos com imagens de arquivo. É uma estrutura de cinema", explica o diretor-geral Rodrigo Astiz, que rodou no Largo do Arouche a sequência em que um militante argentino, que na realidade foi atacado em Roma, é baleado.

A Rede Condor mostra como os governos militares se alinharam para expandir as ditaduras e como o Brasil ajudou a encontrar e eliminar os dissidentes dos países vizinhos por meio do serviço de inteligência. "Era um tema que queríamos explorar. É um ângulo diferente do como tudo foi articulado, como os atentados, por exemplo", conta Irune Ariztoy, supervisora de produção da Discovery Networks na América Latina.

Entre os relatos de historiadores norte-americanos e latinos há simulações dos encontros dos generais. "É um documentário em que você leva o público para dentro da história e ele percebe essa transição", analisa Daniel Billio, diretor da atração. Os depoimentos e documentos da época serviram como material para a parte ficcional. "Fizemos os diálogos baseados nas atas das reuniões", conta Astiz, que, além de coordenar o projeto, interpretou um general uruguaio. "Como tinha o conteúdo na cabeça, dei o texto. Como conhecia a história, fui para dar mais veracidade. Assim, sobrou dinheiro para contratar outros."

Nascido no Uruguai, o diretor-geral não precisou de dublagem. A questão do idioma original do programa, porém, deu trabalho à produção. "A primeira tentativa foi de encontrar atores dos outros países aqui no Brasil. Mas é difícil ter alguém que seja parecido com os personagens reais. Trabalhamos com atores brasileiros e dublamos com o sotaque de cada país", diz Astiz.

Além dos relatos dos entrevistados, um time de pesquisadores trabalhou no projeto até a fase da edição para colher informações sobre as ações contra militantes de esquerda, que surpreenderam a equipe. "Essa rede era sofisticada, não havia nada parecido na época. Alguns chamam de primeira guerra ao terror, muito antes das torres gêmeas", compara Rodrigo Astiz.

Entre os convidados do programa está João Vicente Goulart, filho do ex-presidente João Goulart, que deixou o poder no golpe militar de 1964. A morte do político, em 1976, é abordada no documentário, pois a causa ainda não foi esclarecida. O herdeiro de Jango afirma que ainda se incomoda um pouco em falar sobre o assunto. "É doloroso, mas o mais doloroso é não ter a verdade. Espero que ele tenha morrido de causas naturais", disse ao Estado. João Vicente também entregou documentos à produção da atração. "É importante mostrar aos outros países para que não se repitam essas histórias."

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