LAÇOS CONTRA A GUERRA

Em dois movimentos, espetáculo de Nelson Baskerville articula dias de hoje e conflitos do passado

O Estado de S.Paulo

07 de março de 2013 | 02h14

Um depoimento de um ítalo-brasileiro sobre a 2ª Guerra: "Eu tinha dois anos quando tudo começou, e seis quando Roma sofreu o primeiro bombardeio. Testemunhei o pavor de meu irmão (aos 10 anos), que suava de terror ao ouvir os assovios das bombas caindo e os estrondos das detonações. O bairro atingido foi o de San Lorenzo, não muito distante do nosso. No dia seguinte, eu e ele fomos ver o resultado do bombardeio e lembro-me de um prédio cuja metade desmoronara, deixando à vista um apartamento com um piano e cortinas esvoaçando".

A imagem do edifício partido ao meio, o piano, a cortina e o medo das bombas continua intacta na lembrança do adulto que vive no Brasil desde os 14 anos. A cena poderia estar em As Estrelas Cadentes do meu Céu São Feitas de Bombas do Inimigo, espetáculo de Nelson Baskerville para a Cia Provisório-Definitivo. Criada a partir do Diário de Anne Frank e, sobretudo de Diários da Guerra - Vozes Roubadas, de Ziata Filipovic (nascida na Bósnia e que viveu o fim sangrento Iugoslávia) e da poetisa inglesa Melanie Challenger, a peça é um trabalho de dramaturgia do diretor em parceria com os interpretes Carlos Baldim, Paula Arruda, Pedro Guilherme e Thais Medeiros. Resultou em um enredo de tantas brutalidades marcadas de forma indelével na memória infantil. Meninos e meninas que sobreviveram para contar atos dos adultos, aprendendo do dia para a noite como escapar ao inominável (fuzilamentos, torturas, estupros, roubos, chacinas de famílias inteiras incluindo mulheres e idosos). Ziata e Anne Frank atingiram a idade da razão em meio à barbárie. A garota Ziata tinha 12 anos e escapou enquanto a holandesa judia Anne morreu aos 15 anos no campo de concentração de Bergen-Belsen, Alemanha.

Há tantos documentos sobre a guerra que é difícil contornar a reiteração, o lamento sem saída para se chegar à transcendência. Estabelecer conexões com o que continua a ocorrer agora mesmo em termos de morticínios. A peça trabalha em dois movimentos, o primeiro, ideia brilhante, cria um ambiente cênico não realista, uma fantasmagoria visual em que pessoas, robôs, manequins, enfim, os vivos e os mortos se igualam. Cada interpretação é minuciosamente construída debaixo de máscaras de tinta, barro ou fuligem. A cara que está na trincheiras ou nos subterrâneos de uma cidade ocupada pelo inimigo, como no impressionante filme Kanal, de Andrzej Wajda, ambientado nos esgotos da Varsóvia tomada pelos nazistas. O segundo flagra o Brasil das periferias onde tráfico, adolescência transgressora, balas perdidas e arbitrariedade policial se juntam em um retrato desolador. É, no entanto, uma opção já facilitada pelo noticiário contínuo sobre o que se passa nas favelas e nos confins das metrópoles. A espetacularização da morte na TV. O país tem outras milhares de crianças vitimadas em guerras anônimas, das menores de idade que se prostituem nas beiras das rodovias ao trabalho infernal nas olarias da Amazônia.

A encenação não tem respostas além de constatar que tudo nasce da ambição. O que se vê é a dramatização "da guerra de todos contra todos" segundo o filósofo Thomas Hobbes em Leviatã. Será sempre necessário ter o palco como ponto de interrogação diante de duas guerras mundiais, a do Vietnã e as do Oriente Médio e da África.

Em toda parte está o mecanismo que começa na busca do lucro e termina no assassinato por um tênis. Baskerville e companheiros recusam a falsa piedade (há uma sequência desmistificadora de crianças retiradas da guerra, mas adotadas com frieza na Inglaterra). Estrelas Cadentes mostra ao público que, no entanto, os bebês continuam sendo feitos. Talvez a humanidade não passe disso: infância desfeita, a casa em ruínas e seu piano inútil que o menino romano-brasileiro viu. A realização da Cia Provisório - e seus interpretes impecáveis - concretiza em arte um a recomendação de Sigmund Freud: qualquer coisa que encoraje o crescimento de laços emocionais tem que servir contra as guerras.

Crítica: Jefferson Del Rios

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