Labirintos do desenho

Museu de Arte Moderna de NY exibe trabalhos do americano Richard Serra

Tonica Chagas, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

NOVA YORK

Circular pelas monumentais esculturas de aço do americano Richard Serra transforma o espectador na Alice de Lewis Carroll quando ela toma o conteúdo de uma garrafinha e encolhe. A sensação é a mesma diante dos desenhos em Richard Serra Drawing: A Retrospective, que o Metropolitan Museum, em Nova York, exibe até dia 28.

Criadas sobre papel, tecido e às vezes também sobre metal, as formas geométricas imensas - que, afora só uma, são todas pretas - chegam a tomar paredes do chão ao teto e se expandem por até seis metros de largura. Os desenhos de Serra são formas sólidas, têm peso e gravidade semelhantes à voragem metálica das esculturas dele.

Nos 45 anos da carreira do artista, esta é a primeira panorâmica sobre seus desenhos exibida por um museu. Já no projeto de sua última ampliação, pronta em 2004, o Museum of Modern Art (MoMA) de Nova York levou em consideração transformações físicas para abrigar obras de Serra que foram exibidas, em 2007, na retrospectiva Richard Serra Sculpture: Forty Years. Agora, o tradicional Met também cedeu à força e escala do escultor de espaços para exibir as cerca de 40 obras que compõem esta exposição. Se as esculturas de Serra têm escala concebida para se relacionarem com o lugar onde são instaladas, em Richard Serra Drawing o lugar foi adaptado para integrar-se às obras. Para começar, a fim de acomodá-las, foi retirado o rodapé das galerias que, para o visitante frequente, também parecem ter mudado de tamanho.

O próprio Serra, de 72 anos, passou três semanas no museu coordenando a instalação dos desenhos. Ele arquitetou uma instalação circular e contínua com a intenção de desafiar as coordenadas e embaralhar a sequência de salas na memória do espectador. Com cheiro de tinta fresca (porque algumas peças antigas foram refeitas para a exposição), salas retangulares e quadradas por vezes se cruzam em passagens circulares num labirinto gráfico pontuado por círculos, losangos, triângulos, trapézios ou formas mais abstratas, todos pretos. Mais que estímulo visual, os desenhos provocam experiência física.

No desenho, o fascínio de Serra com o espaço e suas mutações é anterior ao que ele propõe com o metal. Aos poucos, suas investigações minimalistas sobre papel foram aumentando de tamanho e se desenvolvendo em obras autônomas com diversas referências. Em Heir, de 1973, ele olhava para a pintura abstrata do início do século 20, especialmente para o construtivista russo Kasimir Malevich. "Por um breve momento naquela época pensei que era uma extensão daquela história, uma espécie de herdeiro", diz ele.

Desenhar é tão independente quanto ligado à prática de escultor de Serra. Muitas vezes é consequência de um objeto tridimensional e não o esboço dele. As 18 folhas de Drawings After Circuit, por exemplo, que formam o único trabalho em cor incluído na exposição, são um mapeamento visual de Circuit, escultura que ele fez para a 5ª Documenta de Kassel, em 1972. No audioguia da retrospectiva, Serra explica: "Foi um exercício para mim, gravando o que eu via enquanto me movimentava 360 graus na periferia da sala, olhando as aberturas entre as quatro placas da escultura". Os desenhos são um diagrama de abertura e fechamento das placas conforme ele andava pela sala.

Entende-se que material de desenho geralmente envolve um meio, como grafite ou carvão, e um suporte, normalmente papel. Com eles, o artista faz uma imagem sobre algo. Serra começou a mudar isso de meados para o fim da década de 1970. Em Pacific Judson Murphy, de 1978, e outros trabalhos desse período, ele afixava linho belga ou tela diretamente na parede e saturava toda a superfície com paintstick, uma mistura de pigmento, óleo e cera em forma de bastões. Derretendo esses bastões e moldando-os em blocos do tamanho de tijolo, a textura dos desenhos foi gradualmente se intensificando.

Uma série de dípticos enormes como No Mandatory Patriotism e The United States Government Destroys Art, produzidos em 1989, remetem a uma das maiores polêmicas provocadas por uma escultura dele. Tilted Arc foi criada em 1981 por encomenda do governo americano e instalada na frente do edifício Federal Plaza, no sul de Manhattan. Mas causou tanta briga a respeito de critérios sobre arte pública que o próprio governo a desmontou e retirou de lá. Os desenhos foram a forma de Serra reagir ao ultraje.

A partir de meados da década de 1990, ele passou a dissolver o paintstick até que pudesse despejá-lo sobre uma superfície e trabalhar nela usando ferramentas de aço. Séries como Deadweights, Weight and Measure e Rounds foram criadas dessa forma, semelhante à monotipia. Nos desenhos mais recentes, o acúmulo de camadas é ainda mais denso. Na série out-of-round" (expressão que significa, mais ou menos, não totalmente redondo), o compressor é o próprio artista, pressionando os pedaços de paintstick com seus braços, ombros ou até pisando neles.

Além dos desenhos, a retrospectiva exibe quatro filmes feitos por ele, em 1968, que tratam do movimento das mãos na criação de suas obras naquela época, e também alguns de seus cadernos de desenhos, vistos em público pela primeira vez. "Eles representam minha prática diária de coordenação entre mão e olho", conta Serra. Richard Serra Drawing: A Retrospective vai ser exibida ainda este ano na Califórnia, pelo San Francisco Museum of Modern Art e, no Texas no primeiro semestre do ano que vem, pela Menil Collection.

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