Labirinto engenhoso de road to NOWHERE

Filme de Monte Hellman está na disputa que termina hoje

Luiz Zanin Oricchio / VENEZA, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2010 | 00h00

Dificilmente os últimos três filmes exibidos no festival que termina hoje à noite mudam o panorama da premiação, mas nunca se sabe. São eles: Road to Nowhere, do americano Monte Hellman, Drei, do alemão Tom Tykwer, e Barney"s Version, do canadense Richard J. Lewis. Deles, o mais autoral é o de Hellman, que volta à direção depois de 22 anos ausente.

Um jovem diretor é convencido a fazer um filme sobre um caso criminal real e vê-se em meio a um jogo de espelhos em que representação remete para o real e vice-versa. É engenhoso embora o recurso ao metafilme (o filme dentro do filme) às vezes pareça um tanto abusivo. Cheio de referências (inclusive a Hitchcock), Road to Nowhere coloca o espectador num labirinto. Qualidade à parte, deve-se recordar que Monte Hellman foi o produtor que lançou o jovem Tarantino, hoje consagrado e presidente do júri em Veneza.

Drei mostra Tom Tykwer em seu estilo preciso, às vezes pensado demais. É conhecido aqui em Veneza desde que apresentou seu Corra, Lola, Corra, em 1998. Aqui é a história de um triângulo amoroso, cheio de simetrias, pois os dois homens transam com a mesma mulher e, entre si, mantêm algo mais que uma bela amizade. Não deixa de ser libertário, mas talvez muito limpinho e artificial acaba por se esterilizar.

Já Barney"s Version, de Richard J. Lewis, é cinema comercial de qualidade, com a grife Paul Giamatti, ator indie por definição. Ele é Barney Panofsky, que enfrenta uma acusação de homicídio e vê sua vida passar em flashback. Dustin Hoffman, como pai de Barney e policial aposentado dá show com seu personagem meio cafajeste e engraçado. Feito em tom satírico e auto-irônico, Barney"s Version desaba depois para uma feitura melodramática próxima do piegas. A mudança de registro não lhe faz bem. É um bom programa. Aquela atração de qualidade para o sábado à noite, papo com amigos, comer uma pizza depois etc. A pergunta que não pode calar é: o que faz na competição de um festival como Veneza, do qual se espera aquele algo mais do cinema?

Desse modo, se não houver grande surpresa, o Leão de Ouro deverá ficar entre alguns dos favoritos apontados até agora: o russo Ovsyanki, o chileno Post Mortem, o chinês Detective Dee - este tido como aquele que pode conciliar exigências "artísticas" de alguns jurados e o gosto pessoal do presidente do júri. Há quem fale em outro chinês, La Fossé, pela importância da sua denúncia política na China dos anos 1960. É o que estaria mais próximo de uma unanimidade da crítica, diz a Variety.

Já Detective Dee aparece como favorito do público, na votação online. Os italianos participantes (La Pecora Nera, La Passione, Noi Credevamo e La Solitudine dei Numeri Primi) devem passar longe do Leão e beliscar talvez um ou outro prêmio secundário. A Itália não vence o seu festival desde 1998, quando Gianni Amelio ganhou como Cosí Ridevano.

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