Lá vem o eterno retorno do desejo de liberdade

Um dos fundadores do Teatro Oficina, o diretor José Celso Martinez Corrêa diz que o mundo entrou num novo período depois da exaustão do neoliberalismo

Francisco Quinteiro Pires,

10 de maio de 2008 | 14h23

A roda-viva da história está completando mais um ciclo. Depois do regresso à ordem e do domínio do neoliberalismo, a volta do ideário de libertação e sonho de 1968 está em consumação. O eterno retorno, de que falava Friedrich Nietzsche. Essa é a opinião do diretor José Celso Martinez Corrêa, um dos fundadores do Teatro Oficina há 50 anos, que revolucionou a cena teatral brasileira nos anos 1960 com as peças O Rei da Vela (1967) e Roda Viva (1968). "A restauração depois de 68 provocou a guerra, o racismo, os monoteísmos", afirma. A globalização entrou pelo cano, ele diz, e o império norte-americano mostrou-se frágil com os fracassos no conflito contra o Iraque. Índia e China emergiram. "É uma época muito louca, quem podia imaginar que Evo Morales, um índio, podia chegar ao poder?" Diante desse vácuo, surgem as revoluções tecnológicas, capitaneadas pela internet - "o mundo cyber" -, e a efervescência cultural das periferias das grandes cidades. Essa movimentação apresenta um desafio à vida escravizada de "pessoas que moram longe dos centros, onde trabalham depois de enfrentar o trânsito". "Podemos dizer que começamos a viver uma época pós-neoliberal." Zé Celso proclama o fim das ideologias, até a capitalista, tanto mais utópica quanto mais crente de que "vai resolver tudo com o dinheiro". Maio de 68 trouxe o desejo à luz do dia. O amor tinha a necessidade de ser livre. Era o aqui e agora. Para Zé Celso, a cultura vem da libido, da procura instintiva do prazer sexual, que é a energia vital, segundo as teorias de Freud. O corpo será o meio pelo qual o homem se libertará e realizará toda a sua potência. "O ser humano não é só cidadão ou consumidor." E foi pensando nessa libido, no deus grego Dioniso, no diretor polonês Jerzy Grotowski e no teatrólogo francês Antonin Artaud que Zé Celso entrou de vez no espírito de 68 com Roda Viva, escrita por Chico Buarque de Holanda e montada depois da tropicalista encenação de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, feita em 1967. Segundo ele, a montagem da peça de Oswald era maio de 68. "No Brasil, 1968 começou um ano antes com a tropicália, um dos movimentos culturais mais importantes, e não só na música", ele diz. "A revolução na cultura nacional se polarizou no teatro." Zé Celso levou O Rei da Vela para o Festival de Nancy, na França. Com a repercussão, recebeu convite para encená-la em Paris no mês fatídico. Quando a peça estreou, Zé Celso estava com os olhos vendados, depois de ser atingido por uma bomba lançada pela polícia francesa, que reprimia os manifestos estudantis.  Além de um deus ligado à fecundidade animal e vegetal, Dioniso é associado à noção dos ciclos (nascimento, morte e renascimento). Essa percepção se mistura com a visão histórica e a biografia de Zé Celso, cuja decadência e ocaso foram proclamados mais de uma vez.  Com Grotowski, Zé Celso aprendeu a centrar a peça no trabalho do ator. O teatro podia ocorrer em espaços menores, nos quais ator e espectador se tornavam participantes da criação. Artaud desafiava a racionalidade burguesa com o Teatro da Crueldade, que pretendia uma insurreição física. O radicalismo passava pelo corpo. A sua liberação e domínio eram de suma importância, coisa evidenciada pela experiência de Artaud num manicômio francês, onde teve o corpo dopado e torturado. "68 mostrou a percepção de que existe um corpo coletivo, além do individual", diz Zé Celso. Roda Vida conta a história de um músico - Benedito Silva - transformado em ídolo pela indústria cultural, que depois o massacraria. Com ela, Zé Celso provocou o espectador a sair do conforto da cadeira e tomar uma posição diante da realidade brasileira. Era fundamental matar o pequeno-burguês que havia nos jovens para abrir espaço à ascensão do revolucionário. Roda Viva estreou no Teatro Princesa Isabel, no Rio, em janeiro de 1968. Um coro que se misturava à platéia fazia a encenação ser radical: ele representava a anarquia e a irracionalidade. Zé Celso investia contra o "tabu do toque físico". Não era mais proibido interagir com a platéia, que saía da comodidade do palco italiano, em cima do qual os atores se mantinham a uma distância segura dos espectadores.  Segundo seus críticos, Zé Celso impunha a humilhação, por meio de um assédio físico, de fundo fascista, aos espectadores despreparados. Envolvido até a medula com as idéias libertárias de 68, Zé Celso era o diretor realista, porque exigia o impossível nos projetos do Teatro Oficina, cujo objetivo é mexer nos tabus e bodes sociais (no que continua a cheirar mal, apesar dos narizes tapados). A ninguém era permitido duvidar que, naquele momento, era proibido proibir. Mas, ao ser realista, Zé Celso teve de lidar com a repressão. Quando a peça veio para São Paulo, membros do Comando de Caça aos Comunistas destruíram o teatro Ruth Escobar, em julho de 68, onde Roda Viva era apresentada, e espancaram os atores, entre eles Marília Pêra. Em 13 de dezembro, no dia da instauração do Ato Institucional nº 5, Zé Celso ensaiava Galileu Galilei, de Bertolt Brecht. Mais uma vez, apareceu o coro, formado por atores com 20 e poucos anos, geração que seria "trucidada" pela repressão militar, segundo o diretor. O coro protagonizava cenas anárquicas e sensuais, durante as quais se falava das idéias de Galileu, em contraste com outras passagens - mais racionais - da peça. Censores apareceram para impedir o avanço desses jovens na platéia. Era permitido proibir. A violência contra Roda Viva e Galileu Galilei mostrou ao diretor do Teatro Oficina que se iniciava um longo período de trevas. A solução à vista era o exílio.

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