Lá vem Gil: "Agora tenho muito o que dizer"

Na sala de espera do Ministério da Cultura, uma gigantesca tela de Manabu Mabe, de 1993, emoldura a cabeça do estudante Wagner Silva, de 22 anos, de Aracaju, que veio até ali com a esperança de mostrar a letra de uma canção sua para o ministro-cantor, Tchau, Amor. Wagner não conseguiu, mas deu-se por satisfeito: não só viu Gil "de pertinho" como conseguiu um autógrafo daquele ator da TV, "como é mesmo o nome?". Era Sérgio Mamberti. A ante-sala do gabinete do ministro, no MinC, é agitada. Escritores querem conhecê-lo, ONGs querem propor parcerias, políticos querem propor emendas, cineastas clamam por verbas. Após nove meses à frente do ministério, Gilberto Gil recebeu o Estado, na quinta-feira, para uma conversa mais longa, mais aprofundada, sobre temas para os quais - afirma - já tem soluções. "Em janeiro, eu ainda não podia falar, ainda não tinha o que dizer, mas agora tenho." E ele disse. "Música ruim também é cultura", afirmou, sobre a postura que acredita que o MinC deve ter frente à cultura popular, mesmo a de massa, as "Egüinhas Pocotós" da cultura brasileira. Disse que a pirataria na indústria musical "não é caso de polícia" e anunciou que vai dispor suas canções gratuitamente na internet, nos próximos dias. "A pirataria gera desemprego formal por um lado e emprego informal por outro. Não é só law enforcement (constrangimento legal), mais lei, mais polícia. É uma questão cultural também, profunda, importante", afirmou. Desembarcado como um "corpo estranho" no governo, Gil considera que foi finalmente aceito na seara petista. Cita como aliados políticos o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, "que tem demonstrado muita proximidade com as questões culturais"; o ministro da Fazenda, Antonio Palocci; e, especialmente, o presidente Lula, com quem tinha acabado de despachar no Planalto, antes de receber a reportagem. "O presidente é sensível à questão e a posição do governo é que a cultura deve ser tratada de maneira especial, diferentemente, e que não deve ser atingida pelo mecanismo da reforma tributária", afirmou o ministro. Construção de 20 Centros de CulturaNa entrevista, Gilberto Gil adiantou alguns novos projetos do governo. O mais premente será a construção de 20 Centros de Cultura em diversas cidades brasileiras, com projeto arquitetônico de João Filgueiras Lima, o Lelé, a um custo de R$ 20 milhões na fase inicial. Ele também empenhou sua palavra no sentido de garantir a estabilidade da produção cinematográfica de longas-metragens em 2004. Produtores e cineastas demonstraram preocupação com o cenário para 2004, face à paralisação de editais em estatais importantes, como Petrobrás e BR-Distribuidora. "Tem uma chiadeira aí que não é justa, que não é verdadeira. Estão sendo feitos muitos filmes", afirmou. "O problema é que no fim do ano passado eles adiantaram recursos e liberaram, antes de sair, as verbas deste ano." Para resolver o problema, ele anunciou que a Petrobras vai suplementar "extraordinariamente" o cinema, com um edital de longas-metragens até dezembro, para que a produção do ano que vem não caia. "Não a Petrobrás sozinha. O governo vai aportar recursos para pelo menos 10 a 15 filmes para manter o cinema no ano que vem. A questão era garantir os próximos anos, garantir a demanda de produção cinematográfica. Mas a produção não parou, isso não é verdade." Leia a íntegra da entrevista no Estado

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