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Lá vem bola

O time de peladeiros tinha como estrela máxima o ídolo botafoguense Heleno de Freitas

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

05 Janeiro 2019 | 02h00

A gente as chamava de peladas ou rachas. Pelada a gente fazia; racha a gente botava. Bola a gente batia. Sutilezas do futebolês. “Vamos fazer uma pelada?”, “vamos botar um racha?”. O objetivo era o mesmo: bater uma bolinha. Onde desse. Na calçada, no meio da rua, em campinhos de terra batida ou, que luxo!, em gramados carecas. E ainda havia a fofa areia da praia, onde, porém, por exigir fôlego redobrado, nem quando garoto joguei.

Por que levanto a bola do futebol informal e vadio, que até hoje chamam, ainda sem malícia, de pelada ou racha? 

Porque nos últimos dias do ano, com peladas pululando pelo País afora, o ex-craque botafoguense Paulo César Caju, em sua coluna semanal em O Globo, relembrou as que viu e jogou nas praias da zona sul carioca, e também porque eu queria retomar o papo da coluna anterior, sobre Sérgio Porto, Di Cavalcanti e outros peladeiros do mesmo naipe.

Se me permitem, as minhas peladas primeiro. 

Em Santa Teresa, bairro carioca onde nasci e me criei, jogar em superfícies sem declive não era o default, longe disso. Suas ladeiras favoreciam, e como!, as carretas de rolimã. A cancha mais plana à disposição da minha turma era o cul-de-sac da rua Murtinho Nobre, defronte o atual Parque das Ruínas e o Museu da Chácara do Céu. O mítico palacete de Laurinda Santos Lobo já estava abandonado, mas a garbosa vivenda do empresário, colecionador e mecenas Raymundo de Castro Maia ainda era apenas uma moradia, com o dono dentro.

Pontos de fuga sabáticos e dominicais: o campinho de terra batida do Colégio São Bento (onde meus primos estudavam); a várzea na qual a Cidade Universitária brotou na ilha do Fundão (minha lusitana tia Rosa lá montara a cantina que alimentou os primeiros operários do projeto); o concorrido terreno baldio do Papito, na confluências das ruas Alan Kardec e 24 de Maio, no Engenho Novo, perto do meu Colégio Pedro II; a arena gramada da Escola Naval, palco da briosa equipe da revista Fatos & Fotos no final dos anos 1960, com Leo Schlafman na zaga e Paulo Perdigão e Hedyl Valle Junior dividindo a ofensiva com este outrora afoito ponta de lança que ora vos distrai. E que, a partir do próximo parágrafo, muda de personagens, arena e época.

Conforme ia dizendo na coluna passada, nas areias do Posto 4 de Copacabana, Sérgio Porto, vulgo “Bolão”, foi, durante algum tempo, o goleiro do Lá Vai Bola, time de peladeiros que fez história no bairro graças à sua estrela máxima, o ídolo botafoguense Heleno de Freitas, e a dois futuros jornalistas, João Saldanha e Sandro Moreira, que, com a bola nos pés, não exibiam a mesma destreza de Pirica e, muito menos, de Bacalhau. Tido como um dos maiores craques do futebol de praia, Bacalhau morreu trágica e precocemente depois de um treino.

Inclusive porque pouco sei da trajetória do Lá Vai Bola, passo direto para o maior clássico do futebol de areia, sem a participação dos pupilos de Neném Prancha e seus habituais adversários, o Dínamo, o Maravilha, o Leme.

Foi a mais famosa pelada da categoria, confrontando vários intelectuais batutas de Copacabana e Ipanema, em dezembro de 1945. A guerra chegara ao fim, o Estado Novo só esperava a extrema-unção, quando então o poeta-empresário Augusto Frederico Schmidt, cartola do Botafogo e autor de um livro que, apesar do título, Estrela Solitária, não era uma ode ao clube de General Severiano, meio que organizou o histórico prélio entre os amigos dos seus domínios (Copacabana) e os de Ipanema. 

Schmidt morava no 10.º andar do edifício Alcazar, na Avenida Atlântica, em cuja base o bar Alcazar atraía poetas, pintores, jornalistas e prostitutas em profusão. Ele, além de empresariar a pelada, era o dono da bola, “branca e virgem”, na lembrança do cronista e também poeta Paulo Mendes Campos, autor do único registro da contenda que conheço e um dos atacantes da equipe de Copacabana. 

Deu-se o duelo às dez horas da manhã, em campo neutro: as areias do Leblon. Em vez de balizas, camisas coloridas demarcavam os limites do gol. 

Além de Schmidt e Paulinho, a equipe de Copacabana contava com Di Cavalcanti, Rubem Braga, Fernando Sabino (“campeão de natação, mas perna de pau em futebol”, na avaliação de Paulinho), o escritor Orígenes Lessa (presumo que seu filho, Ivan, então com 10 anos, tenha assistido ao jogo), Newton Freitas (adido cultural do Brasil em seis países, perseguido pelo Estado Novo), o jornalista Moacir Werneck de Castro e o escultor José Pedrosa.

A de Ipanema alinhava com Anibal Machado, o diplomata Lauro Escorel (pai de Eduardo e Lauro), Vinicius de Moraes, Carlos Echenique (compadre de Vinicius), Carlos Thiré (desenhista e cenógrafo, marido de Tônia Carrero) “e um médico também calvo e de óculos, que entrou de contrabando e foi o melhor da partida”. 

A torcida, composta de senhoras e senhoritas, em vez de chupar picolé, devorava melancias. 

Ao iniciar a partida, o centroavante Schmidt tentou uma firula, furou a bola parada e caiu de bunda na areia. Com dois minutos de bola rolando, o vigoroso Vinicius, “também conhecido como Menisco de Moraes”, contundiu-se “e saiu capengando, para a companhia das damas” – e do uísque. Rubem, por sua vez, deu uma traulitada no médico, que a todos encabulou. Para Di, esfuziante e marrento arqueiro, “qualquer bola que passava era alta, acima do inexistente travessão”.

Placar final: Copacabana 3 x 1. Segundo Paulinho, uma vitória de Pirro, pois, enamorados da “graça mais viçosa de Ipanema”, escritores e poetas começaram a desquitar-se da princesinha do mar.

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