Lá no meu pé de serra

A saudade de seu povo fez o sanfoneiro comprar terras no Rio para criar uma embaixada de Exu

BOLÍVAR TORRES, ENVIADO ESPECIAL / RIO, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2012 | 02h10

A cerca de 40 km do Rio de Janeiro, num pacato bairro de Duque de Caxias, Baixada Fluminense, um conjunto de casas simples guarda uma parte pouco conhecida da história de Luiz Gonzaga. O lugar pode não dizer muito sobre o Gonzagão músico e compositor, mas é uma das chaves para entender o Gonzagão humano, seu amor à família e ao Nordeste.

É nesse terreno comprado de Ataulfo Alves, em 1956, que o Rei do Baião decidiu instalar sua mãe e suas quatro irmãs quando as trouxe de Exu. Ainda hoje conhecido pelos moradores da redondeza como o "Sítio dos Gonzagas", serviu para que mantivesse parte da família por perto (a outra parte do clã, a dos filhos adotivos e dos irmãos, fixou residência no Rio), mas também como uma espécie de refúgio, onde podia reencontrar as tradições de sua terra natal organizando festas, casamentos, novenas e batizados.

"Para ele, isto aqui era um pedacinho do Nordeste", resume Ana Lídia Maciel, sobrinha de Luiz e filha de Raimunda Januário, segunda irmã do compositor. "Tanto que chamava o sítio de 'Exuzinho da Baixada'. Mas o mais importante era reunir a família em um mesmo lugar, para que pudesse visitar todo mundo ao mesmo tempo."

Já consagrado na década de 1950, o autor de Asa Branca havia transformado o sonho do Sul Maravilha em realidade, tendo ganhado dinheiro suficiente para construir cinco casas no terreno. A da mãe instalada no meio, as das quatro irmãs ao redor. Ana Lídia lembra que, antigamente, as moradias ficavam tão juntas que era possível "chegar por uma casa e sair por outra". Hoje estão separadas, cercadas por muros; com sua vegetação espremida pelo concreto, o lugar se assemelha mais a um condomínio do que a um sítio. Ana Lídia faz o que pode para manter viva a memória de Gonzaga, cultivando um rico acervo fotográfico e muita história.

"Nós conhecemos mais o Gonzaga 'tio' do que o Gonzaga 'artista'", diz a sobrinha. "Até porque havia tanto urubu em volta do 'artista' que nunca conseguimos chegar perto dele. Tio Gonzaga se preocupava demais com as irmãs. Era um homem muito tradicional, estilo quartel mesmo. Quando éramos pequenos, tínhamos tanto medo que nos escondíamos assim que ele chegava."

No sítio, o Rei do Baião controlava as mulheres da família com mãos de ferro. Até a escolha do nome dos sobrinhos passava por ele. Certa vez, tentou organizar nove casamentos ao mesmo tempo (mas conseguiu que fossem realizados "apenas" três). As festas eram embaladas por forró, baião de dois, carne de sol, buchada - todo um caldeirão de tradições nordestinas.

"Tinha muita festa, muito forró", lembra o compositor Sergio Gonzaga, filho de Chiquinha, que passou boa parte da infância e juventude no sítio, mas mora atualmente em João Pessoa. "Bastava ele chegar para que os músicos aparecessem. Às vezes chegavam de 20 a 30 sanfoneiros. Era uma briga para tocar."

Houve oportunidades em que o próprio Gonzaga se encarregou de trazer convidados ilustres.

"Em 1975, ele chegou com um sujeito jovem de cabelão enorme", lembra Sergio. "Sabia que eu conhecia ele de algum lugar. Até que alguém descobriu: 'É o Gilberto Gil!' Ele ficou aqui alguns dias, comeu baião de dois e chegou até a capinar com o Gonzaga."

Sergio e Joquinha (filho de Raimunda Januário) foram os únicos sobrinhos nascidos no sítio a seguir carreira musical. Nos anos 1970, ambos montaram Os Novos Gonzagas, inspirados no sucesso dos Novos Baianos, com Joquinha na sanfona e Sergio na guitarra. Formar herdeiros musicais com os familiares da Baixada era uma das principais preocupações de Gonzagão. Como Chiquinha era a única a cantar e tocar entre as mulheres, voltou-se para os sobrinhos.

"Eu fui o primeiro a ganhar uma sanfona", recorda Joquinha, que hoje mora em Pernambuco. "Ele me ensinou o básico e sempre acompanhou o meu aprendizado. Depois, cheguei a fazer turnês com o meu tio, inclusive em Portugal. Gravei nos discos dele e ele gravou nos meus discos. Nos shows, Gonzaga me apresentava como seu substituto, seguidor dele por parte da família Januário."

Apesar das histórias que carrega, o Sítio dos Gonzagas guarda poucas relíquias do compositor. Nada além de uma placa Rua Zé Gonzaga (irmão de Luiz) pendurada na parede e algumas panelas antigas em que se preparavam as comidas nordestinas. Ana Lídia é a única a manter uma antiga tradição da família, a novena das três ave-marias, trazida de Exu pela avó.

"A gente faz esperando que os outros continuem, mas está cada vez mais difícil", admite Ana Lídia. "Antigamente, nem precisávamos lembrar todos os parentes da tradição e, no último dia, sempre terminávamos com forró. Mas a novena só vingou enquanto os irmãos estavam vivos."

Olhando o sítio atualmente, é difícil imaginar as cenas de festa do passado. Cartazes de diversos candidatos à prefeitura deste ano poluem a entrada do terreno ("Como era amiga de todos, deixei que colocassem para não dar problema", brinca Ana Lídia), enquanto a imagem de Gonzaga só aparece nos velhos álbuns de fotografia. Ana Lídia não sabe o que será do futuro, mas tem consciência de que o lugar representa "a simplicidade e generosidade" do seu tio. Ela nos mostra o quarto ocupado pelo compositor na última fase da sua vida. Foi a época em que ele mais compareceu ao "Exuzinho da Baixada". "Quando meu tio ficou doente, as coisas do apartamento dele no Rio já estavam sendo mudadas para o Recife. E então ele acabou ficando muito tempo no sítio. Era uma pessoa muito simples e aqui ele encontrava essa simplicidade", resume a sobrinha.

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