''Lá fora, nos reconheceram primeiro''

Encontros com o Estadão[br][br]Sucesso internacional, os irmãos Campana contam sua história

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2010 | 00h00

Nove anos separam um irmão Campana do outro. Humberto, o mais velho, 57, quando pequeno queria mesmo ser índio. "Eu adorava objetos, arco e flecha, construía cabanas em árvores e quando tive que escolher uma profissão, errei", confessou o quase-advogado, em conversa com a coluna, na loja Firma Casa. Largou a faculdade de direito e, sem qualquer intenção ou foco, resolveu montar peças com conchas e vendê-las. No fim de 1983, com viagem marcada para Marrakesh - ufa, férias - descobriu, em pânico, que não iria conseguir entregá-las no Natal.

É aí que entra Fernando, o arquiteto. Recém-formado, em meio a um trabalho para a Bienal de São Paulo, recebeu telefonema de Humberto. "Acabei aceitando colar as conchas e montar as peças em troca de um convite para o show da Rita Lee. Eu sou seu fã incondicional", explica Fernando, rindo de quão barato se vendeu. E assim foi dado o pontapé inicial para a criação da marca Irmãos Campana.

Fernando é mais pragmático. Humberto, sonhador. Curiosamente, a parte prática dos trabalhos da dupla - expostos nos acervos do MoMA e do Pompidou - ficou mesmo para o arquiteto. O advogado só queria criar. "Estressei, não podia ver na frente fila de banco, fórum cível ou qualquer outra coisa desse tipo. Entrei em depressão, pensei até em me matar", exagera.

Ainda bem que não deu certo. Humberto e Fernando são reconhecidos internacionalmente pelo reaproveitamento de materiais em usos inesperados. Criam peças utilitárias, a maioria cadeiras, fruto de olhar particular, que inclui não só elementos reciclados como também formas improváveis. Natureza, lojas de ferragens, tecidos, farmácias, supermercados... Tudo é válido. A dupla não tem showroom ou loja. Os pedidos são recebidos em um pequeno escritórios, onde 12 pessoas fazem de tudo, além vender e licenciar peças protótipos.

No início, somaram anos de produção e nenhuma venda. "Quem nos descobriu no aqui no Brasil foi a Adriana Adam e a Maria Helena Estrada. Mesmo assim, levou tempo para que alguém comprasse uma peça nossa. O primeiro foi o Reinaldo Lourenço", conta Humberto. Foi somente depois da aposta da fabricante italiana Edra/Mazzei nos trabalhos dos irmãos que eles "explodiram". De cara, produziram e venderam 200 cadeiras feitas de um emaranhado de cordas vermelhas. Em sete anos de Brasil, a dupla persuadiu 20 pessoas a comprar a cadeira. Entre a criação e a venda de outra obra, a cadeira Favela, de madeira clara, passaram-se 13 anos.

Os brasileiros, no entanto, não têm acesso fácil ao que os irmãos produzem. Para chegar às lojas de São Paulo, do Rio ou de Salvador, as criações dos Campana cumprem trajetória nonsense: os protótipos vão para a Itália, são confeccionados e voltam para o Brasil. Pagando impostos altíssimos. Suas cadeiras e objetos custam entre R$ 1,7 mil e R$ 30 mil.

O fato é que a dupla só foi reconhecida aqui depois de fazer sucesso lá fora. O consumidor brasileiro ainda não tem um olhar atento para o design? "O empresário nacional quer menos risco, prefere se inspirar no que já está estabelecido e consagrado", diz Fernando. Não será por que as peças são caras? Não pensam em fazer algo mais cessível? "Toda vez que a gentea tenta isso, o púbico espera um produto mais elaborado e não consome. Fizemos algumas coisas para a Habitat e não foi adiante", emenda Humberto. A seguir, nuances dos irmãos Campana.

SP, Nova York ou Milão?

Humberto - Gosto de me dividir. O fim de semana é sempre em Brotas. E durante a semana, São Paulo ou outra cidade.

Fernando - Para mim, São Paulo. Pelo caos e pela modernidade.

Ar puro ou poluição?

F- Poluição. Eu adoro poluição.

H- Ar puro, verde. Não consigo passar o fim de semana em nenhuma cidade grande.

Mata ou concreto?

F- Replantio consciente. Fizemos isso em nosso sítio. Cedemos uma área para 15 mil árvores. Nosso pai era agrônomo e não deixava ninguém cortar árvores. Isso nos deu bagagem ecológica.

H- Mata. Esse código florestal promove o desmatamento, principalmente nas margens dos rios. Vai faltar água no futuro e esses políticos não conseguem enxergar isso. Adoro plantar, colocar a mão na terra. Fizemos o jardim de casa a quatro mãos.

Estética ou conforto?

H- Estética ligada ao conforto e à emoção. O design atual conta uma história. Vai além da forma, da função... É poesia. Pode até passar mensagem política. O design é como um filme com começo, meio e final na casa do consumidor.

F- É um equilíbrio muito frágil. Não pode ser só matemática, pois a poesia vai embora.

Talento vem do DNA?

H- Acredito que já nasci artista e não sabia. Demorei quase 30 anos para descobrir que eu era um criador.

F- Eu acho que vem de uma composição forte de inconformismo. Desejar ver sempre algo a mais.

Inverno ou Verão?

F- Verão, 200 graus.

H- Inverno. O frio me fornece energia mental, o calor me dá depressão.

Noite ou dia?

F- Dia.

H- Eu também adoro as manhãs. Acordo cedo e tenho muita insônia.

Carboidrato ou proteína?

F- Adoro o natural mas não dispenso um McDonald"s. A gente tem que se intoxicar de um pouco de tudo para viver um futuro melhor. Li no Times que se deve comer os frutos sem lavar. Se você é muito higiênico, fica fragilizado, sem defesa. Então, o equilíbrio é a melhor coisa.

H- Também concordo, mas eu tomo um pouco mais de cuidado porque estou ficando velho e começo a sentir alguns reflexos na saúde. Não posso mais beber uma noite inteira porque fico de ressaca até dois dias depois. Então estou prestando atenção nisso, o que inclui uma alimentação mais orgânica.

Ioga ou musculação?

H- Nenhum dos dois. Eu gosto de correr, andar na natureza, fazer trilhas.

F- O importante é fazer as coisas com prazer. Seja ioga ou musculação.

Forma ou conteúdo?

F- Em relação aos seres humanos? Conteúdo com certeza. Trinta anos tentando tirar poesia e beleza do que é banal. Adoro descobrir na feiura o que existe de essencial.

H- Conteúdo. Pessoas muito bonitas não me atraem, eu gosto da feiura, é mais humano. Os considerados normais me deixam mais relaxado. E consigo me relacionar melhor.

O que fariam se não fossem designers?

H- Eu seria jardineiro, gosto de plantar.

F- Queria ser ator. Adoraria interpretar.

E o futuro?

H- Está na humildade, na simplicidade, nos valores da terra e no respeito ao próximo, ao velho. Acontecerá uma tragédia que mudará tudo. Sinto isso por tudo que está acontecendo no planeta.

F- Acho que as coisas podem até continuar assim, desde que não exista vulgaridade. Sei que cada um é louco da sua forma, mas quando a coisa é feita só pelo capital e não pelo prazer, acaba vulgar. Estética plástica, mas sem valor interno.

Colaboração

Débora Bergamasco debora.bergamasco@grupoestado.com.br

Gilberdo de Almeida gilberto.almeida@grupoestado.com.br

Marilia Neustein marilia.neustein@grupoestado.com.br

Paula Bonelli paula.bonelli@grupoestado.com.br

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