Lá estava ele, sujo, frágil e charmoso

Lá estava ele, sujo, frágil e charmoso

Dimos Goudaroulis lança CD com instrumento barroco raro que achou por acaso, há 13 anos, em São Paulo

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2010 | 00h00

Próximo dos 40 anos, que completará em setembro, e há cerca de 15 radicado no Brasil, o violoncelista grego Dimos Goudaroulis vive um grande momento em sua fulgurante carreira. Lança este mês dois álbuns duplos. O primeiro registra a segunda etapa de sua gravação das seis suítes para violoncelo-solo de Bach (o CD com as três primeiras, de 2007, ganhou todos os prêmios como melhor gravação clássica do ano). Com direito a texto de apresentação exclusivo de Anner Bylsma, o violoncelista holandês pioneiro na execução do repertório para o instrumento nos séculos 17 e 18. Aos 76 anos, o guru do violoncelo barroco recebe com frequência seu admirador e amigo Dimos Goudaroulis em sua casa em Amsterdã.

O segundo lançamento também tem a ver com seu ídolo Bylsma. Porque Dimos pratica, com inteligência, rigor e talento, as qualidades que ele mesmo gosta de projetar no holandês: irreverência, enfoques não-acadêmicos, gosto pelo novo e supremo talento.

O elo perdido. O Tenor Perdido é um álbum duplo do selo Sesc repleto de primeiras gravações mundiais de "Alletamenti" (divertimentos, que de fato são suítes barrocas com cinco movimentos opondo lento e rápido) de Giuseppe Valentini (1680- 1752) e sonatas de Andrea Caporale (?-1757), compositores do século 18. Mas mais importante é a estreia de um novíssimo instrumento, o violoncelo piccolo de quatro cordas.

Ao lado de Dimos, que pilota o tenor perdido, está Nicolau de Figueiredo, o mais importante cravista brasileiro, com notável carreira internacional, perfeito como parceiro do piccolo e magnífico nas incríveis paráfrases de William Babell (1690-1723) sobre o prelúdio, a abertura e três árias da ópera Rinaldo, de Haendel. Nicolau está extraordinário na faixa-solo Vò far Guerra, 9 minutos de diabolicamente difíceis improvisos.

Acredite. Dimos "descobriu" o violoncelo tenor barroco de quatro cordas empoeirado num ateliê em São Paulo, como ele escreve no encarte do álbum (que você pode ler na íntegra no portal do Estado, além de ouvir trechos dos CDs): "O que faz um violoncelista que tem uma queda por instrumentos antigos e amor especial pela música dos séculos 17 e 18 quando, entrando num atelier de luteria para ver um arco, descobre por acaso num canto, mal conservado e quase abandonado na poeira, um violoncelo pequeno e muito antigo? Ele o compra imediatamente para salvá-lo, mesmo sem saber exatamente o que ele é! Foi o que fiz, quando visitei um lutiê em São Paulo, lá em torno de 1997, recém-chegado ao Brasil e já morando na grande cidade..."

O instrumento, tido como "de criança", era, na expressão do violoncelista, "pequeno e charmoso, obviamente muito antigo, barroco, meio torto, assimétrico e barrigudo - talvez alemão?" Montou-o com cordas de tripa e cavalete barroco. Encurtando: o cellinho tinha as notas dó-sol-ré-lá (do grave ao agudo); ele tirou o dó grave e acrescentou a corda mi aguda. Pronto: fez-se o milagre. "Ele começou a cantar no agudo e o som ficou três vezes maior! Meu Deus, que transformação rápida e surpreendente, que som lindo e cortante, que timbre maravilhoso!"

Anos de pesquisa indicaram que existiu um repertório para o cello barroco tenor de quatro cordas. A aventura, porém, não se transformou numa tese acadêmica, mas num texto de cerca de dez páginas recheadas de rigor e sabor. "Existe um repertório original que certamente foi escrito para este instrumento, mesmo sem ser diretamente atribuído a ele, com características musicais que não deixam dúvidas sobre a identidade do instrumento para o qual foi escrito."

Inédito. E, além de defender essa tese, Dimos e Nicolau de Figueiredo nos presenteiam com um álbum duplo excepcional. Imaginem, aqui no Brasil, alguém "descobre" um novo instrumento barroco, define seu repertório e o grava de modo formidável - em condições técnicas também excepcionais, capitaneadas pelo compositor e arranjador André Mehmari, que gravou, mixou e masterizou as gravações realizadas nos últimos três meses em seu estúdio, que carinhosamente apelida de Monteverdi. Uma ou outra dessas peças de Valentini e Caporale já foi gravada - mas nunca num tenor de quatro cordas. Estamos diante, portanto - e isso é inédito -, de uma primeira gravação mundial de repertório barroco italiano do século 18.

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QUEM É

DIMOS GOUDAROULIS:

O violoncelista nasceu

em 1970, na Grécia. Em 1996 mudou para o Brasil, quando passou a se

dedicar à interpretação historicamente orientada da música antiga.

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