Kronos. Desafio místico

CD do quarteto de cordas americano reverencia o compositor russo Martynov

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2012 | 03h11

"Contemplando-se o rosto de Swann enquanto ele ouvia a frase, poder-se-ia dizer que ele estava em vias de ingerir um anestésico que dava mais amplitude à sua respiração." É assim que Proust descreve a sensação de Swann enquanto ouve, ao lado de Odette, uma pequena frase recorrente da sonata de Vinteuil que o fulmina, transformando-a no mote de seu amor por ela, em No Caminho de Swann, o primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido.

O "anestésico", no caso, é mero eufemismo de época. Cerca de 80 páginas depois, quando Swann já sabe que Odette o descartara e ouve de novo a pequena frase da sonata, radicaliza: "Ela pertencia a uma ordem de criaturas sobrenaturais e que nunca vimos, mas que, apesar disso, reconhecemos deslumbrados quando algum explorador do invisível consegue captar uma, trazê-la do mundo divino a que teve acesso para brilhar por poucos momentos sobre o nosso".

Quem lembra estas passagens é o pesquisador holandês Marcel Cobussen, no livro Rethinking Spirituality Through Music (Ashgate, 2008). Ele se pergunta se "Proust estaria aqui escrevendo sobre música espiritual". Possivelmente. Em todo caso, esta é uma boa pista para se entender - e ouvir - adequadamente o novo CD do quarteto de cordas norte-americano Kronos, intitulado Music of Vladimir Martynov, lançado no mercado internacional pela Nonesuch e disponível no iTunes (US$ 11,99). Martynov, que completa 66 anos no dia 20, é uma das descobertas mais recentes da tribo dos compositores místicos, ou espiritualistas.

Grandes vendedores de discos, gozam de prestígio entre públicos mais amplos; mas, intramuros da tribo contemporânea, são ridicularizados porque voltam a usar a linguagem tonal. Você certamente já ouviu falar dos poloneses Henryk Gorecki, Penderecki e do estoniano Arvo Pärt. Pois quem gosta da música zen dos citados precisa conhecer Martynov, que praticou música experimental e trabalhou no estúdio de música eletrônica do Museu Scriabin, em Moscou.

Eclético, montou o grupo de rock Boomerang e escreveu uma ópera-rock em 1978 que já dava sinais de seu misticismo, Visões Seráficas de São Francisco de Assis. Desiludido, desistiu da composição e enfurnou-se no ano seguinte na Academia Espiritual de Trinity Lavra de St. Sergius, para se dedicar à preservação do canto tradicional ortodoxo russo. "Este mergulho num mundo anterior ao nascimento da música clássica ocidental", escreve Greg Dubinsky no excelente texto do encarte, "levou-o a conceber novos modos de relacionamento entre vida e arte".

Na década de 90, escreveu dois manifestos dando conta de sua nova estética: O Fim da Era dos Compositores e A Zona do Opus Póstumo. Ao contrário do que pode parecer, na verdade Martynov diz que a morte abre a possibilidade de uma nova vida. Argumenta que a tradição musical clássica e a vanguarda se exauriram. A música de nossa era de decadência hesita entre a repetição de velhas ideias e a tediosa busca pelo que é superficialmente novo. Fácil de afirmar, difícil de desafiar. Pois, diz Dubinsky, "Martynov oferece uma nova prática". Relê o minimalismo de Riley, Reich e Glass sob a ótica da tradição ascética e hermética da igreja ortodoxa russa de introspecção e êxtase conquistados por meio de uma prece incessante. "A repetição", escreve Dubinsky, "traz a ordem metafísica aos sons do mundo, unindo a música das esferas com a do corpo humano. Neste movimento circular ininterrupto, não há começo nem fim. Por meio da insistente repetição de uma única fórmula, a mente bloqueia o mundo exterior".

Vladimir Martynov quer manter o ouvinte num estado de "contemplação arrebatada". E sua música envolve mesmo os nossos ouvidos e nos faz participar desses mantras hipnóticos? As três peças encomendadas pelo Kronos são exemplos perfeitos dessa estética. É música do tipo ame ou odeie.

Beatitudes foi composta a pedido do Kronos. Uma melodia de 18 notas é repetida incessantemente. Martynov quer que sua música funcione como um narcótico sonoro.

Schubert-Quintet (Unfinished), em dois movimentos, foi escrita em sobreposição ao célebre quinteto de cordas em dó maior de Schubert que contém um dos adágios mais intensos da história da música. Para esta execução, o quarteto reencontrou-se com a violoncelista Joan Jeanrenaud, integrante do grupo por 20 anos. Martynov absorve o estilo de Schubert e prolonga cada momento sonoro como se este devesse perdurar eternamente. "É como se ele examinasse cada detalhe do texto schubertiano com uma lupa, ou microscópio", diz Dubinsky

A obra mais intensa, Der Abschied (O Adeus), ocupa 40 minutos. Martynov escreveu este estupendo e original quarteto de cordas em memória de seu pai, o musicólogo Ivan Ivanovich, morto em 2003 aos 96 anos. Ele praticamente reproduz a vigília que fez junto ao pai agonizante.

É provável que execuções medianas tornem essas obras insuportáveis aos ouvidos. Mas, interpretadas com a qualidade e o comprometimento do Kronos, elas são memoráveis.

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