Krajcberg quer de volta obras que precisam de restauro

Escultor nega restauro aos 110 trabalhos doados à prefeitura de Curitiba

Evandro Fadel / CURITIBA, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2010 | 00h00

Acostumado a usar suas esculturas de troncos de árvores queimadas como grito de revolta contra a destruição do mundo, o escultor polonês Frans Krajcberg, vai levantar a voz para recuperar 110 obras doadas para a prefeitura de Curitiba. Ele alega que elas não têm sido tratadas com o devido cuidado. "Não posso ser tão humilhado, quero de volta meus trabalhos", disse. "Espero que me permitam levá-las de volta."

O artista, que mora em Nova Viçosa (BA), recebeu informações e fotos que mostram sujeira no teto de acrílico da estufa onde as obras ficam no Jardim Botânico, além de problemas nas esculturas sustentadas por fios de nylon. "Quero de volta meus trabalhos e vou processar a prefeitura de Curitiba. Não tinham o direito de fazer isso." Segundo ele, a ideia do espaço nasceu num momento em que Curitiba era considerada cidade ecológica. "Hoje não é mais", criticou.

Presidente da Fundação Cultural de Curitiba (FCC), responsável pela manutenção do espaço e conservação das obras, Paulino Viapiana afirmou que, em 2005, quando assumiu a direção do órgão, fez um diagnóstico de todos os espaços culturais. O Centro de Conservação e Restauro (Cecor) da Universidade Federal de Minas Gerais constatou a inadequação do Espaço Frans Krajcberg, por causa da natureza das obras, de material orgânico, que se deteriora facilmente.

O Cecor sugeriu a adaptação do espaço, que precisa ter iluminação e climatização adequadas, além da restauração de algumas esculturas. "Fizemos um projeto e, em 11 de novembro de 2008, o Fundo Municipal de Cultura aprovou R$ 308 mil para aplicar na climatização, vedação, restauro de algumas obras e estabilização de outras", informou Viapiana. Faltava apenas a autorização do autor para a restauração, uma das exigências do decreto de 2003, que criou aquele espaço.

Segundo Viapiana, a fundação tinha feito contato com o assistente de Krajcberg, José Alves, para trabalhar na restauração. "Em 21 de novembro fui ao Rio conversar com Krajcberg, levamos o documento para que ele autorizasse a restauração, mas ele se recusou a dar essa autorização", lamentou o presidente da FCC.

Sem uso no ano de 2008, os recursos voltaram à prefeitura no exercício seguinte. Por isso, Viapiana disse ter conversado com diretores da empresa O Boticário para uma parceria. A empresa preparou um projeto, que contemplava uma ampliação do espaço. "Krajcberg negou novamente e pediu as obras de volta."

O artista não quer que toquem em seu trabalho. "Fizeram miséria, está tudo quebrado. Se queriam transformar meus trabalhos deveriam devolver." Mas não deve ser fácil, porque em 2005 o artista assinou um termo de doação para a prefeitura, que pretende realizar a restauração. O espaço é uma atração que, somente em abril, atraiu 12,6 mil pessoas.

"Há novo projeto para revitalizar o espaço e vou correr atrás dos recursos, mas ainda faltará a autorização dele para o restauro", adiantou Viapiana. "Se não conseguir, terei de partir para alternativa legal. O que não posso deixar é que se deteriore. Somos responsáveis pela manutenção e conservação."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.