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Konitz, Marcello e Bach

Ouvimos Konitz no Village Vanguard, um porão apertado em que a circunferência das mesas induz a uma escolha – ou você usa para apoiar um cotovelo ou colocar um copo

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

26 de abril de 2020 | 03h00

Estávamos passando uma temporada em Nova York e recebemos a visita de amigos de Porto Alegre, que chegaram dizendo que queriam fazer um programa bem, mas bem nova-iorquino. Fiz um rápido levantamento mental do nosso orçamento e consultei uma revista da semana atrás de um programa bem, mas bem nova-iorquino para oferecer aos amigos sem nos arruinar. Descobri: Lee Konitz no Village Vanguard. No caminho do bar tentei resumir a carreira e a importância do músico que iríamos ouvir. Seu instrumento era o saxofone alto. Ainda muito jovem, tinha participado da famosa gravação de um noneto liderado pelo Miles Davis, com arranjos, entre outros, do Gil Evans, e lançado com o título Birth of the Cool, pois registrava o nascimento de uma sonoridade nova no jazz, um estilo “cool” em contraste com o calor do bebop, em voga na época. Depois Konitz participaria de outro grupo inovador, formado em torno do pianista Lennie Tristano – talvez o mais longe que o jazz experimental já chegou. O Village Vanguard, um porão apertado em que a circunferência das mesas induz a uma escolha – ou você usa para apoiar um cotovelo ou colocar um copo – estava cheio. Konitz não era exatamente um músico popular, mas tinha seu público e era presença constante nos bares de jazz da cidade, da qual raramente saía. Eu tinha julgado mal nossos visitantes, que insistiram em pagar a conta, maravilhados com o programa bem, mas bem nova-iorquino, que tínhamos lhes proporcionado. Konitz morreu na semana passada, com mais de 90 anos. Não sei que idade tinha quando o ouvimos naquela noite. Olhando a sua figura, ninguém diria que se tratava de um revolucionário.

Adaptação. Declarações desse tipo são temerárias, podem ser contestadas em um minuto e liquidadas em dois, mas eu declaro sem medo: a música mais bonita já feita na Terra é o adágio do concerto para oboé e cordas em ré menor de Alessandro Marcello. Não fui eu que descobri a beleza do adágio, claro, mas durante muito tempo ela foi ignorada e a própria existência do Alessandro, confundido com seu irmão mais conhecido Benedetto Marcello, não era certa. Talvez por Alessandro ter sido filósofo, poeta, fidalgo veneziano e muitas outras coisas antes de ser compositor. E, para complicar ainda mais, ter composto algumas das sua obras usando um pseudônimo, Eterio Stinfalico. Hoje o concerto para oboé faz parte do repertório de muitas orquestras e o adágio brilha. E se ainda for preciso reforçar meu voto, convoco do passado o testemunho de ninguém menos que Johann Sebastian Bach, autor de uma adaptação para cravo do adágio que ele também amava. Bach fazia arranjos de obras de outros compositores, principalmente dos italianos, e o concerto para oboé do Alessandro devia fazer parte de algum lote de partituras, nada indicando que Bach, de tanto admirá-lo, resolvera ficar com o adágio como se fosse dele. Se bem que – fofoca – numa das poucas cópias publicadas do concerto a única assinatura que aparece é “JSB”. 

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