Klaus Kinski põe sua cólera em versos

Ele escrevia em ritmo febril, mais de dez poemas por dia. Na época em que morou em Paris, em 1952, Klaus Kinski transbordava criatividade poética. Tinha apenas 22 anos e já havia sido prisioneiro de guerra, passado pelo hospício e iniciado sua carreira artística nos palcos berlinenses. Seus textos, ferventes de ódio e provocação, paixão e crença na vida, ficaram perdidos por mais de 40 anos.Só agora, quase dez anos depois de sua morte, em 23 de novembro de 1991, os poemas são publicados por uma editora alemã e rompem o crivo da crítica como a descoberta literária do ano. O lançamento de Febre - Diário de um Leproso faz parte de uma série de homenagens ao ator, um dos maiores da história do cinema, que completaria hoje 75 anos. Além de retrospectivas de seus filmes, exposições fotográficas, peças teatrais, livros de fotos e biografia, está sendo lançado um CD com o ator alemão Ben Becker fazendo uma leitura dramática dos poemas."O livro era para se chamar Bergell", diz Thomas Harlan, de 73 anos, no prefácio de Febre. O escritor alemão foi grande amigo de Kinski e dividiu com ele a espelunca parisiense onde os poemas foram escritos. "Bergell tinha 16 anos, era norueguesa. Klaus encontrou-a nos idos de 1952 em um banco de pracinha. Numa noite de outono, à meia-noite, ele a trouxe pelas mãos, ´para sempre´, para o nosso quarto", narra. Segundo Thomas, Kinski a chamava assim por causa do vale suíço pelo qual era apaixonado. Ele recorda que Bergell era muito branca, com uma tez "quase transparente", cabelos longos e pretos. A jovem sofria de câncer e do coração.Kinski cuidou dela como uma filha e tornou-se seu amante. "Por causa da falta de espaço, tudo aconteceu na minha insuportável presença", prossegue Thomas. "Os textos vinham a galope, surgiam um atrás do outro e, muitas vezes, sem eu dar atenção, eram recitados numa ebulição febril, descuidada, seguida por urros e gritos, em meio à falta de ar de Bergell, em linha reta, uma febre contínua, constante. Klaus, fora de si, deitado ao lado de Bergell, sussurrava os poemas no ouvido da amante como se quisesse compartilhar o fim com ela", recorda.Já há muito tempo os versos de François Villon e Arthur Rimbaud percorriam as veias de Kinski. Possuído e visionário, o ator-fetiche de Werner Herzog clama pela morte em vários de seus poemas - "A morte só aparece uma vez por semana/ e te destrata/ ah! se vocês soubessem como é difícil estar enforcado e não poder morrer!"Anos mais tarde, incorpora Nosferatu (1979) no cinema e vivencia a dor da perenidade: "A morte não é tudo. Muito pior é não poder morrer", lastima-se como vampiro do filme. Como ator ou poeta, Kinski não interpretava seus personagens, ele os encarnava. "Ah, dêem-me minha morte/ para que eu fique", suplica o artista por trás dos versos, ele que tentou duas vezes o suicídio.Os poemas existenciais de Febre escancaram a personalidade kinskiniana: "Não sei quem sou, nem quem fui (...)/sou inteiramente terno/ e me sinto mais forte do que todos/ às vezes tão forte/ tão fraco/ tantas vezes." Para Kinski, Deus não merece respeito: "Eu lhes grito porque não quero rezar/ pois Deus me mijou entediado/ eu agora vejo, ele nunca sentiu minha falta/ e os seus verões já não ficam mais quietos." Em tom colérico, o poeta escreveu: "Senhor Jesus!/ você tem que sangrar/ eu acho que você tem que vomitar!!!!!" e "Eu escarro no Deus que, de joelhos,/ gargareja com hóstias como um porco doente."O sumiço dos poemas Duas semanas depois de Kinski levar Bergell para morar com ele e o amigo, a situação de saúde da namorada piorou muito e a vida a três tornou-se insuportável. Kinski decidiu, então, viajar com a jovem "para a Bretanha e, depois, talvez, para a Suíça, para Bergell, supondo que seria mais fácil para ela morrer no lugar que tinha o seu nome", presume Thomas, pois depois da viagem Kinski jamais fez comentários sobre o paradeiro da amada.Quando Bergell sumiu, levou junto uma cópia dos poemas que havia ganho de presente de Kinski. Os originais foram parar numa mala cheia de fotos e outros objetos pessoais considerados supérfluos por Kinski e Thomas. Antes de viajar para Haifa, Israel, os dois a deixaram guardada com Alain, um amigo, e nunca mais voltaram para buscá-la. Só 40 anos mais tarde, depois da morte de Kinski, é que a mala - já sem o original de Febre - foi entregue aos herdeiros. Como nesse meio tempo Kinski ficara famoso, Alain acabou emprestando a mala para duas francesas. Sem que soubesse, elas pegaram tudo o que quiseram, devolveram a mala sem metade do conteúdo e desapareceram.Os poemas do livro recém-lançado foram achados por Peter Geyer. Há dois anos, o documentarista de cinema e admirador do irascível protagonista de Aguirre, a Cólera dos Deuses navegava sem pretensões pela Internet quando, de repente, caiu numa página de leilões. Resolveu checar as ofertas e acabou encontrando algo impressionante: "coleção 192: K. Kinski, ator (textos e lembranças de uma amiga de juventude 1948-1956)." Geyer não teve dúvidas: pegou o carro e viajou de Berlim para Munique decidido a participar do leilão e a pagar qualquer preço pelo achado. "Tratavam-se de textos inéditos que clamavam por publicação e não podiam cair nas mãos de alguém que não tivesse nada a ver com a arte ou mesmo ficar sob a custódia de colecionadores", diz Geyer, que pelo equivalene a R$ 3.500 levou a caixa com fotos, cartas de amor, poemas e desenhos para casa.A coleção pertencia à recém-falecida mulher de um médico alemão, que havia sido amante de Kinski na juventude e que, antes de morrer, com medo de ser descoberta pelo marido, desfez-se do que podia. "A privada deles vivia entupida", conta a faxineira responsável por esvaziar o apartamento e que entregou a caixa de Kinski para o leilão.Até hoje permanece um enigma sobre como os poemas de Febre foram parar nas mãos da mulher do médico, o que as francesas fizeram com o material roubado e qual o paradeiro de Bergell. Nessa história, só uma certeza: "São os poemas de Kinski", garante Harlan.

Agencia Estado,

17 de outubro de 2001 | 19h57

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