Kings of Leon vai além do bairrismo

O caipirismo burguês do Kings of Leon, de fato, não foi uma unanimidade quando pousou no último domingo para se apresentar na segunda noite do SWU. Parecia uma micareta indie. A Fazenda Maeda foi entupida por uma legião de patricinhas e mauricinhos que assistiram a um show morno e irregular.

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2010 | 00h00

Apesar de a banda ter declarado anteriormente que retalharia seu repertório com temas de seus quatro discos lançados e apenas quatro faixas do álbum novo, já disponível no site do grupo (não para download), mas que chegará às lojas do mundo apenas na terça-feira, esperava-se ouvir mais composições novas. Tudo porque Come Around Sundown é uma obra-prima. Tranquilamente o melhor trabalho da carreira de uma década do Kings of Leon e que também ganhará versão em vinil.

Ciente do diamante sonoro que concebeu, o quarteto norte-americano armou-se com um aparato extremamente rigoroso para evitar que o disco vazasse, um esquema semelhante ao tentado por José Padilha, com seu Tropa de Elite 2. Em vão. O conteúdo fonográfico na internet é como água de hidrelétrica jorrando para todos os lados. Sempre há um dique, uma comporta que cede. Foi o que ocorreu com Come Around Sundown, que já circula na rede há alguns dias.

O álbum é muito bem cuidado, com variações de estilos dentro do próprio rock e de outros gêneros, como o country de Back Down South. Sempre com riffs de guitarra e levadas cativantes, o disco prova que a família Followill (os irmãos Caleb, Jared, Nathan e o primo Matthew) amadureceu de forma notória. Há tempos o Kings of Leon não faz mais apenas aquele som rural do interior do Tennessee, de onde vieram, mas, sim, um rock universal, mais amplo e autêntico, menos engessado e bairrista. Muito diferente do que apresentou em 2005, no Tim Festival, na mesma noite de The Strokes e Arcade Fire.

Mesmo sendo de fácil assimilação, Come Around Sundown é mais rock e menos pop do que se esperava. Depois de conquistar territórios muito além dos Estados Unidos e vender milhões de cópias com sucessos como Molly"s Chambers e Use Somebody, o novo lançamento do Kings tem temas, em sua maioria, com cara de hit. Como, por exemplo, Radioactive, muito bem escolhido para ser o single. Embora o videoclipe, já lançado, seja brega e de extremo mau gosto, a música é excelente.

O grande mérito de Come Around Sundown é ser um disco com clima. A primeira faixa dá indícios logo de cara, com a melancolia e o sofrimento de The End. Guitarras, baixo e bateria - com muita originalidade e bom gosto da banda -, também conseguem criar a mesma atmosfera densa e bonita em Pyro, Birthday, The Face e o destaque do disco, Mi Amigo. Temperatura distinta ouve-se nas pegadas Beach Side, No Money, The Immortals e Mary, esta última, com cara de rock de arena, lembra Aerosmith, com vitalidade e a voz rasgada de Caleb.

No fim das contas, são 13 composições carregadas de uma carga emotiva das mais pesadas, que, graças a isso, transparecem imagéticas, cinematográficas. Quem gostou da atuação do grupo no SWU fatalmente vai se perder, se encantar com Come Around Sundown. Quem torceu o nariz, tem uma boa chance de mudar de ideia. É esperar que o show com essas joias chegue ao Brasil o quanto antes, já em 2011.

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